



Traduo de Fbio Fernandes
Editora tica


Ver Caroline 
entrando no baile
com um vestido vermelho de
tirar o flego quase me
casou uma parada cardaca.
Nunca a achei to linda.
Estou louco de paixo
Por ela. Mas  tarde
Demais. Ela est namorando
outro rapaz e eu tenho
a meu lado Miranda,
que parece apaixonada por 
mim. Mas continuo
sonhando em beijar
os sedutores lbios
de minha doce Caroline.


RESUMO

Quando Miranda me abandonou sem maiores explicaes, nas vsperas do Natal, achei que nada mais poderia me acontecer de ruim. Fiquei com o corao despedaado. Perder 
minha linda namorada, a menina mais badalada da escola, me parecia o fim do mundo.  talvez tenha sido por isso que acabei me metendo numa confuso ainda maior. 
Passeando um dia no shopping, vi um casal brigando. O rapaz parecia violento e me apressei em defender a garota. Foi assim que conheci Caroline, e acabei metendo 
os ps pelas mos. Minha intromisso acabou com o namoro dela com aquele cara. Caroline ficou magoada. Eu me senti pssimo! E para tentar consertar as coisas, cismei 
de arruma-lhe um novo amor.
Caroline passou a se interessar por outro garoto, Miranda voltou para mim... mas acho que fiquei maluco. Agora eu s penso em Caroline, em seu doce sorriso, em seu 
olhar meigo e profundo. O cime por v-la sempre acompanhada est me matando.










1 - METENDO-SE ONDE NO FOI CHAMADO

Ela vinha deslizando pela neve como um anjo sem asas. Seus cabelos longos e sedosos pousavam como um vu dourado sobre os ombros; seus delicados ps mal deixavam 
pegadas no p branco resplandecente em que pisavam. Com a respirao presa eu esperava.
- Miranda - chamei, esticando o brao e tentando toc-la, aguardando ansioso pelo momento em que ela estivesse perto o bastante para que eu a pudesse tomar em meus 
braos e beij-la ardentemente, como a beijara em tantas outras noites.
 medida que ela se aproximava, porm, seu maravilhoso rosto foi adquirindo uma expresso sombria.
- O que h de errado? - perguntei, pensando o que poderia ser to horrvel para deixar Miranda abatida daquele modo.
- Sinto muito, Jake... - disse ela, cada palavra brotando de sua boca como que envolta numa nvoa misteriosa - ... mas acho que chegou a hora de ns dois...
Pam! Pam! Pam! 

- Acorde, Jake! - berrava minha irmzinha Kristen do lado de fora da porta do meu quarto. - Voc prometeu que ia me ajudar a montar os enfeites de Natal. - Com a 
voz meio abafada, ela bateu na porta com mais insistncia.
Esparramado na cama, tentei ignor-la. No que eu estivesse dormindo. Afinal, como  que um cara pode dormir quando acabou de ter o corao partido? No s partido, 
mas despedaado, estraalhado! Eu no sabia o que seria pior: continuar deitado e mergulhado nos pesadelos com a noite em que Miranda tinha desmanchado comigo, ou 
ajudar a minha irmzinha a pendurar os enfeites de Natal.
- Por favor, Jake! - protestou Kristen - Voc sabe que eu no alcano. 
De acordo com meu relgio, eram 11h37 da manh. Desde que Miranda rompera comigo eu andava acordando cada vez mais tarde nos sbados. Simplesmente no tinha vontade 
de sair da cama. Mas Kristen estava tentando ser legal, at onde uma irm de doze anos pode ser legal. Eu tinha dezesseis, e era o seu "irmozo". Ela precisava 
da minha ajuda, e eu precisava de algo que me ocupasse o tempo. Pulei da minha amarrotadssima cama,
caminhei at a porta e destranquei.
Quando a porta abriu, Kristen arregalou os olhos para mim.
- Menino, voc t com uma cara pssima! - exclamou ela, revistando com o olhar minha camiseta superdesbotada e as ceroulas de flanela com que eu vinha dormindo desde 
a semana anterior. - No precisa desabar desse jeito s porque aquela cretina deu o fora em voc!
Aquela no era a coisa certa para ela me dizer naquele preciso momento. Fuzilando Kristen com meu olhar mais assustador, comecei a fechar a porta no nariz dela.
- No, desculpe, Jake! - ela se apressou em remendar, colocando um p no batente para bloquear a porta. - Por favor!
- Ento no quero mais nem um pio sobre minha vida amorosa - retruquei, franzindo a testa - Voc no sabe de nada...
Penteando os cabelos com os dedos, eu me sentia ainda mais desmazelado que de costume.
- No sei de nada sobre a sua vida amorosa ou sobre o amor em geral? Porque eu acabei de ler um artigo na Teen que explica como perceber se um garoto realmente gosta 
da gente, ou uma garota, no seu caso, e...
Eu me inclinei com fora contra a porta:
- Kristen, no tenho tempo nem pacincia para ouvir isso.
- T bom, t bom! - disse ela, erguendo os braos. - Desculpe, vou ficar de boca fechada, prometo. As coisas esto l na sala.
Quinze minutos mais tarde eu j estava do lado de fora de cassa. A friagem daquela tpica manh de inverno de Michigan fazia um violento contraste com a colcha quentinha 
sob a qual eu estivera enterrado at poucos instantes atrs. Ao lado da escada de mo que me esperava, apoiada no batente da porta de entrada, achava-se a grande 
caixa de papelo que continha as grinaldas artificiais. Peguei a caixa. "Vamos nos livrar disso logo, meu chapa", decidi com os meus botes enquanto ajeitava a escada. 
Agarrando uma batelada de grinaldas de plstico, escalei os degraus, quase escorregando num torro de neve.
- V com cuidado - advertiu Kristen.
Grunhi em resposta. Cair de uma reles escada de mo e quebrar o pescoo seria um final pattico e nada herico para a minha tragdia amorosa.
No demorou muito para ajeitar as grinaldas - eu ajudava a pendur-las todos os Natais -, e quando acabei desci da escada para admirar o trabalho. Fiquei olhando, 
ao mesmo tempo que esfregava o polegar espetado pelo espinho de algum dos enfeites.
Kristen ajustou os laos vermelhos.
-Ficou demais, Jake! A mame vai ficar to contente de ver que a gente j terminou. 
Sem dvida. Eu sabia que a mame estava atarefadssima na rua desde o comeo da manh e precisava de nossa ajuda em casa. Todos os sbados, das oito s duas, ela 
zanzava de carro por toda a Grand Rapids - a biblioteca, o mercado, a lavanderia -, um verdadeiro trator em forma de me.
- Papai prometeu que ns vamos colher a nossa arvore no prximo fim de semana - informou Kristen, derrapando numa poa congelada.
Fazendo que sim com um gesto de cabea, dobrei a escada, recolhi o martelo e a caixa de pregos. Eu sabia que estava agindo como um zumbi, mas no podia evitar. Quando 
eu voltaria a ser eu mesmo? "Quando Miranda vier de novo para mim", respondi em pensamento. "Quando ela perceber que fomos feitos um para o outro."
- Coloque a caixa de grinaldas de volta no sto - ordenei a Kristen, em tom de voz inexpressivo. - Eu levo estas coisas para a garagem.
Com os braos carregados, virei-me e quase trombei de frente com Sid Halleman, meu melhor amigo, que segurava com as mos enluvadas um prato embrulhado de plstico. 
Sid deu um passo rpido para trs.
-Ops! - exclamou, equilibrando o prato. - Voc quase transforma isso aqui em farofa! - Ele me olhou no rosto mais de perto e sacudiu a cabea. - Rapaz, voc t com 
umas olheiras do tamanho de um bonde. No dormiu de noite?
- Aquela cretina... - murmurou Kristen.
- No provoque minha irm, Halleman - adverti, tentando sorri apesar da dor que sentia na alma.
Eu sabia que minha irmzinha estava tentando ser solidria, mas a nica coisa que ela conseguia fazer era cutucar ainda mais minha ferida. Alm disso, o que uma 
pirralha como ela poderia entender das coisas do amor?
Felizmente Sid se mancou e erguei o prato para distra-la. Kristen mordeu a isca.
- O que  que voc trouxe ai?
- A minha me mandou uns biscoitinhos para vocs - explicou Sid - Ela est testando uma nova receita para a festa de fim de ano da escola do meu irmozinho.
- Hummm! - exclamou Kristen lambendo os beios - Eu adoro tudo que sua me faz - declarou, arrebatando o prato da mo de Sid e fugindo para dentro da casa sem parar 
de cheirar alegremente os biscoitos durante o caminho.
Sid me seguiu at a garagem:
- Boa disfarada, hein? - observou.
Sid mora na casa ao lado, e posso sempre contar com ele aparecendo em minha casa pelo menos duas vezes por dia.
-  foi mesmo. Eu sei que estou com um pssimo aspecto, Sid, mas da prxima vez preste ateno no que voc diz na frente da Kristen, t legal? - pedi, jogando co 
toda a raiva as ferramentas de volta a seu lugar para enfatizar a seriedade das minhas palavras. - O que voc ia achar de seu irmozinho ficar o dia inteiro dizendo 
como voc deve cuidar da sua vida?
Sid se apoiou contra a cadeira de jardim dobrada.
- Tudo bem, desculpe.  que  difcil entender porque a Miranda fez isso, sabe? Eu ainda no consigo acreditar que vocs terminaram.
- Que ela terminou comigo, voc quer dizer - corrigi, pendurando a escada com violncia num gancho na parede da garagem. - Ela no era simplesmente uma garota, Sid. 
Era Miranda, a garota perfeita, a garota que, desde que eu me conheo por gente, eu sonhava encontrar um dia. E agora eu tinha encontrado, percebe? Ela era minha. 
Minha! D para voc entender isso?
Sid fez que sim com a cabea, mas eu no tinha certeza e ele compreendia mesmo. ele era do tipo aventureiro, que gostava de relaes passageiras e sem compromisso. 
Nunca havia se apaixonado - e muito menos tivera o corao partido como eu.
Eu me perguntava quem, na verdade, poderia realmente me compreender. Sid com certeza, no. Ele no sabia nada a respeito de relacionamentos srios. Tive vontade 
de conhecer algum com quem pudesse conversar e trocar idias. 
-Bom, eu sei que no tenho nem os olhos azuis, nem os lindos cabelos loiros, nem as belas curvas de Miranda - brincou Sid -, mas se puder ajudar em algo... como 
amigo,  claro!
- Desculpe se estou chato demais, Sid.  que tem sido difcil...
- Eu sei, cara. Eu realmente sinto muito pelo que aconteceu entre vocs dois. Deve doer pacas.
"Nem queira saber como", pensei, olhando para o meu melhor amigo.
-Voc se lembra quando estvamos na oitava serie, Sid? Costumvamos a conversar sobre garotas...
- Bastante - concordou ele, com um sorriso malicioso. - Isso sem falar nas sesses de estudo daquelas revistas Playboy que eu afanava do meu primo, lembra?
- Voc sempre quis se apaixonar por uma ruiva com grandes olhos castanhos e um belo corpo - continuei, ignorando o comentrio. - Ela teria de gostar de todas as 
modalidades de esporte e no poderia ser do tipo que ficava dando risadinhas idiotas. 
Sid concordou com um movimento de cabea.
- E a minha garota ideal teria de ser loira, com cabelos compridos e olhos azuis. Teria de amar os animais e gostar de fazer programas ao ar livre, como acampar, 
por exemplo.
- E Miranda gosta de acampar?
- Acho que nunca vou descobrir - admiti, suspirando - Estvamos planejando fazer alguma coisa na primavera, mas isso no vai mais acontecer.
Miranda tinha sido a minha primeira namorada de verdade. Nenhuma das garotas que eu havia conhecido antes chegava sequer perto da imagem de garota ideal que eu acalentava 
em minha mente, e fora por essa razo que Miranda me atingira com a fora de um raio. Fora identificao  primeira vista, pelo menos para mim. Instantaneamente 
eu soube que ela era perfeita.
Eu j a havia convidado para o baile de fim de ano da escola, e andara economizando tudo o que ganhava no meu trabalho de meio perodo no Canil Hillcrest para comprar 
um verdadeiro presente de natal para ela. E agora, depois de uma simples frase que sara de seus lbios, estava tudo arruinado. Meu corao ficara aos pedaos, exatamente 
como dizem essas canes cafonas e antiquadas. Minha vida ficara uma porcaria. Uma porcaria sem esperana de melhora. Uma porcaria, sem esperana e...
- Saia dessa, cara! Acorde! - bradou Sid, me dando um leve soco no brao. - O que voc acha da gente comer um pouco daqueles biscoitos?
- Estou sem fome.
Sid balanou a cabea.
- Voc realmente est numa pior. Tudo bem, ento vamos dar uma volta no shopping.
- No, eu...
- Jake, olhe s para voc! - Sid estendeu os braos  sua frente e fazendo uma expresso de zumbi. Lancei um punho fechado na direo dele, sem fora e nem inteno 
de bater, mas mesmo assim ele se desviou a tempo. - Assim voc vai pirar de vez, Jake Magee. Precisa sair um pouco de casa. Precisa a voltar se equilibrar nas prprias 
pernas.
Ele estava certo, pensei com tristeza. Minha vida estava em frangalhos. Se eu no comeasse logo a enfrentar o problema, o problema  que ia comear a me enfrentar.
- Tudo bem tudo bem. Vamos ao shopping ento. - cedi. Do jeito que me sentia, no fazia diferena onde fossemos ou deixssemos de ir.
Entrei em casa para pegar algum dinheiro e minhas luvas, e me deparei com Kristen debruada sobre a mesa da cozinha, com um copo de leite e um prato de biscoitos 
j quase vazio a sua frente.
- Estou indo ao shopping - informei.
Ela engoliu o leite excitada.
- Ah, me leva junto! - implorou.
- De jeito nenhum. Diga a mame que volto l pelas cinco.
- Vou pensar no seu caso - ela respondeu, mostrando uma lngua coberta de migalhas - E, depois, eu no ia mesmo gostar de sair com voc. Voc no est nem um pouco 
divertido ultimamente, Jake.

Era o ultimo sbado do ms de novembro, e parecia que todo mundo de nosso bairro da cidade de Grand Rapids, Michigan, estava no shopping. Os enfeites natalinos de 
l faziam nossas decoraes domsticas parecerem totalmente insignificantes. Por todos os lados havia pomposos laos de veludo vermelho nas vitrines das lojas e 
gigantescos bombons vermelhos e brancos, na forma de bengala, pendurados ao teto.
Tudo to festivo e animado... Suspirei. Sem Miranda, eu no tinha nenhuma razo para comemorar o Natal naquele ano.
- S de olhar voc eu j comeo a ficar deprimido, Magee - reclamou Sid. - No d pelo menos para fingir que est feliz?
- Bem que eu gostaria. - repliquei.
Sid balanou a cabea.
- Nesse caso, deprima-se  vontade. Vou dar um pulo na livraria pra ver o que h de novo. A gente se encontra aqui em vinte minutos, t bom?
Ele foi embora eu fiquei comigo mesmo, tranqilamente sentado num banco no meio do shopping. "Por que Sid teve tanta pressa em se livrar de mim?", me perguntei. 
"Ser que estou to chato e baixo-astral assim?  melhor eu entrar na linha logo antes que meu melhor amigo tambm me d um p na bunda." Eu olhava fixo para um 
cone de sorvete que derretia num cesto de lixo bem na minha frente quando o som spero e crescente de umas vozes prximas, e fez levantar a vista.
Um garoto alto e desengonado e uma garota de longos cabelos escuros discutiam ferozmente - at a, nada da minha conta. Mas quando eu olhei melhor reparei uma poa 
de liquido se espalhando pelo cho. A garota segurava um copo de papel vazio em uma das mos, e havia uma grande mancha em sua cala azul clara. O rapaz segurava 
os cotovelos dela e os sacudia com fora.
"Mas que tipo de imbecil  esse, para ficar maltratando uma garota desse jeito?", perguntei-me, com o rosto subitamente afogueado ao me dar conta de que aquele "imbecil" 
tinha uma namorada, e eu no. Onde estava a justia neste mundo? Ele no merecia ter uma namorada se no sabia como tratar uma mulher. 
Antes de perceber o que estava fazendo, levantei-me e comecei a me encaminhar at o casal, com meus tnis guinchando contra o piso de ardsia. O rudo fez o rapaz 
parar brevemente os olhos na minha direo, mas ele se voltou de novo para a garota e continuou a rugir diante dela, ainda apertando-a com fora pelo brao.
- Ei, cara, quem voc pensa que ? - disse alto e bom som. Foi s quando ele me olhou de novo com uma expresso furiosa que percebi que era Brian White, estrela 
do time de basquete da Hillcrest High School, a minha escola.
- No se meta - vociferou Brian, sem nem sequer continuar a me olhar. - Isto  entre ela e eu.
Tentei ignor-lo, mas no  fcil ignorar Brian White. Perguntei, dirigindo-me a garota:
- Ele est machucando voc?
Ela sacudiu a cabea.
- No,  s...
Brian esticou o brao e me empurrou:
-Olhe aqui, cara, quando eu digo para voc se mandar  para voc dar o fora sem mais nenhuma pergunta, sacou?
No ato eu senti que tinha chegado ao meu limite. No sei se foi por causa da minha frustrao por ter perdido Miranda ou por estar farto das perguntas chatas de 
todos os meus amigos e da minha famlia a respeito do nosso namora, mas de uma coisa no havia a menor dvida: eu j tinha agentado muita coisa nos ltimos dias 
para, ainda por cima, ter de engolir o desaforo de um homem Neanderthal com complexo de superioridade. Ento fiz uma coisa que nunca teria me imaginado fazendo: 
devolvi o empurro.
Empurrei Brian White, o superatleta.
Senti estar fazendo algo que precisava fazer muitos dias antes. Foi um alivio. Foi bom demais.
Mas, em vez dele reagir como eu imaginava que inevitavelmente reagiria - me dando o troco em dobro -, Brian simplesmente foi tirando o time de campo.
-  isso a, estou caindo fora! - gritou, erguendo as mos. - No vou mais jogar nenhum dos seus joguinhos, Caroline. Por que voc e o Tot ai no vo dar um passeio 
no plo Norte antes que eu mude de idia?
Ele ento irou pelos saltos dos sapatos e saiu andando rapidamente.
- Brian, volte aqui! - gritou a menina, com uma voz de quem est a ponto de romper num choro desatado. - Brian, no seja assim, por favor!
Simplesmente no dava para entender. Eu acabara de livrar aquela pobre garota de ter o brao quebrado por um troglodita, e agora ela estava pedindo pro canalha voltar?
- Me desculpe - comecei, tateando -, mas se voe no se importa de eu perguntar, ser que no vai ser melhor ficar sem um cara como esse? Agora pouco eu cheguei a 
pensar que ele ia partir voc em duas!
Ela se voltou para mim. A expresso furiosa de seus olhos me pegou totalmente de surpresa.
- Por que voc no cuida da sua prpria vida? - perguntou, esfregando a cala com um leno de papel numa intil tentativa de limpar a mancha.
- Eu pensei que ele estivesse... quero dizer... sua bebida estava toda espalhada, as roupas manchadas, e ele estava chacoalhando...
- Ele no me empurrou! A gente s estava conversando. Um garotinho que passou por aqui trombou em mim e derrubou a bebida das minhas mos - retrucou ela, franzindo 
a testa. - Seria melhor voc ir ao oculista antes que acabe se metendo em uma fria de verdade.
A coisa toda no fazia o menor sentido. Eu no pretendia ficar l ridicularizando a menina, mas o sarcasmo no tom de voz dela me fez continuar:
- Mas ele estava brigando com voc, no estava?
Ela suspirou e se calou por um segundo.
- Isso no ... Isso no  da sua conta.
- Mas se ele pretendia machucar voc...
- Ele pretendia me machucar sim, mas no da maneira que voc pensa - contestou ela, esmagando com raiva o copo de papel - ele estava desmanchando comigo, ficou claro 
agora? Satisfeito, senhor Sherlock?
Uma lagrima rolava pelo rosto dela.
- Eu estava tentando fazer ele mudar de idia, mas acho que daquele ponto em diante voe tomou as rdeas da situao e decidiu por mim.
"Hora de cair fora, Magee", pensei. Eu j podia at imaginar a manchete: GAROTA INFELIZ EMPURRA ABELHUDO METIDO A SALVADOR DE DONZELAS PELA ECADA ROLANTE DO SHOPPING. 
- Ento me desculpa - foi tudo que consegui dizer.
Reparei que alguns passantes nos olhavam, e percebi que provavelmente eles achavam que eu era o cara que a estava fazendo sofrer.
- H... bom, ao que voc est melhor agora... - balbuciei, procurando um jeito de escapulir.- Sinto muito por ter me metido na sua vida. Sinto mesmo.
Ela relaxou um pouco.
- Voc s estava tentando ajudar, certo?
- Certo - respondi. - E me desculpe mais uma vez.
E sa andando. Mas fiquei com a imagem do rosto dela molhado de lgrimas gravada na mente.

2 - ANJO IMPROVISADO

Papai Noel, ou um de seus inmeros "ajudantes" , como meus pais faziam eu acreditar quando era pequeno, estava sentado num grande trono no meio da praa principal 
do shopping, com um garotinho encabulado no colo.
Apenas uma semana antes, Miranda e eu estivemos contemplando uma cena parecida. Fizemos piada com a idia de tirar fotos no colo do Papai Noel e brincamos de adivinhar 
que cada garoto estava pedindo a ele.
"Uma Barbie com uma minissaia de couro preta, mascara e chicote", tinha imaginado Miranda para um a loirinha tmida com vestido de babados, acompanhado por uma me 
gorda. "E aquele garoto quer uma metralhadora de verdade e uma roupa camuflada do Rambo", ela continuou, apontando para um menininho raqutico. Mas eu opinei que 
ele talvez tambm preferisse a Barbie, e isso a fez rir apertando minha mo com mais fora.
- Voc  to bobo, Jake - dissera ela, se esticando na ponta dos ps para poder esfregar a ponta do seu nariz no meu.
Eu me inclinara, roando meu queixo em seu cabelo sedoso e beijando sua testa com ternura.
-  que adoro fazer voc rir - murmurei baixinho, beijando seus lbios uma vez ou outra.
- E eu adoro voc, Jake - sussurrara ela, emoldurando meu rosto com as duas mos e retribuindo o beijo, enquanto algumas cantigas de Natal soavam ao fundo em algum 
canto do shopping.
- Ns nos amamos um ao outro - conclura eu -, e isso  a coisa mais importante do mundo para mim.
Agora uma longa corda circundava a enorme arvore de Natal colocada no meio da praa central do shopping, igualzinho aquele dia com Miranda. Dzias de crianas aguardavam 
ao lado de seus pais e mes para poder dizer ao Papai Noel o que iam querer ganhar de presente.
Eu sabia o que eu queria de presente, e tambm sabia que no o teria.
Sid deu um leve muro em meu brao.
- Pare com isso, cara! - exclamou. - Voc est viajando de novo, tenho certeza.
- T bem, t bem...
Aquele passeio no shopping s estava me fazendo sentir pior. No apenas no conseguia tirar Miranda de meus pensamentos, como ficara estranhamente incomodado com 
aquela cena entre Brian White e sua namorada.
- Olha, Magee, ainda tenho de comprar alguns presentinhos. Voc quer vir comigo ou prefere ficar na sua?
- Bom, eu... acho que vou continuar zanzando por ai sozinho mesmo.
- Tudo bem. Ento a gente se encontra no carro s quatro e meia, ta legal?
- Legal - respondi, j me virando para o outro lado e comeando a caminhar. Num dos cantos da praa avistei uma arvore de Natal diminuta, decorada somente com pequenos 
recortes. Chegando mais perto, percebi que cada recorte era um anjo de papel, e havia um nome escrito em cada um deles. Um grande cartaz dizia: ADOTE UM ANJO NESTE 
NATAL!
Uma mesa havia sido montada junto  rvore. Ao lado de uma das extremidades da mesa se sentava uma mulher de meia idade segurando uma prancheta, e uma garota mais 
ou menos da minha idade estava sentada na outra ponta. Parei. Era a garota da briga - a agora ex-namorada de Brian White, graas a mim. Comecei a sair de fininho, 
mas foi intil.
- em que posso ajudar? - cantarolou uma voz familiar. - Ah, no! Voc de novo! Ser que tambm vai me fazer perder esse trabalho voluntrio?
Sorri, encabulado.
- Eu... h... estava s matutando... o que significa isso a?
- Isso a  uma obra de caridade - explicou a garota com a voz seca - Algo que voc hoje j tentou fazer.
Ela realmente estava conseguindo fazer com que eu parecesse um babaca.
- Olha aqui, Carolyn...
- Ca-ro-line - corrigiu ela.
- Ca-ro-line - repeti -, eu estou interessando de verdade. Para que  essa caridade?
Caroline olhou para o teto levemente irritada, mas logo se controlou.
- Os nomes escritos nos recortes dessa arvore de anjos foram selecionados por um rgo assistencial - comeou ela, num tom maquinal. - So crianas carentes, que 
correm o risco de no ganharem nenhum presente neste Natal. Qualquer pessoa que quiser ajud-las pode escolher um nome e comprar presentes, que sero entregues anonimamente 
 criana escolhida - ela fez uma pausa - Alguma pergunta?
- No, obrigado - murmurei, voltando-me outra vez para a rvore. O projeto era bom, tive de admitir. Era duro pensar numa criana que ainda acreditasse em Papai 
Noel e na magia natalina acordando no dia de Natal e no encontrando nenhum presente debaixo da rvore. Caramba, e talvez nem mesmo tenham uma rvore! Afinal, as 
rvores tambm custam dinheiro.
Aproximei-me mais ainda e dei uma checada nos nomes escritos nos recortes. Havia meninos e meninas de diversas idades. Um anjinho de papel captou minha ateno. 
Nele estava escrito: "Kevin, idade: 6". Droga, seis anos de idade e nada de Natal!
Todos os meus presentes de Natal para aquele ano j estavam resolvidos. Eu mesmo tinha feito um porta-carto de madeira para o meu pai, e para a minha me j havia 
reservado na estufa local duas belas plantas ornamentais. E, para Kristen, compraria dois cds que ela prpria tinha pedido.
Quanto a Miranda, eu andara economizando tudo que podia para comprar um pingente de ouro em forma de corao com um minsculo diamante incrustado, uma pequena maravilha 
que vira no departamento de joalheria da maior loja do shopping. J tinha juntado quase toda a quantia necessria, mas agora aquele dinheiro to suado perdera sua 
finalidade.
Subitamente descobri o que faria: gastaria parte dele com Kevin. Assim, em vez de ficar simplesmente entregue as lamurias e deprimindo a mim mesmo e a todos que 
estivessem em minha volta, eu estaria dando a algum uma boa razo para estar comemorando aquele Natal.
E, alem de tudo, no podia negar que sentiria uma certa satisfao em mostrar a Caroline que eu sabia, sim, alguma coisa a respeito de ajudar o prximo.
Quando arranquei o anjo de Kevin da rvore, um outro recorte de papel fisgou o meu olhar: PROCURA-SE UM CARA LEGAL PARA CURAR UM CORAO PARTIDO. No havia nenhum 
nome escrito nem nada que identificasse a autora do apelo, mas eu tinha uma bela idia de quem poderia ser. "E  em parte por minha culpa", pensei. "Analisando bem, 
talvez seja totalmente por minha culpa." Peguei o anjo annimo, tirei-o da arvore e o enfiei sorrateiramente no bolso da camisa. Ento, com o anjo de Kevin nas mos, 
caminhei de volta at a mesa das secretarias voluntrias da campanha.
Quando me aproximei, Caroline, que examinava alguns papis, automaticamente perguntou:
-Em que posso ajudar? - Mas quando ela levantou as vistas dos papis e viu que era eu de novo seu tom de voz se tornou exasperado. - Deixe-me adivinhar: voc quer 
adotar um anjo!
- Acertou - respondi - E j escolhi - acrescentei calmamente, mostrando a ela o anjo de papel com o nome de Kevin.
- Voc est falando srio, no est? - perguntou ela, com uma das sombracelhas arqueadas.
- Claro que estou. Um cara tem o direito de praticar uma boa ao quando quer, no tem?
- Quanto a isso, nenhum problema - replicou ela, extraindo um formulrio da pasta. -  s que voc no se encaixa no perfil habitual dos nossos doadores. - Caroline 
esboou um sorriso tenso. - Bom,  s preencher esse formulrio - prosseguiu. - Traga seus presentes aqui mesmo, l pela ultima sexta-feira antes do Natal, assim 
ns podemos entreg-los s crianas a tempo, antes do feriado 
Era obviamente um aviso que ela tinha dado muitas vezes. Depois de preencher cuidadosamente o formulrio, empurrei-o de volta para a mesa. Ela deu uma lida por cima.
- Obrigada, h... Jake. Voc vai fazer uma criana ficar muito feliz neste Natal. Se  que pretende ir mesmo em frente com isso,  claro.
- Pode ter certeza de que pretendo - repliquei. - Alis...
E tirei do meu bolso aquele outro recorte que havia retirado da rvore.
- Voc pegou outro anjo!? - perguntou ela, surpresa.
- No exatamente. Eu s... eu s estava me perguntando o que significa isso aqui... - expliquei, mostrando-lhe a no to misteriosa mensagem e assistindo fascinado 
a uma onde de vermelhos incandescentes que tomavam conta do rosto e do pescoo dela.
- Isso no  da sua com... H, isso era s... O que eu quero dizer  que...  que isso no  meu, no! - murmurou ela, fazendo uma bola com o anjo e jogando-o com 
violncia debaixo de uma pilha de papeis.
- Olhe, voc no precisa explicar nada... - comecei.
- Era s uma brincadeira... - interrompeu ela. - Bah, droga, para que ficar jogando esse joguinho besta afinal?... Voc sabe exatamente do que se trata...
- Sei, sim - respondi, interrompendo-a antes que ela desatasse a falar. - Olhe, eu estou me sentindo como se tudo fosse culpa minha. Se eu no tivesse me intrometido, 
talvez voc e Brian se entendessem. Sinto muito mesmo. eu sei como  ruim uma coisa dessas acontecer logo antes das festas.
- Ah, muito obrigada, senhor Sensvel - retrucou Caroline, enquanto rabiscava um desenho qualquer em um bloco de anotaes  sua frente.
- Ei,  srio! Estou passando exatamente pela mesma situao esses ltimos dias.
-  mesmo? - perguntou ela, enviesando a cabea para o lado com um ar malicioso. - Quer dizer que, normalmente, voc no age de maneira to irracional assim?
- O que voc quer dizer com isso? - perguntei, pensando se ela no iria comear a me alfinetar de novo.
- Nesta ultima hora voc tentou comear uma briga com meu namorado e se inscreveu para comprar presentes de caridade - respondeu ela. - E isso  o que eu vi.
Ri um pouco, ela tambm. Foi bom rir de novo. Eu no conseguia nem sequer lembrar de quando fora a ultima vez que dera uma risada.
- Acredite, eu realmente sinto muito se estraguei as coisas para voc - desculpei-me pela milsima vez.
- Tudo bem, isso acontece. No esquente - disse Caroline, sem conseguir esconder uma expresso triste, que demonstrava que para ela no era assim to simples no 
esquentar.
- Posso pagar uma coca cola pra voc, ou algo parecido? - propus. - Eu me sinto em divida com voc depois do que fiz.
- No, obrigada, eu... - comeou Caroline, fazendo uma breve pausa. - Bom... porque no, afinal? - terminou dizendo, mais para si mesma do que para mim. - Ns poderamos 
compartilhar nossas historias e contar um ao outro como conseguimos nossas cicatrizes de guerra.
- Daqui a meia hora, ta legal? - perguntei.
- Daqui a meia hora - concordou ela.

3 - CORAES DESPEDAADOS

- Obrigada por se oferecer para me ouvir, Jake - disse Caroline, enquanto caminhvamos rumo  praa de alimentao. - Ainda estou muito confusa com relao ao que 
aconteceu agora pouco. - ela encolheu os ombros e continuou. - Provavelmente agora eu deveria perguntar a voc o que aconteceu. Fiquei muito fora de mim para se 
dar conta do que passava.
- Sei exatamente como voc se sente - expliquei. - Desde que Miranda, a minha ex-namorada, rompeu comigo, a nica coisa que consigo  repassar mentalmente os mesmo 
cinco minutos uma vez atrs da outra, s para ver se no deixei escapar nenhum detalhe.
Ela balanou a cabea.
- Que mar ruim a nossa, hein? - observou, desanimada.
-  mesmo - concordei. - E no tem poca pior para ficar sozinho do que no natal. Especialmente quando voc no est esperando ficar sozinho.
Tnhamos chegado na praa de alimentao, e Caroline me conduziu  casa de sucos.
- Vou querer uma limonada - informou  garota atrs do balco, enquanto levava a mo  bolsa.
Fiz um sinal com a mo.
- No, de jeito nenhum - disse. - Foi idia minha eu que a convidei.
Entrei na fila e comprei duas limonadas. Bem quando samos do balco, demos sorte: um casal estava se levantando da mesa, e eu me apressei para peg-la antes que 
outra pessoa o fizesse.
Rindo, Caroline se enfiou pelo outro lado da mesa, sentou-se e deu um longo gole na limonada.
- Hum, est uma delcia! Obrigada, Jake - agradeceu ela, remexendo com o canudinho.
- De nada.  o mnimo que podia fazer.
Ela no me olhou. Em vez disso, enterrou o canudinho no copo e ficou brincando com ele.
- Sabe, tenho de ser sincera... Eu estava quase torcendo para voc no voltar.
- E por qu?
- Bom, uma metade de mim realmente precisava conversar com algum, mas a outra metade queria s ir para a casa, pra se esconder do mundo. Ou pra descobrir que Brian 
tinha ligado querendo fazer as pazes comigo. - Ela abaixou os olhos para a mesa. - O que duvido muito que acontea - concluiu. 
- No fique pensando nisso - aconselhei, remexendo o gelo no meu copo. - Voc tem que fazer coisas que sejam boas para voc. Quero dizer, algo como o que estamos 
fazendo agora: ver pessoas, conversar, relaxar. Eu acho que foi uma tima idia.
- Mesmo?
- Mesmo - continuei. - Pelo menos para mim est ajudando bastante. Eu j estava pensando que era a nica pessoa no mundo que tinha levado os ps no traseiro em plena 
vspera de feriado...
- Obrigada pelo lembrete - disse Caroline, afundando um pouco na cadeira. Seus cabelos longos, escuros e ondulados caiam na frente de seu rosto.
- Desculpe, Caroline, no era isso que eu queria dizer. O que eu quis dizer  que ajuda bastante falar sobre o assunto com outra pessoa, principalmente quando essa 
outra pessoa est no mesmo barco que voc.
Caroline jogou o cabelo para trs e levantou os olhos para mim.
- Tem razo, Jake - disse ela. -  s que...  que tudo isso est muito fresco para mim por enquanto.
A expresso dela se tornou mais sofrida, como se a ficha estivesse comeando a cair. Mas ento ela se empertigou um pouco e conseguiu dar um sorriso corajoso.
- Mas por que voc no em conta seu drama, hein Jake? Me d todos os detalhes sangrentos. Alias, exagere, torne a coisa toda mais deprimente o possvel. Assim vou 
sentir melhor a comparao.
- Hum,  um pedido duro de atender - respondi. - Porque na verdade no h muitos detalhes sangrentos. Eu fui pegar Miranda para a gente sair, e ela simplesmente 
me disse, na lata, que achava que j era hora de partimos para outra. Fazia s trs meses que estvamos namorando.
Fiz uma pausa, relembrando aquele momento perfeito e cheiro de paz, um instante antes que ela me desse a trgica notcia.
- O pior mesmo  que essa deciso dela veio do nada, sem a menor razo de ser nem o menor aviso prvio. Eu achava que tudo estava indo a mil maravilhas conosco.
Caroline deu um sorriso solidrio.
- Bom, essa minha briga com Brian esteve longe de vir do nada - confessou. - Ns j tnhamos brigado antes, mas sempre conseguimos superar. Esta foi a primeira vez 
que ele saiu andando, me deixou plantada e no voltou. - Ela suspirou.- Ai, ai, eu acho que dessa vez j era mesmo, Jake! Mas parece que ainda no engoli, entende?
- Detesto ter de assustar voc, Caroline - comecei -, mas quando chegar em casa a coisa vai comear a bater, e forte. Se houver  vista na sua casa fotos dos dois 
juntos, ou presentes que ele deu a voc, enfim, qualquer pequena coisa que a faa lembrar dele, por pouco que seja,  perigoso...
- Puxa vida, que animador - comentou ela.
- Meu conselho  que voc pegue imediatamente um aspirador e sugue tudo o que h em seu quarto - disse eu, meio brincando. - Assim voc no precisa nem olhar para 
as coisas, no precisa nem pr os ps l dentro antes de limpar a rea.
Enquanto observava Caroline tomar o resto da limonada, reparei como estava sendo bom colocar todas aquelas emoes enclausuradas para fora do sistema nervoso. At 
ento todo mundo parecia estar me tratando como uma porcelana a ponto de despencar pelas cataratas no Nigara, ou como um espcime cientifico raro que precisava 
ser cuidadosamente observado e monitorado. Nem Sid estava sendo de muita ajuda. Tudo o que ele conseguia fazer era encolher os ombros e me dizer para eu parar de 
me lamentar. Bom, agora parecia que pelo menos isso eu tinha conseguido.
- Estou tentando imaginar o que pode ter passado pela cabea de sua namorada, Jake - comeou Caroline, com um sorriso ao mesmo tempo triste e malicioso. - Quero 
dizer, fora o fato de voc ser escandaloso, impulsivo e cabeudo...
- Epa, pera! - exclamei. - Um cara com um corao estraalhado nem sempre age como deveria agir, lembre-se disso.
- Tava s brincando - disse ela fazendo uma pausa. - Mas, falando srio, Jake, voc no  assim to mau. Tenho certeza de que voc deve ter tratado a... Como  mesmo 
o nome dela?
- Miranda - respondi, afundando um pouco mais na cadeira sob o peso do nome dela.
- Miranda Thomas? - perguntou Caroline. - Uma loira, essa Miranda?
- Essa mesmo. Voc a conhece?
- Bom, eu tenho uma aula junto dela. Ento voc tambm  aluno da Hillcrest High School?
- H-h - admiti, surpreso. Eu simplesmente tomara por certo que um atleta como Brian White devia sair com garotas de outras escolas. - Mas nunca vi voc l.
-  que me mudei de Ohio para c nesse vero - explicou ela. - A Hillcrest  uma escola enorme, bem maior que minha escola anterior. Ainda no me acostumei. - Ela 
ficou subitamente pensativa. - Espere a... Voc  Jake Magee, certo? - perguntou. 
- Em carne e osso.
- Eu sabia que seu nome era familiar! Voc que escreve aquela tima coluna de esportes no jornal da escola! - exclamou ela, sorrindo - Voc  praticamente uma celebridade! 
Eu leio sua coluna todas as semanas.
- Nem de longe to celebre quanto Brian White.
- Ento voc sabia... - disse ela, um pouco melindrada. - No entendo, Jake. Se voc sabia quem ele era, por que praticamente tentou provocar uma briga com Brian?
- Pensei que ele ia machucar voc, Caroline. Serio mesmo. no raciocinei, s agi.
Ela pegou seu copo de limonada e recomeou a mexer o gelo com o canudinho. Seu olhar estava abatido.
- Acho que no fundo devia agradecer voc, Jake. Pensando bem, fui muito ingrata. Voc s estava tentando me ajudar.
- Mas eu...
- Nada de "mas" - pediu ela. - No se culpe por nada nessa historia. Voc viu bem o que aconteceu.  um problema meu, meu e de Brian. Talvez ele at j esteja tentando 
me ligar para desculpas.  o padro de sempre, sabe? Briga, desculpas, briga, desculpas...
-  engraado ouvir isso - comentei depois que ela se silenciou. - Na verdade, eu nunca tive nenhuma briga com Miranda. Tudo ia de vento e polpa. Simplesmente no 
d para entender.
-  estranho mesmo - comentou ela, e seus olhos iam ficando sombrios ao acompanhar um casal que passava de mos dadas em frente a nossa mesa. -  isso que eu estava 
tentando dizer antes, Jake. Voc parece ser um cara superlegal. Acho que a cabecinha de Miranda precisa ser examinada.
"No sei, no sei de mais nada", pensei. "Por enquanto, a nica coisa que vejo de errado nela  o fato de ter me chutado."
- Qual  o seu perodo de almoo, Jake? - perguntou Caroline, mudando subitamente de assunto e assumindo um tom falsamente animado.
- Segundo turno - respondi distrado.
- Ei,  o meu tambm! Talvez a gente pudesse almoar juntos um dia desses.
Carolina comeou mais uma vez a agitar seu gelo no copo enquanto eu olhava para o nada por cima do ombro dela.
De repente ela deu uma batida com as palmas da mo no tampo da mesa, chamando minha ateno de volta.
- Acho que estamos comeando a ficar meio tristonhos aqui. Talvez devssemos dar essa sesso por encerada, o que acha?
Foi s ento que reparei que meu estomago estava roncando. Olhei para o meu relgio: eram 4h35. eu tinha ficado de me encontrar com Sid s 4h30.
- Caroline, foi timo ter encontrado voc - comecei, ficando de p num pulo -, mas preciso ir embora voando.
Caroline concordou com um movimento de cabea.
- Eu tambm - disse, arremessando seu copo no cesto de lixo num lance certeiro. - Estou contente de termos feito isso. Me sinto um pouco melhor agora.
- Mas no muito...
-  verdade, mas pelo menos um pouco. Agora, quando chegar em casa, vou direto pear o aspirados gigante.
Ri um pouco, admirado com a coragem dela.
- Quem sabe? Talvez haja um recado de Brian esperando por voc.
Caroline abaixou os olhos.
- Bem que eu gostaria de poder acalentar essa esperana, mas tenho um claro pressentimento que desta vez...
Seus olhos umedeceram, e ela deu um passo para trs, com uma encolhida de ombros de desamparo.
- Boa noite, Jake. Estou contente por temos nos conhecidos. Amigos? - perguntou, estendendo a mo para mim.
- Com certeza! - repliquei, apertando a mo dela. - Cuide-se, Caroline.
- Voc tambm.
Comecei a abrir caminho pelo corredor lotado do shopping, driblando sacolas abarrotadas de presentes e crianas lamurientas e desajeitadas. Ento subitamente me 
dei conta que no sabia o sobrenome de Caroline.
- Espere, Caroline! - bradei, correndo de volta na direo dela. - Qual  o seu nome inteiro?
Ela se virou, esfregando o rosto com as mos mas no com rapidez suficiente: pude ver seu rosto banhado em lgrimas.
- Willis - respondeu ela, com uma voz quebrada. - A gente se v na escola, Jake - gritou, antes de voltar para o outro lado e sair correndo rumo a porta mais prxima.
Provavelmente comeara a "engolir" o que tinha acontecido. Balancei a cabea, enquanto me dirigia para o lado oposto do shopping, onde Sid havia estacionado. Caroline 
tinha sido mesmo paciente em ouvir minha ladainha sobre Miranda. Eu fiquei me sentindo melhor depois, mas ela sem duvida estava pssima. Talvez um bom papo de homem 
pra homem com Brian White ajudasse. Se eu conseguisse convenc-lo a pedir desculpas a Caroline, talvez ela se sentisse um pouco melhor. Quem sabe? Talvez eu at 
conseguisse concertar as coisas entre os dois.
Comecei a correr, sabendo que Sid iria ficar irritado comigo pelo atraso.


- Pensei que voc tivesse ido embora com o circo - gozou Sid quando cheguei ao carro.
- Muito engraadinho - respondi, e me enfiei no banco do passageiro. Sid ligou o motor. - voc no vai acreditar, Sid: me meti numa briga de fim de namoro, e sabe 
quem  o cara? Brian White.
- Aquele mascarado? - perguntou Sid. - Voc deve estar brincando.
Sid fazia parte do mesmo time de basquete que Brian, o time oficial da escola, e eu sabia que ele tinha opinies definidas a respeito da estrela do time - todas 
elas ruins.
- To falando srio., e a namorada dele, bom, acho que ex-namorada agora,  muito legal. O nome dela  Caroline Willis. J ouviu falar?
- Nunca.
- At ai, todos ns sabemos que Brian White no fala muito de ningum a no ser dele prprio - provoquei.
Sid deu uma risada sarcstica.
- Voc captou bem o cara, Jake - confirmou, enquanto enfiava uma fita do Sting no toca-fitas. - E da, o que aconteceu?
Contei a Sid a historia toda, desde a minha interveno na briga entre Brian e Caroline at a limonada com ela na praa de alimentao.
- Quer dizer que voc empurrou o Brian White? - perguntou ele soltando um assovio. - Minha nossa, voc deve estar querendo morrer!
- Pois ele no pareceu dar a mnima - insisti. - Simplesmente saiu andando. Pra falar a verdade, no sei por que Caroline namorava ele. Ela parece ser uma garota 
inteligente.
- E  gostosa? - inquiriu Sid, mexendo rapidamente as sombracelhas para cima e para baixo.
O velho Sid, sempre to previsvel.
- Sei l, cara! - resmunguei. - cabelo castanho-escuro, olhos castanho-claro, bem vestida... Francamente, no reparei muito no.
- Sei, sei... - disse Sid, lanando-me um de seus olhares maliciosos.
- Sem essa, Sid. No tem nada ver disso que voc est querendo insinuar - rebati. - At parece que eu ia sequer olhar pra outra garota depois de Miranda...
- Pois para mim j olhou - provocou ele.
Eu o encarei.
- No, senhor, isso foi completamente diferente...
- Certo, certo - cortou meu amigo.
E eu o ignorei pelo resto do trajeto at nossas casas.

4 - QUEM ENTENDE AS GAROTAS?

- Miranda est na terceira mesa - me informou Sid com a voz abafada.
- Obrigado por me avisar - respondi, enquanto carregvamos nossas bandejas at uma mesa vazia no fundo do refeitrio. - Mas eu preferia no saber.
- O que eu quero  que voc encare as coisas de frente e supere de uma vez essa historia toda - retrucou Sid, atacando seu cheeseburger antes mesmo de nos sentarmos.
"No olhe, Magee", disse a mim mesmo, "s vai piorar a situao". Mas eu tinha de olhar. E l estava ela, conversando animadamente com sua amiga Kara. Linda como 
sempre. Os belos cabelos loiros caiam lisos e sedosos por cima de um dos ombros, e malha cor de rosa fazia as maas de seu rosto resplandecerem. "Por que ela me 
parece mais bonita agora do que jamais foi?", eu me perguntava. Nunca imaginaria que isso fosse possvel.
Enquanto eu a admirava, um garoto alto se inclinou por cima da mesa e lhe disse alguma coisa no ouvido. Miranda riu, e pude enxergar a covinha de sua bochecha esquerda 
ficar mais funda. Eu costumava a esfregar o polegar por cima da covinha dela, s para v-la sorrir. Ela sempre sorria quando eu fazia isso. Rangi os dentes e senti 
meu rosto inteiro queimado.
- Por que voc no vai at l e diz alguma coisa para ela? - sugeriu Sid, me interrompendo os pensamentos. - Cara, no d para engolir isso, ela ficar cutucando 
sua ferida desse jeito. Quem ela pensa que ?
- Voc est brincando? - retruquei. - Pra que ficar rastejando?  intil, e alem disso eu tenho o meu orgulho!
Quando olhei em outra direo, vi Caroline sentada na mesa seguinte com um trio de garotas. Como  que eu no tinha visto ainda? Ela virou o rosto em minha direo 
e encontrou com meu olhar.
Acenei, e ela sorriu.
- Quem  aquela? - perguntou Sid.
- Caroline Willis - expliquei. - A "ex" do Brian White. A garota do shopping, lembra?
- Ah, lembrei. Voc no me contou que ela estudava na nossa escola. Ela  uma graa. 
- Bom, ento por que voc no a convida para sair? Ela est sozinha agora, e tenho certeza de que o Brian iria adorar.
-Ah, claro, com certeza - resmungou Sid. - Alias, por falar em Brian White, espere s at ver a nova estratgia de ataque que estamos trabalhando...
Quando no estava falando de garotas, Sid estava falando de basquete.
- Talvez eu v dar uma espiada no treino hoje  tarde. - comentei.
- Isso, v mesmo. Assim voc vai ter uma idia do que estamos preparando para os Red Plains na quarta feira. O time tem evoludo bem, cara.
- Estou curioso - falei distraidamente, mal resistindo a tentao de dar uma olhada por cima do ombro na direo de Miranda mais uma vez. "No d esse prazer a ela", 
aconselhei a mim mesmo. Mas o hambrguer tinha perdido todo o sabor e as batatas fritas estavam frias. A comida no preenchia o vazio que me causava saber que Miranda 
estava conversando com outro cara naquele exato momento.
Olhei de novo para Caroline, para desviar minha mente dos meus prprios problemas. Tive a impresso de que, enquanto conversava com as amigas, ela fazia um esforo 
enorme para manter uma aparncia animada. Eu sabia como era. Ela no deve ter recebido nenhum recado de Brian, pensei. Mas naquela tarde tudo deveria voltar aos 
eixos. Eu conversaria com Brian White e o faria entrar na linha.
Quando a campainha do almoo tocou, peguei minha bandeja.
- Vejo voc no ginsio - informei a Sid.
Ele tinha a boca cheia de batatinhas, mas fez que sim com um movimento de cabea e murmurou um ultimo comentrio a respeito do time, algo que soou como "o maior 
fuzu no centro da quadra".
- Com certeza - concordei, e sai com a minha bandeja rumo ao balco de devoluo de talheres.


Sid tinha treino no ultimo perodo, em vez de aula, e eu tinha horrio de estudos na biblioteca. Geralmente usava esse tempo para escrever meus artigos para o jornal 
da escola, mas naquele dia, quando chegou  hora do ultimo perodo, peguei um bloco de papel e uma caneta e me dirigi ao ginsio.
Quando cheguei, Sid e o resto dos Hillcrest Falcons, a seleo de basquete da Hillcrest High School, j estavam na quadra, de calo e camiseta, fazendo aquecimento 
e lanando bolas para todos os lados. Peguei um lugar nas arquibancadas.
Algumas vezes eu sentia falta de participar do jogo, de colocar as mos na bola em vez de ficar s assistindo. Eu havia jogado na oitava serie, e tambm participara 
do time dos calouros no primeiro colegial, em meu primeiro ano na Hillcrest. A verdade, porem, era que eu no passava de um jogador mdio. Eu me dava melhor como 
comentarista esportivo. E ver Sid o tempo todo batendo mais forte, correndo mais rpido e saltando mais alto do que eu em todos os esportes, terminara por me encher 
a pacincia.
Era como meu pai dizia: "V aonde seus talentos forem mais evidentes". Mas naquele instante, vendo as bolas repicarem no cho de madeira da quadra e ouvindo o rudo 
de ps guinchando e correndo contra o assoalho, desejei estar segurando uma bola de basquete em vez de uma caneta.
Foi ento que vi Brian e me lembrei de por que estava l. Ele era alto, pele clara, e seus braos e ombros era puro msculo. Seus cabelos loiros e curtos brilhavam 
sob as duras luzes dos holofotes do ginsio. Tinha olhos azuis e sombracelhas finas. As garotas provavelmente o achavam bonito, mas ser que suspeitariam do que 
se escondia por trs daquela fachada de superatleta? Ele se deslocava com desenvoltura pela quadra,e, enquanto o observava, eu me perguntei no que estaria pensando, 
se no time ou nos prprios movimentos.
Quando o time treinava uma nova jogada, um jogador chamado Turner se preparou para passar a bola a Sid. Mas Brian saltou de traves e a roubou, enterrando-a com facilidade 
na cesta.
O treinador assoprou o apito:
- Bom lance, White, mas voc estava em posio irregular.
- Eu sei, mas vi uma brecha... - replicou Brian, com um sorriso matreiro.
Sid ficou carrancudo. Eu podia at imaginar o que ele iria dizer mais tarde. Bem nesse momento um outro professor entrou no ginsio e acenou para o treinador Edwards.
- Cinco minutos de descanso, moada - disse o treinador, dando-me assim a chance de que precisava. Levantei e pulei as arquibancadas. Num canto da quadra Sid tomava 
um longo gole d'gua.
- Veio dizer oi pra estrela? - perguntou, com um tom acido e rancoroso. - Esse cara acha que  a nica pessoa do time, posso jurar.
- Eu sei - concordei. - , sim, vim falar com ele.
- Cara, voc deve ter pirado! - sussurrou Sid, quando eu j me afastava dele e do resto do time. - Se cuide, Magee! - escutei-o dizer em voz alta por trs de mim.
Onde Brian White tinha se enfiado?
Finalmente o localizei no fim de uma linha de cadeiras da arquibancada, enxugando o rosto com uma toalha. Caminhei em sua direo, sem saber como ele reagiria. Ser 
que Brian ia querer retomar a coisa no ponto em que eu a havia deixado?
- Ei, Brian - comecei, hesitante -, sou Jake Magee, o colunista esportivo do Hillcrest Herald.
Sem resposta.
- H... Como vai, Brian? - tentei novamente.
Brian levantou a vista.
- O que? - perguntou, como se estivesse olhando atravs de mim. Fiquei esperando ele saltar da arquibancada e comear a me estrangular, mas o cara simplesmente ficou 
l sentado, me olhando fixamente com um olhar perdido, como se eu fosse de vidro.
No se lembra de mim, constatei, no se lembra de que eu o empurrei no sbado. Provavelmente isso nem importava para ele. Ser que tambm j tinha esquecido que 
partira o corao de Caroline? Ser que essa era mais uma das coisas que no contavam nada para o grande Brian White?
Subitamente, conseguir que Brian se dispusesse a ir pedir desculpas a Caroline me pareceu algo cujo esforo no valia a pena. A idia de tentar consertar as coisas 
entre ele e Caroline estava fora de questo. Em vista disso, eu no tinha outra escolha a no ser fazer com ele uma entrevista que no queria fazer.
- Voc gostaria de dizer algumas palavras para o nosso jornal, Brian? - indaguei fingindo animao.
- Ah, mas claro! - respondeu ele, subitamente interessado em mim.
Brian jogou a toalha de volta no banco.
- Pode dizer ai que estou na melhor forma possvel para o jogo desta quarta feira contra os Red Plains. Voc vai fazer uma reportagem exclusiva sobre mim?
- Devo fazer? - perguntei tentando manter o tom inalterado.
- Estrela em ascenso, segundo melhor cestinha da regio, vigiado de perto por olheiros de times universitrios, tudo isso e mais um pouco, pode crer - proclamou 
Brian, exibindo um amplo sorriso. Seus olhos eram de um azul profundo, e ele inflamava o peito amplo enquanto sorria. - O jornal da cidade j me colocou na primeira 
pagina do caderno de esportes duas vezes esse ano - continuou.
- Imagino que seja difcil evitar que suba a cabeo, no? - provoquei, j sabendo que com aquele sujeito um sarcasmo mais sutil era puro desperdcio.
Ele concordou balanando a cabea:
- Mas eu tento me manter humilde - explicou.
- E as garotas? Acho que elas devem ficar muito impressionadas...
- Ah, pode apostar que ficam - confirmou Brian, sorrindo e abaixando repentinamente o tom de voz. - Chego a ter de enxot-las, sabe como ?
- Sei como  - respondi, apesar de no saber como era,  claro.
Ser que Caroline no se dava conta do crebro de ervilha que Brian tinha?
- Pra falar a verdade - continuou -, agora mesmo estou enxergando um par de admiradoras. Elas ficam rondando o ginsio na esperana de me ver.
Ouvi o rudo de passos no assoalho de madeira e me virei rapidamente, em parte esperando me deparar com Caroline. Mas a primeira garota que se aproximou era mais 
alta que Caroline. Loira, clios e olhos pintados, empetecada de maquiagem. Usava um batom brilhante, e corou quando Brian olhou para ela. A segunda era mais baixa 
e rechonchuda, de cabelos pretos. Ambas acenaram excitadas quando Brian comeou a andar em direo a elas.
Ele colocou seu brao em volta dos ombros da garota mais alta, que se inclinou para sussurrar algo no ouvido dele. Fiquei aliviado quando o treinador assoprou o 
apito e Brian teve de voltar correndo para a quadra.
Como ele podia preferir aquela garota - aquelas garotas - a Caroline? Obviamente Brian estava atrs de quantidade, e no de qualidade. Aquele sujeitinho no tinha 
a menor chance.
A saudade de meus velhos tempos de quadra desaparecera rapidamente. Eu no queria mais estar de volta ao time nem por um segundo.

Um delicioso aroma de espaguete me deu boas vindas em casa quando cheguei do trabalho, um emprego de pajem e "cabeleireiro" de ces que eu tinha depois da escola 
no Canil Hillcrest. Minha me j havia trocado as roupas do trabalho por confortveis moletons, e eu notei alguns vestgios de molho de tomate em sua bochecha quando 
ela foi mexer na grande travessa de forno.
- Est cheirando muito bem - comentei.
- J estamos pronto para comer - disse ela. - Mas antes v se trocar, filho, por favor. Voc est coberto de plos de cachorro. Vai fazer sua irm ter um acesso 
de espirros. - Ela me olhou mais atentamente. - Tudo bem com voc? - perguntou.
- Claro - respondi.
O perfume de salsicha e manjerico quase me fizera esquecer todos os meus problemas.
Quando voltei a cozinha depois de me trocar, todos j tinham comeado a comer.
- amos esperar voc, mas o cheiro estava tentador demais. - justificou meu pai, lambendo os beios.
Concordando com um gesto de cabea, eu me sentei e comecei a me empanturrar, enquanto minha irm reclamava da professora substituta que tinha na aula de cincias.
- Ela me disse para ficar quieta, e eu nem estava falando! - resmungou, mergulhando o po no molho marinara.
Minha me a olhou, e Kristen sacudiu a cabea:
- Eu no estava falando mesmo, me, juro. Estava s respondendo uma pergunta da Sonia. Ela queria saber se o Jake ainda estava livre. Ela acha ele uma gracinha.
- Como se eu fosse dar bola para uma menina de doze anos - intervim, franzindo a testa para a minha irm. - E no fique falando sobre mim por ai com todo mundo.
- No foi para todo mundo - defendeu-se Kristen, com um ar de franqueza. - Foi s para a Sonia, para a Jennifer, para Cntia e para...
soltei um gemido.
- No fofoque sobre a intimidade do seu irmo, e no fale durante a aula, ponto final - ordenou minha me secamente - Estou feliz de ver que seu apetite voltou, 
Jake - disse ela, virando-se para mim.
Olhei para o meu prato, agora quase todo vazio.
-  que... h... tive um dia cheio hoje.
- E isso por acaso significa que o caso Miranda est definitivamente encerrado? - perguntou meu pai, olhando-me por cima dos culos.
Lembrei-me de que em um momento difcil tinha jurado , e em voz alta, que nunca seria feliz de novo at encontrar um jeito de fazer Miranda voltar para mim.
- No, no exatamente - respondi, empinando o queixo. - mas surgiram novas preocupaes.
Todos ficaram me olhando. At Kristen ficou em silencio, e meu pai arqueou as sobrancelhas.
- J  quase Natal... - tentei explicar a meu pai. - Voc no disse pra gente: "Pense nos outros, no s em voc, entre no esprito natalino" etc. etc.? Pois bem, 
 mais ou menos isso o que eu estou fazendo.
Percebi que, se contasse para eles sobre Caroline, interpretariam tudo de forma completamente errada, e ento decidi em vez disso lhes dizer que ia comprar um presente 
para uma criana carente.
- Estou impressionada com voc, Jake - observou minha me quando terminei.
- Obrigado - disse eu.
Torci para que aquilo fosse suficiente para que eles no tocassem mais no assunto de Miranda, pelo menos at depois do Natal. Porque, se esquecessem do assunto, 
talvez eu tambm conseguisse esquecer.

5 - PAPAI NOEL INDECISO

Passei a meia hora seguinte olhando para o vazio. Caroline tinha contribudo tanto para que me sentisse melhor, que eu queria fazer o mesmo por ela. Por isso decidi 
tentar arranjar-lhe um encontro com algum. Mas o nico cara disponvel que eu conhecia era Sid, e definitivamente no dava para imaginar os dois juntos. 
O que as garotas procuram nos rapazes, afinal? Acho que, se soubssemos a resposta, todos os nossos problemas estariam resolvidos. 
Caminhando em direo  cozinha, passei pelo quarto de Kristen e dei uma espiada pela porta adentro. A msica que vinha em alto volume do estreo retumbava por todo 
o cmodo, e um amontoado de revistas, roupas, livros de bolso e toda a tralha que ela usava para cuidar do cabelo cobria a cama e parte do cho. Kristen estava pendurada 
no telefone sem fio, como sempre. 
- E ento eu disse pra Sandra ... - Ela parou para me olhar. - V embora! Isto aqui  zona privativa! - protestou. 
Mas eu estava olhando para a capa de uma das revistas dela. 
- Posso pegar essa revista emprestada por um minuto? - pedi. 
- Pra qu? 
-  ... h ... pra uma tarefa da escola. Preciso conferir uns anncios. 
- T bom - consentiu Kristen. - Mas no recorte nada sem me perguntar antes. 
Enfiei a revista embaixo do brao e desci para pegar um copo de leite. De volta a meu quarto, comecei a folhear as pginas, sacudindo a cabea diante de algumas 
delas. A revista era uma salada completa, que tinha desde artigos sobre penteados e desequilbrios alimentares at conselhos para conquistas amorosas e psteres 
de estrelas do rock. 
Reparei na foto de um cantor com cabelo prpura, tatuagem no brao e brinco na orelha. Ser que Caroline ficaria impressionada com a fama e as roupas transadas daquele 
cara, ou preferiria .Algum mais comum e certinho? Preferiria um cara comum, decidi. Virei para a outra pgina, e um artigo chamou a minha ateno. "O que elas gostam 
neles?", dizia o ttulo. 
Rindo, passei rapidamente a vista pelo artigo, que s dizia coisas que eu j sabia. Mas havia uma lista impressa num boxe lateral que me fez parar. Dizia: 
O que, exatamente, caracteriza o garoto perfeito? De acordo com nossas pesquisas, ele deve ser: 

1. Legal 
2. Inteligente 
3. Sensvel 
4. Divertido 
5. Bonito 

Aquilo me pareceu bastante sensato mas muito genrico. Eu precisava de detalhes mais especficos. No tinha cabimento tentar combinar uma garota do tipo caseiro 
com um cara que adorasse sair, ou um amante dos animais com algum alrgico a eles, como minha irm, ou, ainda pior, com algum que simplesmente gostasse de animais. 
Eu precisava fazer mais pesquisa de campo, como um professor gostava de dizer. 
Pensei em ligar para Caroline, mas no tinha o telefone dela. Quantos Willis devia haver na lista telefnica? Desci de novo at a cozinha para dar uma checada e 
encontrei nada menos que meia pagina de Willis. E eu nem sequer sabia o primeiro nome dos pais dela. 
Alm do mais, a idia de ligar para ela assim, sem mais nem, no me parecia l muito boa. Alguns caras, como provavelmente era o caso de Brian White, tm toda a 
auto confiana do, mundo na hora de ligar para uma garota, qualquer garota. Talvez essa aptido venha includa num enorme ego. Eu era bastante deficiente nesse departamento. 
Teria essa minha deficincia de alguma forma afetado o relacionamento com Miranda? Talvez eu no a tivesse escutado tanto quanto deveria. Talvez no tivesse encontrado 
as coisas certa para dizer no telefone, seja l o que fossem essas coisas certas. Que pensamento deprimente! 
Bem nesse momento meu pai entrou na cozinha, encheu um copo de leite e pegou um biscoito de uma lata. Ele me ofereceu um.
- J acabou a lio de casa? - perguntou com um olhar preocupado, enquanto eu me inclinava sobre o balco da cozinha com a lista telefnica escancarada na minha 
frente. 
Tpica pergunta de pai. 
- Por hoje, sim - balbuciei, com a boca cheia de biscoito. Fechei a lista telefnica com um suspiro. Ligar para Caroline estava fora de cogitao. Mas conversar 
no refeitrio da escola no estava. 
- O que h de errado com voc? - perguntou Sid no dia seguinte, no almoo. - Voc no ouviu nenhuma palavra do que eu disse. E mal falou comigo hoje de manh, na 
sala de ginstica. 
- Ela no est aqui - murmurei. 
Sid gemeu: 
- Miranda est a, Jake, na mesa em frente - informou ele, virando a cabea para apontar para ela. Havia um som de risadas vindo da mesa dela. - Cara, ela simplesmente 
no d sossego, no  mesmo? 
Ah, Miranda. Eu nem sequer me virei para ver com que garoto ela se sentara dessa vez. 
- Claro, ela quer esfregar um pouquinho mais de sal nas minhas feridas. Pra poder me dar um chute quando eu j estiver escarrapachado no cho, que nem uma barata 
morta... 
- Voc no est falando coisa com coisa - disse Sid - Alis, como de costume. 
- Olha, Sid, na verdade eu estou tentando encontrar a Caroline expliquei. - Preciso fazer uma pergunta a ela. 
- Que tipo de pergunta? - inquiriu Sid, com malcia. 
-Nada do que voc est pensando - repliquei. -  uma coisa civilizada demais pra sequer cruzar essa sua mente doentia.
Ao localizar Caroline do outro lado do refeitrio, caminhei at a mesa dela. Ela me viu e acenou. 
- Oi Jake! - cumprimentou, animada. - Estas aqui so minhas amigas Stacey, Nancy e Caty. Meninas, este  o Jake Magee, o famoso colunista esportivo do Herald. 
Enquanto cumprimentava as amigas de Caroline, eu me dei conta de que no a tinha visto de perto desde o sbado. Seus olhos estavam inchados, como se ela tivesse 
chorado por vrios dias seguidos. Ser que est to mal quanto aparenta?, pensei. Bem que podia usar um pouco de maquiagem para disfarar.
- Sente-se, Jake - convidou a garota chamada Stacey. - A gente no se importa de voc ficar aqui. 
- No, obrigado. Eu s tinha de pedir um favorzinho a Caroline - expliquei, e me voltei para ela, que agora parecia mais curiosa que qualquer outra coisa. - Eu andei 
pensando ... Se voc no estiver muito ocupada, talvez pudesse me ajudar a escolher os presentes do Kevin, o garotinho da rvore dos anjos. Quem sabe hoje a noite, 
a qualquer hora ... 
Caroline olhou para o lado, pensativa. 
- Hum ... Tudo bem, pode ser, sim. Vou estar na mesa das voluntrias hoje  noite, mas meu turno acaba mais ou menos uma hora antes de fechar o shopping.  muito 
tarde pra voc? 
- No, pelo contrrio - respondi. - Tenho de trabalhar at essa hora, de qualquer jeito. A gente se encontra na mesa, ento? 
- T legal. 
- timo. Obrigado - disse por cima do ombro quando j me afastava. 
- O que significou isso? - perguntou Sid quando voltei. 
- S fui dizer oi. 
- Cara, esse White  mesmo um babaca. Voc vai fazer mais uma visitinha a ele no treino de hoje? - perguntou Sid, devorando o resto de seu taco.
- No posso. Tenho bastante trabalho pra fazer no canil. 
Decidi no revelar mais nada a Sid. Ele era simplesmente incapaz de acreditar que um garoto e uma garota podiam ser s amigos e nada mais. Para que me submeter  
tortura de suas zombarias e insinuaes? 
Um cocker-spaniel de olhos tristes me olhava atravs da tela de arame. 
- Anime-se - eu lhe disse. - Aposto que as garotas acham voc lindo. 
Quando falei aquilo, o co levantou as orelhas e ganiu. Ele apertou o focinho contra a grade, e eu me aproximei para acariciar sua cabea sedosa. 
- Certo, certo - continuei. - Talvez eu esteja precisando de um cabelo mais comprido e de um focinho mais molhadinho, no  isso que voc quis dizer? 
Ofereci a ele um biscoito canino, e ele abanou o rabo. Escutei um latido cortante atrs de mim.
- , Riley, meu velho - saudei o grande collie na outra jaula. - Preciso de uns conselhos seus. O que  necessrio pra curar um corao partido? 
Riley uivou tristemente. 
- , acho que voc tem a mesma dvida que eu - respondi por ele, enquanto tirava meu grosso avental de trabalho. Eu raramente me preocupava em coloc-lo, mas aquele 
dia fora diferente. No ia ter a menor graa me encontrar com Caroline coberto de plos de cachorro e cheirando como um deles. 
Enquanto rumava para o shopping, reparei que um fino p de neve cobria o solo naquela noite. Eu ainda no tinha meu prprio automvel e, considerando quanto ganhava 
no canil, isso ainda ia demorar muito para acontecer. Mas meus pais eram bastante generosos nesse aspecto e me emprestavam seu carro, um Acura 1992, sempre que eu 
precisava dele. 
- Aaaatchim! 
Eu havia me impregnado de uma gua-de-colnia que encontrara no banheiro do canil, numa tentativa de esconder o cheiro de cachorro, mas isso me fizera ficar espirrando 
por quinze minutos seguidos. Torci para que o acesso acabasse logo. 
- Oi, Jake! - cumprimentou-me Caroline quando cheguei na mesa das voluntrias. - Vim um pouco atrasada hoje, e por isso vou ter de ficar ainda mais alguns minutos 
pra compensar. Tudo bem pra voc? 
- Sem problemas - respondi. - No se afobe. 
- Legal. Ali tem uma cadeira - indicou ela. 
Eu a arrastei para perto de onde Caroline estava sentada. 
- Como  que voc foi se envolver neste trabalho voluntrio? - perguntei para quebrar o silncio, enquanto me sentava. 
- Minha me faz parte do comit organizador, e ela comentou certo dia que precisavam de mais colaboradores voluntrios. Achei que o projeto era bom. - Caroline fez 
uma pausa. - Minha famlia adota um anjo todos os anos.
Comecei a fazer mentalmente a lista de coisas pela quais eu poderia procurar para dar de presente a Kevin, ao mesmo tempo em que tentava encaixar Caroline em algum 
padro. Trabalho voluntrio, obras de caridade e coisas do gnero. 
Observando-a trabalhar, reparei que aparentemente j no estava to infeliz quanto me parecera no almoo daquele mesmo dia. Ela se mostrava mais relaxada, mais alegre. 
- E como vo indo as coisas? - perguntei. 
Ela suspirou: 
- No to mal. Quando estou aqui tudo parece bem. Mas quando estou na escola ... - Suspirou de novo. - S a idia de dar de cara com Brian j me faz querer sumir. 
- Voc tem sorte de no ter o mesmo horrio de almoo que ele. Miranda tambm almoa no segundo turno, e pra mim  torturante no olhar pra ela. Tenho uma vontade 
louca de ver o rosto dela, mas a cada dia est sentada com um cara diferente. 
Caroline balanou a cabea. 
- Talvez ela volte pra voc, Jake, quando perceber o que est perdendo. Nunca se sabe ... 
- Espero que voc esteja certa. Espero mesmo. 
Depois que Caroline terminou de fazer a inscrio de mais um doador, seu expediente estava encerrado. 
- Bom, podemos ir. Voc trouxe as medidas? 
- Medidas? - perguntei surpreso. 
- O tamanho das roupas! - explicou pacientemente. 
Est impresso no verso do recorte do anjinho. 
- Ah, sei... Deve estar aqui em algum lugar. 
Encontrei minha carteira, extra dela o pedao de papel e o mostrei a Caroline. 
- T vendo? - disse ela. - Aqui esto os nmeros dos sapatos e das roupas de Kevin. 
- Roupas? E devem ser roupas? No posso comprar nenhum brinquedo? 
Imaginei um garotinho de seis anos rasgando os embrulhos de seus presentes, e pensei em como eu me sentiria naquela idade encontrando s roupas novas em vez de algo 
mais excitante. 
Caroline riu. 
- Claro que pode. Mas lembre-se: as roupas so uma necessidade. Os brinquedos so uma diverso. 
- Mas se divertir tambm  importante, principalmente quando se tem seis anos de idade.
- Tem razo, Jake. Ento vamos planejar. Quanto dinheiro voc pode gastar? - perguntou Caroline, animada. 
Eu lhe disse, e ela fez um gesto de aprovao com a cabea. - Isso  mais do que o suficiente. Aposto que voc trabalhou duro pra ganhar esse dinheiro - comentou. 
- Tenho um emprego de meio perodo depois da escola no Canil Hillcrest - expliquei. - Atchim! 
Torci para no estar entrando num novo surto de espirros. Estava me sentindo como minha irm, quando ela ficava perto de plos de gato. 
-  mesmo? - perguntou Caroline, enquanto comevamos a caminhar. - E o que voc faz l? 
Muita limpeza, mas tambm alimento os ces e fao cortes de plo e banhos. No geral  um trabalho divertido, a no ser quando tenho de limpar a jaula dos cachorros. 
Voc gosta de animais, Caroline? 
Adoro. Ns temos uma terrier branca, a Happy. E dois gatos tambm. 
Que sorte a sua! Minha irm. tem um acesso de espirros quando um gato passa do outro lado do quarteiro - contei - isso significa que os animais de estimao esto 
banidos l em casa. 
Caroline riu. 
- Deve ser horrvel. No posso me imaginar morando numa casa sem bichos de estimao. 
A essa altura ns j havamos chegado  maior loja de departamentos do shopping. A seo infantil ficava no segundo andar. Caroline me conduziu at uma arara repleta 
de jeans. 
Eu tateei o material novo e firme e tirei um par de calas do cabide.
- So muito pequenas - protestei. 
Caroline deu uma nova conferida no meu anjo de papel. 
- Aqui diz tamanho oito - informou ela. 
Encontrei um par do tamanho oito e balancei a cabea. Ainda pareciam pequenas demais. 
- Acho que j me esqueci do quanto uma criana de seis anos  miudinha - comentei. 
Acabamos escolhendo uma grossa malha de l vermelha e um par de botas de neve, e eu paguei tudo no caixa. 
- Muito bem - anunciei -, agora vamos comprar pro Kevin algo para ele simplesmente se divertir.
Ns nos dirigimos ao departamento de brinquedos, e no caminho tomamos um desvio pela seo de artigos esportivos. Dei uma paradinha para acariciar com a mo um longo 
e brilhante par de esquis exposto num console. 
- Voc faz esqui de montanha? - perguntei a Caroline. 
- Bom, no ano passado eu tentei. E adorei - respondeu ela. - Fui de frias com minha famlia para o Colorado, no ltimo inverno. 
- Eu sempre quis aprender - confessei a ela, enquanto olhvamos para o esqui. - Meu av me ensinou a esquiar em terreno plano, mas nunca fiz esqui de montanha. 
- Foi divertido depois de conseguir aprender a parar de p por mais de cinco minutos - riu Caroline. - Acho que eu me esborrachei em absolutamente todas as dunas 
de neve de pelo menos dois condados. 
Amante dos animais e de atividades ao ar livre. Por fim eu estava conseguindo obter algumas informaes quentes. Ela estava se revelando bastante conversadeira, 
o que tornava minha misso bem mais fcil. 
- Bom, vamos l tentar encontrar esses brinquedos - disse eu. 
- Conheo um atalho - props ela, puxando meu brao. - Por aqui. 
Eu no sabia direito onde ela estava me levando, mas quando passamos pela escada rolante percebi que nos dirigamos a uma seo pela qual eu no queria passar. 
- Estamos quase l - disse ela, seguindo em frente. Caroline nem notou quando parei diante da vitrine que abrigava o pingente dourado em forma de corao. O diamante 
cintilou, como que zombando da minha cara. 
Ns nos amamos um ao outro, e isso  a coisa mais importante do mundo pra mim. 
Aquelas palavras ecoaram em minha mente, enchendo-me de um violento desejo de esticar o brao e esmigalhar o vidro da vitrine com um murro. Meu corao comeou a 
bater como se fosse explodir e saltar para fora do peito.
"No adianta querer tapar o sol com a peneira, Magee", escarneci de mim mesmo. "A dura verdade est sendo esfregada em sua cara agora mesmo: aquele pingente iria 
parar no pescoo de Miranda se ela ainda gostasse de voc, mas agora vai ficar a esperando por outro cara, que vai compr-lo e pendur-lo no pescoo de outra garota." 
Passei a mo pelo vidro como se ele fosse o esguio pescoo de Miranda rodeado pela delicada corrente de ouro. 
"Encare os fatos de frente, rapaz. Desde que conheceu Caroline voc est tentando se tapear com jogos inteis. Ela no precisa de voc, assim como Miranda. Por que 
voc no reage como um homem e admite isso?" 
- Jake? - chamou uma voz suave por trs de mim, ao mesmo tempo em que uma mo pousava em meu ombro e outra fazia uma suave presso em meu brao. - Ei, Jake, voc 
est bem? 
Eu me virei para Caroline e me deparei com sua expresso genuinamente preocupada. 
- Jake, o que h de errado? Voc est com cara de quem viu um fantasma.
Esfreguei o rosto com as mos e me acalmei um pouco. 
- De certa forma, eu vi - respondi lentamente. 
- Foi aquilo ... - comeou ela, apontando para a vitrine. 
- Ai ser - repliquei, antes que ela pudesse terminar. 
Caroline sorriu, fez com a cabea um gesto de que compreendia e me deu uns tapinhas nas costas. 
- Eu entendo - disse ela, solidria. - Voc quer continuar fazendo as compras? 
- Claro _ respondi, com um riso nervoso. - Essa histria da Miranda  algo que de qualquer jeito eu tenho de superar. 
"Caroline realmente compreende o que estou passando", pensei com meus botes, "e melhor do que qualquer outra pessoa que conheo. ajud-la a encontrar algum no 
 uma forma de tentar ignorar meus prprios sentimentos nem de ser altrusta esperando que o papai do cu me recompense mandando Miranda de volta pra mim. Trata-se 
simplesmente de proporcionar um Natal feliz a algum que merece."
Sacudi a cabea tentando colocar as idias em ordem, mas ainda me sentia um pouco confuso. Porque l no fundo, por mais que tentasse negar, ainda tinha esperanas 
de que algum fizesse por mim o mesmo que eu pretendia fazer por Caroline. 
- E que tal isto? - perguntou Caroline, me mostrando uma nave espacial de brinquedo cheia de luzes piscando. -  bem legal. Ou talvez isto? - continuou, puxando 
um enorme lagarto de plstico com uma bocarra entreaberta. - "Ele fabrica seu prprio muCO viscoso e ..." - leu ela. - Meu Deus, esquece! Vamos l Jake, preste um 
pouco de ateno, puxa vida! O que voc acha deste? 
Ns dois j tnhamos revistado quase todas as prateleiras de brinquedos da loja. Era verdade que eu ainda me sentia um pouco remexido por dentro, por causa da vitrine, 
mas Caroline estava enganada: eu estava prestando ateno. O problema  que nenhum brinquedo me havia interessado. 
- Quantos brinquedos mais a gente vai ter de olhar, Jake? - perguntou ela, apontando para um frgil caminhozinho de plstico na minha frente. - O que h de errado 
com este? 
- O fato de que vai se quebrar em cinco minutos. Ser que ningum mais fabrica caminhes de brinquedo normais? - indaguei. - Daqueles amarelos, slidos, robustos, 
lembra? 
- Claro que fabricam! A nica coisa que voc precisava ter feito era perguntar! 
Ela me levou at a prateleira seguinte, repleta de bons e slidos caminhes amarelos, para escolher  vontade. S de v-los, eu me senti uma criana de novo. 
Seis anos de idade. Eu j podia at visualizar Kevin empurrando um daqueles caminhes pelo cho. 
-  esse mesmo! - decidi, pegando o maior de todos. As luzes da loja piscaram, e eu olhei surpreso ao redor. - Esto fechando - disse Caroline. 
- Droga! - resmunguei. - Eu ia: pedir pra embrulharem os presentes, mas vou ter de levar assim mesmo e trazer pra embrulharem depois. 
Caroline olhou para seu relgio.
- V correndo pro caixa, pra pagar o caminho. Eu fico segurando as outras sacolas. 
Quando voltei, caminhamos at a ltima porta de sada aberta e dirigimo-nos lentamente ao estacionamento. 
- Super obrigado pela fora, Caroline. Nunca me diverti tanto fazendo compras.  uma coisa que normalmente detesto fazer. 
- Foi por uma boa causa - observou ela. -  isso que faz a diferena. 
- Com certeza - concordei. 
- Se voc tiver mais alguma pergunta pra fazer - continuou ela -, me ligue. 
Caroline garimpou uma caneta em sua bolsa e rabiscou um nmero de telefone em minha sacola de papel. 
- Obrigado de novo por ter me acompanhado - repeti. Ela fez um gesto afirmativo com a cabea. 
- Ah, l est a minha me! Tchau, Jake! 
- A gente se v! - gritei, quando ela j corria para o carro. 
Eu j tinha encontrado os presentes perfeitos para Kevin. Agora era a vez de encontrar o presente perfeito para Caroline.

6 - MISSO PARA CUPIDO

- Quem  o cara mais legal que voc conhece? - perguntei a Sid no estacionamento da escola, na quarta-feira de manh. -Como?
Para um aluno que s tira A, Sid nem sempre  muito rpido
para captar certas coisas.
- Eu perguntei: quem  o cara mais legal que voc conhece?
- Por qu?
- Imagine que voc quisesse apresentar um cara realmente
legal a sua irm - tentei explicar, enquanto atravessvamos as portas da frente da escola e entrvamos no saguo lotado.
Sid abriu caminho por trs de um trio de garotas bobinhas e risonhas e me encarou.
- Eu no tenho irm. Sua irm s tem doze anos. E seus pais no iam deixar ela namorar por enquanto.
- Eu sei disso - continuei pacientemente, quando j chegvamos aos armrios. Coloquei a mochila no cho e destranquei a porta do meu. - S disse "suponha".
Sid retirou alguns livros do armrio dele, franzindo a testa
enquanto pensava.
- Gary Lankin.  um cara legal.
- E ele tem namorada?
- Acho que sim - respondeu Sid, batendo a porta do armrio.
- J vi que voc no vai ser de muita ajuda - encerrei o
papo, meio contrariado.
Percebi que teria de encontrar alguns candidatos por meus prprios meios. Na aula de geometria dei uma olhada pela classe, perguntando-me qual daqueles carinhas 
mereceria a chance de conhecer uma garota legal como Caroline. Olhei para um cara sentado na fila da frente. Qual era mesmo o nome dele? Tony, isso mesmo. Ele era 
quieto em aula e bem-educado com os professores.
Enquanto eu o analisava, porm, a garota atrs dele se inclinou em sua direo e sussurrou algo em seu ouvido, colocando a mo no ombro dele. Tony apertou a mo 
dela, sorriu. A menina retribuiu com uma risadinha, e ento risquei o nome dele da mente. Estava tentando remendar um corao partido, no partir mais coraes. 
Quando a aula terminou, segui a torrente de alunos para fora da classe, e no saguo avistei um rapaz alto de cabelos loiros emaranhados, esticando um cartaz amassado 
e colando-o de novo na parede:
LEVE ALIMENTOS ENLATADOS E NO-PERECVEIS AO JOGO DE BASQUETE DESTA NOITE, dizia o cartaz. AJUDE UMA FAMLIA CARENTE A TER UM JANTAR DE NATAL.
Eu j vira o aviso antes, mas mal tinha reparado nele. Caminhei at o garoto. Ele vestia uma camiseta com o apelo "Salve as Florestas Tropicais" impresso na frente, 
e seus olhos verdes olharam direto para os meus. Parece um cara legal, pensei rpido.
-  um bom projeto - comentei. - Quem est coordenando?
- Eu mesmo - respondeu ele. - Bom, na verdade  o clube
de cincias, mas sou o coordenador-chefe da campanha de arrecadao de comida. Voc vai ao jogo?
- Com certeza. Nunca perco um jogo. Sou Jake Magee, o colunista esportivo do Herald.
Ele tinha as mos ocupadas, e por isso me cumprimentou com um gesto de cabea:
- Danny Erickson - apresentou-se.
- Espere a, no foi voc quem organizou uma arrecadao beneficente quando a casa daquele calouro pegou fogo no ano passado? - perguntei, me lembrando de um artigo 
no jornal da escola.
Ele fez um novo gesto com a cabea, confirmando.
- Isso mesmo. A famlia dele no tinha seguro, e eles ficaram praticamente na rua. Mas a Cruz Vermelha os ajudou, e a gente conseguiu arrecadar mais de mil dlares.
"Um cara legal, sem dvida", pensei. "Aposto como Caroline vai gostar dele." Ento o sinal da aula tocou, ele enfiou o rolo de fita adesiva no bolso e pegou seus 
livros. 
_ A gente se v no jogo - disse. 
Agora eu j tinha um candidato adequado. Quando encontrei Sid na aula de biologia, perguntei: 
_ Voc sabe algo a respeito do Danny Erickson? 
_ Ele  legal- respondeu Sid, abrindo um livro. - Por qu? - S pra saber. 
Enquanto o professor Coombs escrevia "mitocndria" na lousa, Sid me olhou de esguelha.
_ O que diabos voc est tramando, Jake? - sussurrou. - Ou voc est coordenando um programa secreto de recrutamento de novos agentes para o FEl, ou est iniciando 
uma agncia de casamentos. _ Mais perto da segunda possibilidade - admiti, batucando com a caneta no caderno. - Mas fique de boca calada, Halleman. Voc precisa 
mover influncias pra mim, no atrapalhar. 
-Mas ... _ Senhor Magee, senhor Halleman, isto aqui no  uma reunio social. 
Era pelo menos a centsima vez naquele ms que o professor Coombs tinha de nos pedir para ficarmos quietos, mas daquela vez eu realmente agradeci por ele fazer isso. 
A ltima coisa que eu queria era contar meus planos a algum e fazer com que a escola inteira ficasse falando de Caroline. Portanto decidi manter Sid na ignorncia, 
pelo menos por algum tempo. 
Na hora do almoo eu me servi do prato do dia, bolo de carne moda, e quando Sid tambm j tinha enchido sua bandeja, ns nos dirigimos  rea das mesas. 
Logo dei de cara com Miranda e tentei no ficar olhando. 
Assim que desviei o olhar dela, vi Caroline sentada com suas amigas. Sid e eu aterrissamos nossas bandejas numa mesa prxima. 

-Volto num segundo - informei, e sa andando. - Oi Caroline, como vo as coisas. - cumprimentei quando cheguei  mesa dela. 
- Oi, Jake! - disse ela, abaixando o garfo. - Tudo indo, mas no recomendo o bolo de carne. 
- Tarde demais - respondi. - Mas conheo o segredo acrescentei, inclinando-me em sua direo e fazendo a revelao num sussurro teatral -,  s afogar o maldito 
com ketchup. 
Caroline riu. 
- Vou anotar isso - disse. 
- Ei - continuei -, voc sabia que vo fazer uma arrecadao beneficente de alimentos no jogo de basquete de hoje  noite? 
Caroline fez que sim com um gesto de cabea. - Vi os cartazes.
- Voc gostaria de ir e dar uma fora? Eu preciso ir de qualquer jeito, pra escrever minha coluna, e poderia pegar voc ... sugeri, acreditando que dessa maneira 
conseguiria arranjar as coisas para que ela conhecesse Danny. 
A expresso de Caroline naquele momento foi difcil de interpretar. 
- Voc quer que eu v ao jogo com voc? 
- H ...  - respondi, ponderando sobre como eu poderia deixar minha inteno clara, mas no demais. Se ela percebesse que eu estava tentando lhe arranjar um encontro, 
talvez seu orgulho ficasse ferido. -  que eu pensei: duas pessoas com o corao partido precisam se distrair, certo? 
- Claro,  verdade ... Seria legal ir ao jogo, sim - concordou, mas ainda com ar inseguro. - Moro do lado sul do shopping. 
Ela escreveu o endereo num guardanapo de papel, e eu o enfiei em meu bolso. As amigas de Caroline comearam a soltar risadinhas bobas, mas eu as ignorei. 
- Ento pego voc s seis e meia? 
- Pra mim est timo. 
- No se esquea dos alimentos de caridade - lembrei. 
Caminhei de volta para a mesa e topei com Sid me encarando espantado. 
- O que significa tudo isso? - perguntou ele. 
- U, nada! S convidei Caroline para ir ao jogo comigo- respondi. 
Sid pousou na mesa seu copo de leite. 
- O que est rolando a, Jake? No imaginava que voc estaria pronto pra outra to cedo. 
- No estou em outra, Sid. No h nada entre Caroline e eu - retorqui, enterrando o garfo no grosso pedao de bolo de carne. Abri o envelope de ketchup. - No  
uma paquera, nem nada parecido. Pode acreditar. 
- Por acaso voc est usando Caroline pra provocar cimes em Miranda? Porque, pelo que tenho visto de Miranda ultimamente,  bem capaz de funcionar - provocou Sid, 
com um tom de voz cnico. 
- No, senhor, eu no faria isso com ningum, e muito menos com Caroline - protestei. - Seria uma sujeira.
- Ento qual  a sua? - insistiu Sid, empurrando o prato para um lado e se concentrando no ataque a uma fatia de torta de ma. - Promete que no vai contar pra 
ningum? 
- Prometo - garantiu ele, com firmeza. 
- Eu no estou querendo sair com ela. Estou querendo tentar ajud-la a voltar  ativa. Se tivesse visto como o White foi duro com ela, Sid, talvez voc entendesse 
- expliquei. 
- Ah, essa  boa! - replicou Sid secamente. - Quer dizer que voc acha que levar a garota a um jogo de basquete vai ajud-la a tirar Brian da cabea? 
- Bom, eu no forcei nada. Foi ela mesma quem disse que topa ir - retruquei. - Caroline no  uma covarde. Pretendo apresent-la a Danny Erickson. O resto tem de 
acontecer sozinho. Eles fariam um belo casal, voc no acha? 
- T certo, senhor Cupido, se voc diz ... - respondeu Sid, algo ctico. - E o que ela pensa que voc est pretendendo? 
- Ora bolas, tenho sempre comentado com ela que somos duas pessoas com o corao partido - respondi. - Ela entende. Todo mundo sabe como me senti com relao a Miranda, 
alis como ainda me sinto com relao a Miranda. Inclusive Caroline. 
- Certo. 
- Vejo voc no jogo. E se certifiquem de que o Riley mantenha a cabea bem concentrada na defesa hoje  noite, seno vocs vo danar - provoquei, ignorando o malicioso 
olhar to-sacando-tudo de Sid. Ele se espevitou com o comentrio. 
- Pode ter certeza disso. O treinador tem umas dicas quentes, especialmente preparadas pra hoje, acho. Vamos estar bem afiados, estou sentindo isso - garantiu, estalando 
os dedos. 
- Espero que voc tenha razo, mas mantenha a defesa alerta 
- insisti, antes de finalmente comear a tentar comer o bolo de carne moda. - Vou estar l anotando tudo preto no branco - balbuciei, enquanto tentava mastigar 
um pedao do bolo de carne mais duro que j experimentei na vida. - E espero que vocs faam bonito e passem por cima deles que nem um rolo compressor. 
Sid soltou uma risada curta.
- Eu tambm. Alis, preciso ir j me encontrar com o treinador Edwards e ver como esto as coisas. D um funeral decente pra esse bolo de carne, t legal? - concluiu, 
pegando sua bandeja e se dirigindo ao balco de devoluo de talheres. 
"Mas que idia cretina a minha, levar a menina ao jogo de basquete ... ", murmurei com meus botes. No conseguia acreditar em minha falta de tato ao convidar Caroline 
para ver seu ex-namorado jogando basquete por duas horas inteiras e provavelmente flertando impiedosamente em pblico com outras garotas. "Mas ela disse sim", lembrei 
a mim mesmo. Isso era um bom sinal. Provavelmente j estava pronta para outra. 
"Pena que eu no possa dizer o mesmo de mim", pensei, enquanto a risada de Miranda ecoava em minha mente. "Voc  to bobo, Jake", ouvi-a dizer em meus pensamentos. 
Mas me recusei a olhar na direo da mesa dela, na esperana de que fosse somente a memria de sua voz o que eu estava ouvindo, e no a Miranda real dizendo aquelas 
palavras a meu respeito a algum outro cara. 
- Preciso do carro emprestado, pai - bradei assim que o vi chegando do trabalho. - Hoje  noite tem jogo. 
- Tudo bem. Mas voc vai terminar sua lio antes de ir, no ? 
Era o pacto de sempre. Fiz que sim com um gesto de cabea. - Preciso sair s seis - acrescentei. 
- Por que to cedo? 
Ele andara examinando sua correspondncia, mas agora me olhava por cima dos culos. 
- H ...  que vou pegar uma pessoa antes - expliquei. 
- Uma garota? Ento voc j tem uma paquera? timo! J era hora de parar de se lamuriar - disse meu pai, com voz orgulhosa. 
- No  uma paquera.  s uma amiga, nada mais. 
- timo, mesmo assim. Sou um defensor incondicional da amizade, com homens ou mulheres - concordou meu pai, com uma expresso sria e sincera porm com um tpico 
brilho malicioso no olhar. 
Pais ... Por que eles sempre acham que sabem tudo sobre a gente? Por acaso eu no tinha o direito de ser s amigo de uma garota? Roubei uma banana do cesto de frutas 
no balco da cozinha e subi as escadas de volta a meu quarto para me engalfinhar com os livros.
s cinco e meia fechei os livros de estudo e tomei um banho rpido. Queria ficar bacana, mas num estilo descontrado, casual. Acabei me decidindo pelos jeans favoritos 
e uma malha verde-oliva. E borrifei um pouco de perfume por trs dos ouvidos e ao redor do pescoo, por precauo. Quando acabei de me vestir, escutei uma batida 
familiar na porta do quarto. 
- Entre - grunhi. 
Kristen deu uma olhadela pela fresta da porta. - Voc vai sair com uma garota? 
- No, com um tatu - respondi. 
Ela me mostrou a lngua e foi embora brava. 
Eu j enchera uma sacola com latas e caixas de comida e avisara minha me que tinha roubado algumas coisas da despensa. Peguei a sacola e as chaves do carro no balco 
da cozinha. 
Papai estava assistindo ao noticirio da noite na sala de televiso. 
- At mais tarde - anunciei, vestindo o casaco. 
- Espero que seja um bom jogo. E divirta-se com sua "amiga" - disse papai, com um sorriso matreiro. 
- Engraadinho - murmurei por cima do ombro, quando j saa pela porta da frente de casa rumo ao carro. 

* 
Quando toquei a campainha dos Willis percebi quanto eu me sentia calmo. Se fosse uma sada "de verdade", com uma garota que estivesse a fim de conquistar, eu ficaria 
to nervoso quanto aquele gato que tinha sido colocado por engano na ala dos cachorros, l no canil onde trabalhava. Naquela noite eu no teria de me preocupar em 
dizer ou fazer a coisa certa. S precisava apresentar Caroline a Danny Erickson. Sorri com descontrao quando a porta se escancarou. 
- Oi, Jake. 
Caroline puxou um pouco mais a porta, e eu entrei. Ela estava realmente bonita com sua malha vermelha e a cala cqui. Talvez Miranda ficasse mesmo enciumada se 
nos visse juntos, pensei por um segundo. Mas empurrei o pensamento para longe. O objetivo era ajudar Caroline, no me vingar de Miranda. 
- Esta  minha me - apresentou Caroline. - Me, este  Jake Magee. 
- Ah, ol, senhora Willis - cumprimentei, apertando a mo dela.
Era uma verso mais velha de Caroline, algo rechonchuda mas ainda bonita. Seu sorriso era amigvel. 
-  um prazer conhecer voc, Jake. Divirtam-se bastante. Caroline, no se esquea de suas luvas e dos alimentos que voc queria levar para a campanha beneficente. 
- J estou com tudo aqui, me - replicou Caroline, vestindo seu casaco e pegando uma sacola de compras. 
Samos para a rua e caminhamos at o carro contra aquela brisa congelante que faz as palavras de quem fala ficarem penduradas no ar como uma pequena nuvem. 
- Mame ainda acha que tenho seis anos de idade comentou Caroline, quase sussurrando. - Pelo menos ela no fica me lembrando a que horas tenho de voltar pra casa. 
Pais!. .. - Nem me fale - concordei, abrindo a porta do carro para ela. 
- Veja! - exclamou Caroline quando entramos no ginsio. - L est a mesa da campanha de alimentos. 
Logo avistei Danny Erickson sentado atrs da mesa e conduzi Caroline para l, com os donativos nas mos. 
- E a, Danny, tudo bem? - cumprimentei. _ Ah, esta aqui  Caroline Willis. 
Ele fez um movimento afirmativo com a cabea. 
- , a gente j se conhece. Oi, Caroline - cumprimentou ele, fazendo em seguida um gesto indicando os alimentos que trazamos. - Obrigado, gente. Vai ser de grande 
ajuda para uma famlia carente. 
- Parece que vocs esto conseguindo um belo estoque _ comentei, olhando para as caixas de papelo transbordando de latas e pacotes. 
- Ns chegamos a arrecadar dez caixas no Dia de Ao de Graas. Foi isso o que nos animou a repetir a operao agora no Natal - explicou ele. 
Outra leva de alunos chegou por trs de ns, e Danny se voltou para eles. Como faria para conseguir que Caroline tivesse uma chance de conversar com Danny? Tive 
uma idia. 
- Voc precisa de uma fora pra empacotar tudo isso depois do jogo? - perguntei. - Caroline e eu ficaramos felizes de poder ajudar. 
Caroline me olhou surpresa, e em seguida concordou com um movimento de cabea. 
- Claro - reforou.
- Opa, obrigado! - disse Danny. - Aceito, sim. Se vocs quiserem dar uma mo, a gente vai comear l pelas oito e meia. 
- Foi um gesto legal da sua parte - observou Caroline, quando caminhvamos para as arquibancadas. - Pessoas que pensam em algum mais alm de si mesmas so raras, 
voc no acha? - perguntou, dando uma olhada na direo do banco do Hillcrest Falcons, onde Brian White conversava com o treinador Edwards. 
- Sei bem o que voc quer dizer - concordei. - O Danny  um cara legal. 
Puxa, parecia que no fim das contas meu plano poderia dar certo! Encontramos dois lugares livres a uma altura mdia da arquibancada e nos sentamos para assistir 
ao aquecimento de nossos Falcons. Quando os garotos comearam a correr pela quadra, fiquei de olho em Sid, que se ps a lanar bolas  cesta para praticar, parecendo 
solto e confiante. "Vai fundo, Sid", pensei, "voc parece timo". Ento olhei para Brian White, no momento em que de saltava para enterrar uma bola com fora na 
cesta. Brian deu uma volta pela quadra e gesticulou para o pblico, para que eles torcessem mais ruidosamente. Nesse preciso instante, contudo, o vislumbre de um 
longo cabelo loiro bem mais abaixo nas arquibancadas me fez esquecer a averso por Brian White e tudo o mais. 
Miranda. Vestindo uma blusinha cor de lavanda bem justa, que fazia suas curvas parecerem ainda melhores que de costume. Com o cabelo sedoso puxado para trs das 
orelhas, preso com fivelas. E com um rapaz de cabelo escuro sentado ao lado, dando-lhe tapinhas nas costas com bvias intenes libidinosas. Senti uma onda de calor 
percorrer todo o meu corpo.
Rangi os dentes, com fora. Eu tinha de parecer calmo, devia manter tudo bem trancado dentro de mim. Uma vontade louca de rugir com toda fora emergiu do fundo de 
meu ser, mas apertei os lbios com firmeza e me voltei para Caroline. Ela olhava hipnotizada para a quadra, sem sequer reparar em minha presena. O jogo j havia 
comeado e eu nem percebera, e pude captar com o canto do olho que ela seguia cada movimento de Brian. Sabia quanto ela estava se sentindo mal. Por que raios eu 
a expunha quela situao? 
Num impulso, agarrei a mo dela e apertei. 
Ela me olhou surpresa e corou, meio confusa. Deixei sua mo em paz, mas esbocei um bom sorriso de amigo. 
- Voc est bem? - perguntei. 
- Claro - respondeu ela, empinando o queixo -, completamente bem. 
A moa tinha fibra, sem a menor dvida. "Ainda bem", pensei, voltando minha ateno para o jogo. 
Os Red Plains eram adversrios  altura. Para minha satisfao, o desempenho de Brian estava sendo medocre, e ele perdera vrios lances importantes. Quando foi 
expulso no segundo tempo, Caroline ficou sisuda. Mas no consegui dizer se era pela tristeza de v-lo ir embora ou porque estava irritada com seus gestos exibicionistas 
na quadra. 
Sid se mostrou consistente durante todo o jogo, e depois da expulso de White passou a render ainda mais. Os Falcons acaba. ram ganhando por treze pontos de vantagem. 
- Grande, Halleman! - gritei quando soou a campainha final. Sid me lanou um sorriso vitorioso e depois parou na borda da quadra para conversar com uma garota alta 
de cabelos castanho-claros encaracolados. Eu me virei para Caroline: 
- Pronta pra ajudar o Danny a empacotar os alimentos da campanha? 
- Claro - respondeu ela sorrindo. 
Caroline no parecia estar muito incomodada com o jogo. 
Mais um bom sinal. Ns nos levantamos e fomos abrindo caminho de volta  mesa de arrecadao de alimentos.
Danny e dois outros membros do clube de cincias j tinham comeado a acondicionar os alimentos nas caixas de papelo. Ele acenou para que nos juntssemos a eles: 
- Minha pick-up est l fora. Vamos colocar tudo no bagageiro. 
- Por que voc no ajuda o Danny a encher as caixas? _ 
sugeri a Caroline, imaginando que assim eles poderiam iniciar algum papo enquanto trabalhassem. - Eu me encarrego de levar as caixas para a caminhonete. 
Um calouro parrudo fez um gesto para que eu o ajudasse com uma pesada caixa cheia de enlatados. Enquanto a erguamos e arrastvamos para a pick-up, torci para que 
minhas costas sobrevivessem a todas aquelas obras de caridade. 
O ar estava glido quando Caroline e eu caminhamos de volta para meu carro, depois que toda a carga de alimentos tinha sido acomodada na caminhonete. Havia bastante 
neve amontoada nas bordas do estacionamento, verdadeiros muros de p branco que me chegavam  altura do peito. 
- Voc est com frio? - perguntei a ela. 
Caroline balanou a cabea negativamente, mas eu me aproximei um pouco mais de maneira a bloquear o vento. 
- O Danny  um cara legal, n? - sondei. 
- , , sim. Alis, ele est saindo com uma amiga minha. 
- Ahhhh ... - balbuciei, devagar. "Pense rpido, Magee." - H... garota de sorte, no? 
- E, sim. Ela est bem feliz - comentou Caroline, num tom vago.
Ser que todos os caras legais daquela escola j tinham namorada? Eu tinha perdido uma noite inteira tentando empurrar Caroline para um garoto que j estava comprometido. 
E, ainda por cima, ela certamente no devia ter gostado muito de lhe esfregarem na cara que a amiga dela tinha um namorado e ela, no. 
Precisava fazer alguma coisa melhor que aquilo.
Todavia, enquanto conversvamos a respeito do jogo durante o caminho de volta at a casa dela, fui ficando aliviado. Caroline no parecia nem um pouco chateada. 
At brincou, dizendo: "Se Brian conseguisse fazer todas as cestas necessrias para preencher as necessidades de seu ego, com certeza bateria lodos os recordes da 
histria do basquete!" 
Quando chegamos  casa de Caroline, eu a acompanhei at a porta. 
- Foi uma noite divertida, Jake - disse ela, afrouxando o cachecol que envolvia seu pescoo. - Obrigada por ter me convidado. 
- Fico contente - respondi. - At amanh, espero. 
Ela hesitou por um instante, olhando fixamente para mim. Em seguida abriu a porta da casa e entrou. 
"Um candidato a menos", pensei. Mas no ia desanimar to facilmente. Com certeza em algum lugar, em nossa escola ou fora dela, o cara perfeito para Caroline estava 
 espera.

7 - UMA NOVA JOGADA

"O item legal no deu certo", murmurei para mim mesmo enquanto entrava na aula de geometria na manh seguinte. "Ento vamos tentar inteligente."
Passei a vista ao redor de toda a classe, tentando identificar os caras realmente inteligentes. Mas era um grupo pequeno. 
Havia Jason Morris, um rapaz alto e boa-pinta, mas ele j tinha namorada. Eu j os vira juntos pelas salas. Quem mais? Ed Feltner? Ele era esperto, mas cheirava 
to bem quanto um tnis velho. Caroline merecia algo melhor. Sid era bastante inteligente, mas eu sabia que ele era maluco e aventureiro demais para Caroline.
Witzmiser! Isso mesmo, o Whiz! Aquele cara era to inteligente que metia medo nos professores. S que ele no assistia a nenhuma aula em comum comigo. Mesmo sendo 
apenas um aluno do segundo an02, como eu, ele j freqentava cursos de lgebra e matemtica avanada junto com a elite dos alunos do terceiro colegial. Caroline 
ficaria totalmente cada por ele. Mas o que eu poderia fazer para trombar "casualmente" com o Whiz, com Caroline por perto, a fim de que eles pudessem se conhecer?
Quando dei uma olhada no mural da escola antes da ltima aula, encontrei a oportunidade perfeita. Haveria um encontro do clube de xadrez depois do horrio escolar, 
e o Whiz, pelo que eu tinha ouvido falar, era um campeo de xadrez.
Sid chegou por trs de mim.

2 Junior: Em verdade, um aluno de terceiro ano do segundo grau, mas deve-se lembrar
que a high school (equivalente ao curso de segundo grau) dura quatro anos
nos EUA. Seniores so alunos do ltimo ano. (N. do T.)

- Quer vir comigo  sala de musculao?
O treino de basquete sempre comeava tarde no dia seguinte a um jogo, de maneira que naquele dia Sid tinha o horrio da ltima aula livre, como eu. Geralmente ns 
aproveitvamos essas janelas para treinar arco-e-flecha ou puxar peso. 
- Claro - respondi automaticamente.
Fomos caminhando at o vestirio. Nas aulas de ginstica todos os garotos tinham de se vestir da mesma forma: camisetas e cales com as cores da escola, amarelo 
e preto. Mas para exerccios opcionais podamos nos vestir como quisssemos. Pus uma camiseta bem velha e uma cala de moleton da Universidade de
Michigan, que eu tinha cortado pelos joelhos.
- Braos ou pernas hoje? - perguntou Sid, enquanto se
enfiava numa camiseta com a insgnia FALCON POWER impressa na frente.
- Pernas - respondi, ajustando as joelheiras. - Voc est pronto?
- Pronto - disse Sid, saindo na minha frente do vestirio. 
Quando nos dirigamos  sala de musculao, voltei-me ao ouvir algum dizer: "Oi, Jake!" Era Caroline.
- Oi, Caroline - cumprimentei com um aceno de mo. O que faz por aqui?
- Saindo do ginsio - disse ela, passando os livros para o outro brao. Ela me pareceu levemente ruborizada, e eu podia jurar que acabara de passar algum perfume. 
- Ontem  noite foi legal, Jake ... - comentou, um tanto encabulada.
- Foi mesmo - concordei, um pouco envergonhado por causa dos furos de minha camiseta. - Sabe de uma coisa? Hoje preciso dar uma passada depois do fim do horrio 
escolar na reunio do clube de xadrez. Tenho de fazer umas anotaes pra minha coluna de esportes. Quer vir junto? Seria ... sei l, diferente.
Caroline riu. Ela tinha uma risada bonita, no muito aguda.
- E por que no? - respondeu. - Onde a gente se encontra?
- Na entrada da frente da biblioteca - respondi, escarafunchando
uma de minhas mangas pudas. - O clube de xadrez vai S(' reunir em uma das cabines de estudo.
- T legal. Ento a gente se encontra l s trs e meia.
Satisfeito, fui para a sala de musculao. Sid j estava exercitando suas pernas num aparelho.
- Sid - perguntei -, voc sabe se o Witzmiser tem namorada? Voc faz aula de fsica com ele, no faz?
- Aquele cara!? - exclamou Sid, fazendo uma careta e deixando os pesos carem com estrondo. - Acho que ele nem sequer sabe o que  uma mulher. Est sempre com o 
nariz enterrado num livro ou num tabuleiro de xadrez.
- Ento talvez tenha chegado a hora de ele descobrir o que  uma mulher - comentei, aquecendo-me com alguns alongamentos. - Um homem no pode viver s pelo intelecto.
Lembrei-me dos difanos olhos azuis de Miranda e suspirei. 
"Esse Whiz devia dar uma boa olhada em volta", pensei. "Ele veria que existem coisas mais interessantes do que equaes matemticas e jogadas de xadrez."
- Olha, Magee - comeou Sid, sentando e me encarando com um olhar penetrante -, acho que voc no devia ficar tentando juntar Caroline com ningum, sabe? Voc gostaria 
que algum ficasse administrando sua vida amorosa?
- Se algum administrasse as coisas para que Miranda voltasse pra mim, gostaria, sim - retruquei.
- Ah, ento  isso ... - murmurou Sid, retornando a seus exerCcios. - Voc acha que, fazendo Caroline feliz, voc tambm vai se sentir feliz?
- D um tempo, Sid - rebati. - Voc sabe muito bem que no.
Continuamos a nos exercitar em silncio at que o ltimo sinal tocou. Caminhei para os chuveiros.
- At mais, Sid.
- At mais, bom samaritano - devolveu ele secamente.
Do outro lado do saguo pude avistar a malha amarela de Caroline. Ela estava inclinada contra uma das vitrines que emolduravam a entrada da biblioteca.
- Oi! - disse eu, penteando com os dedos meu cabelo recm-enxuto com a toalha. - Espero que no esteja me esperando aqui h muito tempo.
- No, cheguei agora pouco. Onde est seu bloco de notas? - perguntou ela, olhando para minhas mos vazias.
- O que? - pestanejei.
- Eu, voc no vai tomar notas para um artigo que vai escrever para o jornal?
- Ah,  isso? ... Vou, claro que vou.
Felizmente eu sempre levava um bloquinho no bolso traseiro da cala. Tirei-o do bolso e mostrei a ela.
Voc quase pisou no tomate, Magee.
Conduzi Caroline aos fundos da biblioteca, onde ficavam as cabines de estudo. Num momento em que ela no estava olhando passei a mo numa caneta que algum tinha 
esquecido em cima das mesas.
O clube de xadrez j havia se acomodado na maior das cabines de estudo. Era um grupo pequeno, mas com um nmero de membros suficiente para ocupar cinco tabuleiros. 
Caroline e eu abrimos caminho at um dos cantos da sala, onde podamos instalar numas cadeiras que estavam por l e ficar assistindo tranqilamente.
Cada mesa tinha um pequeno relgio, e quando esse relgio soava a campainha um dos jogadores estendia a mo e movia uma pea para um novo quadrado. Witzmiser, magricela 
e encurvado, debruava-se em total concentrao sobre seu tabuleiro. Quando era a sua vez de jogar, seu brao se movia de forma abrupta e desengonada, como um andride 
meio desregulado.
Com seus culos tipo pra-brisa e a jaqueta de couro preta com um emblema da Harley Davison, ele parecia uma verso adolescente de Bill Gates.
- O jogo de basquete era um pouco mais movimentado, voc no acha? - murmurei no ouvido de Caroline.
Pude sentir seu perfume, um cheirinho doce e floral. Ela fazia fora para no rir.
- Voc acha que, se eu jogasse um peo no cesto de lixo, eles sairiam todos correndo para o fundo da sala como se tivessem visto o demnio em pessoa? - provoquei.
Ela mal conseguiu reprimir uma risada, e nos cantos dos seus
olhos surgiram umas encantadoras preguinhas. Pensei no muito que Whiz teria de me agradecer pelo grande favor que eu estava fazendo a ele.
- Dez minutos de descanso - anunciou algum.
Eu me levantei e acenei com a cabea para Caroline.
- Vamos conversar um pouquinho com alguns dos jogadores.
Caminhei direto na direo de Witzmiser e me apresentei fazendo o mesmo com relao a Caroline logo em seguida.
- Ouvi dizer que voc  timo no xadrez - comentei, para iniciar o papo.
- timo  uma definio muito vaga - retrucou ele com energia. - Fiquei em terceiro lugar no torneio estadual do ano passado, e neste ano pretendo ser o primeiro.
- Nada mau - comentei. - Por que voc no explica algumas de suas jogadas a Caroline enquanto vou pegar a cmera? Vou precisar fazer algumas fotos quando o intervalo 
terminar.
Caroline arqueou as sobrancelhas para mim, mas logo virou o rosto e comeou a escutar pacientemente as detalhadas explicaes de Whiz a respeito de suas estratgias 
enxadrsticas.
Fui serpenteando por entre as outras mesas na direo da porta da cabine. No caminho, trombei com uma jogadora quando ela se levantava de sua mesa.
- Desculpe - murmurei.
A garota era baixinha e atarracada, com um cabelo escuro cortado em estilo Chanel  altura das bochechas.
- No conheo voc ... - disse ela, parecendo confusa. _ Voc  um novo membro do clube, por acaso?
- No, sou Jake Magee, colunista esportivo do jornal da escola. Eu...
- E voc vai escrever um artigo sobre o clube de xadrez? Que demais! - interrompeu a garota, subitamente excitada. _ Sou Mary Lou Kosemira, muito prazer. Voc sabia 
que eu fiquei em terceiro lugar no ltimo torneio da cidade? Whiz ficou em primeiro, claro, mas s faz seis meses que comecei a jogar. Quer fazer
uma reportagem sobre mim, do tipo "uma estrela ascendente no mundo do xadrez" ou algo do gnero?
- H ... talvez mais tarde - respondi, me lembrando de repente de Brian White. Nem todos os eglatras do planeta habitam o mundo do basquete, refleti. Porm a estrela 
ascendente no largava do meu p.
- Mas deixe eu contar pra voc sobre a artimanha que usei no jogo da vitria ... - persistiu ela.
- Olhei ansioso por cima do ombro da menina, na direo da liberdade.
- Preciso pegar a cmera - murmurei para Mary Lou, enquanto ela tagarelava alguma coisa a respeito de uma jogada.
-Ah, voc vai tirar fotos! Mas  claro, posso acabar minha historia mais tarde - concordou a garota.
Eu me esgueirei como pude pela porta da cabine afora e fui me encontrar com a bibliotecria na sala dela.
A Senhora Whitman, posso usar sua cmera para tirar algumas fotos do clube de xadrez? - perguntei.
A sra. Whitman era a coordenadora do jornal e sempre trazia consigo uma cmera carregada de filme que os reprteres podiam usar para cobrir eventos da escola.
- Claro - respondeu ela, destrancando uma das gavetas de sua mesa. - Que bom ver que voc est dando destaque a uma das atividades esportivas menos tradicionais, 
Jake!
Grande! Agora eu realmente teria de escrever algo sobre o clube de xadrez. Peguei a cmera com disfarada relutncia e voltei para a reunio dos enxadristas.
Ao passar pela frente de outra cabine de estudo, tive um vislumbre
de uma cabea loira que me era familiar. Parei - no pude evitar - e dei uma espiada l dentro.
Miranda e vrias outras garotas estavam confeccionando cartazes e recortando imitaes em papel-carto de grandes flocos de neve. Quando eu ainda hesitava no umbral 
da porta, Miranda levantou os olhos e me viu.
- Jake! - exclamou ela, surpresa. - O que voc est fazendo aqui?
Ento ela viu a cmera.
- Ah,  alguma coisa pro jornal?
Entrei na sala, atrado como uma formiga para dentro de uma cesta de piquenique. Precisei lembrar a mim mesmo que Miranda no era mais minha garota, mas no conseguia 
me impedir de olhar intensamente para ela.
- Talvez - respondi com lentido. - E o que vocs esto fazendo?
Miranda ergueu um grande floco de neve de carto na minha frente.
- Somos o comit de decorao do baile de fim de ano da escola,  claro - declarou ela, orgulhosa.
-  claro - murmurei.
O baile de fim de ano, o grande baile do semestre, o baile para o qual eu j havia comprado duas entradas antes de Miranda decidir que queria sua liberdade de volta! 
Eu poderia estar l danando com ela, apertando aquele corpinho bem coladinho no meu, sentindo a carcia suave daqueles cabelos dourados roando
em meu rosto enquanto flutussemos ao sabor da msica ...
Aquele maldito pensamento fez minha dor voltar com fora total.
Contudo Miranda ainda estava falando.
- ...e ns temos trabalhado duro todos os dias depois da escola. Queremos que seja o melhor baile de fim de ano de todos os tempos, na histria da Hillcrest High. 
Voc vai bater uma foto da gente?
As outras garotas lanaram um olhar ansioso em minha direo, mas logo tornaram a se concentrar nos cartes que estavam recortando, como se mais nada importasse.
Miranda me brindou com um daqueles seus maravilhosos sorrisos. Como eu poderia dizer no?
- Claro - respondi. - Me deixe s encontrar o ngulo certo.
Fui para um canto da sala e tentei obter um bom enquadramento.
Se aconteceu de Miranda ficar justo no centro da foto, bom, ela era to bonita que a fotografia naturalmente gravitaria em tomo dela de qualquer maneira. Eu j tinha 
batido umas duas ou trs chapas quando me lembrei de que tinha de voltar ao clube de xadrez.
- Preciso ir - disse a Miranda, meio hesitante. _ Tenho certeza de que esses enfeites que vocs esto fazendo vo ficar maravilhosos.
Na bochecha esquerda de Miranda surgiu uma covinha, e eu senti minhas pernas bambearem.
- No se esquea de votar na eleio para Rainha da Neve na noite do baile, Jake - disse ela, enquanto eu j me virava na direo da porta.
Ainda bem que Miranda no podia ver meu rosto naquele momento. Como se eu pretendesse ir ao baile sem ela! Seria pura tortura. Teria algum cabimento eu ficar assistindo! 
enquanto ela danava com outro cara a noite inteira?
" Pelo menos ela presenteou voc com algumas palavras e um belo sorriso", tentei me reconfortar. Com a cabea no mundo da lua, sa andando apressadamente de volta 
 reunio dos enxadristas.
O olhar de Caroline me trouxe de volta ao planeta Terra. Ela ainda estava sentada ao lado de Whiz, e sua expresso refletia terrvel tenso. Tentei acenar para ela, 
mas Mary Lou me agarrou pelo brao.
- Bom, e com relao quela jogada que eu estava explicando a voc ...
Rabisquei nervosamente algumas frases no bloco, e por fim consegui me livrar da garota e voltar onde estavam a pobre Caroline e o impiedoso Whiz.
- Ouvi dizer que voc ganhou o ltimo torneio do distrito - fui dizendo a Witzmiser.
-Isso mesmo - confirmou ele, olhando para um relgio na parede em frente. - Bom, chegou a hora do segundo jogo.
- Voc no quer fazer alguns comentrios a respeito dessa vitria? - perguntei.
Mas o Whiz j comeara a caminhar na direo do tabuleiro.
- Ela conta pra voc - respondeu ele, apontando para Caroline com um gesto de cabea. - J contei tudo pra ela.
- Se contou! - sussurrou Caroline em meu ouvido.
- Me desculpe por ter abandonado voc com ele, Caroline - disse eu, enquanto nos movamos a uma distncia segura dos enxadristas.
E eu dissera aquilo com sinceridade. Obviamente Witzmiser no era o cara certo para ela. Mais uma "boa idia" que dava com os burros n'gua .
Caroline me olhou de esguelha, mas em seguida sorriu.
- Foi educativo - disse ela, com uma risadinha sarcstica. - De todo jeito, tenho montes de informaes para a sua coluna.
Tomei algumas notas enquanto ela repetia as informaes de que conseguia se lembrar e bati algumas fotos. At mesmo inclu Caroline em uma delas, convencendo-a a 
representar o papel da "espectadora interessada". Misso cumprida, ns dois camos fora da sala o mais rpido possvel.
Quando deixei a cmera de volta com a sra. Whitman, ela me lembrou:
- O prazo final pra voc entregar o seu artigo  amanh, Jake, no se esquea.
- Sem problemas - repliquei. - Por alguma estranha razo, tenho material de sobra nesta semana.
Brian White queria uma matria especial sobre ele no jornal, no queria? Tudo bem. Ao chegar em casa, digitei rapidamente no computador minha coluna esportiva: aps 
uma sucinta descrio das atividades do clube de xadrez, lancei-me em uma anlise detalhada e picante do medocre desempenho de White no jogo da
noite anterior, acompanhada da breve entrevista que eu fizera com ele na segunda-feira. Depois da proclamao de Brian quanto a estar "na melhor forma possvel", 
teci alguns comentrios
no to sutis a respeito dos perigos do excesso de autoconfiana.
"Vamos ver se ele fica contente", pensei.
- Veja s, Brian White - murmurei para mim mesmo, enquanto o texto ia saindo pela impressora -, a caneta  mais poderosa do que o basquete.

8 - UMA CERTA DVIDA

- Como foi ontem com Caroline? - perguntou Sid no caminho para a escola, no dia seguinte.
- Bah, aquele Whiz  um zero  esquerda - respondi. - Preciso encontrar outra pessoa. Voc conhece algum cara sensvel?
Ele me encarou com um olhar gozador.
-Como?
-  pra Caroline, imbecil! Eu tambm no conheo nenhum. Afinal, que diabos quer dizer isso, "sensvel"?
Sid abriu a boca para falar, e o brilho de seus olhos me antecipou que a observao que ele estava a ponto de fazer no seria exatamente algo que pudesse ser dito 
na frente dos pais dele nem dos meus.
Mas quando a sra. Whitman surgiu do nada e se colocou entre ns dois para me perguntar sobre minha coluna para o jornal, Sid foi obrigado a morder a lngua e engolir 
a piada. Depois que eu acabei de falar com ela, continuamos a caminho de nossos armrios.
Ele ficou me observando atentamente enquanto eu retirava meus livros.
- Voltando ao assunto do senhor Sensvel- retomou Sid-, voc tem certeza de que a Caroline sacou que voc no est interessado nela?
Quase deixei cair meu livro de matemtica.
- O qu!? Eu? De que diabos voc est falando?
- v, vocs tm sado juntos, no tm? - insistiu ele.
- Temos, uma vez ou outra, mas isso no quer dizer que estejamos namorando, nem namorando a possibilidade de namorar. Somos s amigos e ponto final.
- E voc tem certeza de que ela sabe disso? - continuou Sid, pegando sua mochila.
Olhei para ele fixamente.
- Claro que sabe! - respondi.
Ele encolheu os ombros, e de sbito eu j no me sentia to seguro do que dissera quanto tentava parecer. Acabei engolindo em seco.
- Ela sabe, sim. Estou s tentando ajudar para que ela encontre um cara  altura. Voc mesmo disse que o Brian White  um idiota. Eu no poderia ficar encorajando 
Caroline a voltar pra ele.
Sid ainda parecia ctico.
- Eu t fazendo um favor pra ela, t bom? - continuei a me justificar, j um tanto irritado. - Ela no sabe disso, e eu no quero que ela saiba. 
- Pois eu acho que ela deve estar pensando que  o nosso ilustre Jake Magee quem est atrs dela - argumentou Sid, batendo a porta de seu armrio. - E eu j tentei 
avisar voc a respeito disso, lembra?
- Eu... h ... eu ...
O sinal da aula me salvou. Eu me virei e sa andando para a classe.
Caroline compreendia que ns ramos somente amigos, no compreendia? Afinal, eu nunca lhe jogara nenhum charme nem dissera qualquer palavra sedutora. Contudo agora 
j no podia me impedir de pensar: " isso a, Magee, voc no pra de convidar a garota pra sair o tempo todo. Como voc qualificaria isso, cara?"
Caroline acenou e sorriu para mim no instante preciso em que entrei no refeitrio lotado, com a refeio em minhas mos.
Fiquei em pnico, mas me forcei a retribuir o sorriso, depositando abruptamente a bandeja numa mesa mais prxima. 
Sid, que vinha atrs, quase trombou comigo.
- O que voc est fazendo? - perguntou ele.
- Pegando um lugar pra almoar - respondi, enquanto me sentava. - Apenas um simples aluno do colegial da Hillcrest High School almoando com seu amigo. O amigo homem, 
no a amiga mulher. Nada de muito original, sacou?
- Voc est misturando as bolas, Jake - retrucou Sid - no  pra mim que voc tem de explicar tudo isso.
Ele sentou a meu lado e deu um longo gole em sua Coca-Cola.
Eu me concentrei em minha pizza. Recusei o papel de ficar atrs de Caroline. Nem sequer olhei na direo dela. E estava com medo de olhar em qualquer direo.
Ser que ela esperava que eu a convidasse para o jogo de basquete feminino daquela noite? Eu no queria que ela confundisse as coisas, que pensasse que eu a estava 
convidando para sair. Alem do mais, era sexta-feira. Mas se nem conversasse com ela, ser que no iria pensar que a estava evitando? Depois daquele seu terrvel 
rompimento com Brian, a ltima coisa de que ela precisava era de outra rejeio.
Eu s havia pretendido ajudar Caroline, no coloc-la diante de mais uma decepo. Se criasse algum mal-entendido, como faria para explicar tudo a ela? Caroline 
nunca me perdoaria, e eu perderia uma boa amiga.
No comeo tinha parecido uma idia brilhante. O que havia mudado no meio do caminho?
Decidi ficar em casa durante todo o fim de semana. Meus pais se surpreenderam bastante por eu no sair numa sexta  noite, especialmente porque eu deveria estar 
cobrindo o jogo. Mas eu disse a eles que no estava me sentindo muito bem, o que era mais ou menos verdade.
- Hoje voc tambm no vai sair? - perguntou meu pai no sbado  noite, me olhando por cima dos culos.
- Tambm no - respondi um pouco rudemente, dando um forte cutuco com o atiador numa tora de madeira na lareira.
- Como voc est se sentindo, Jake? - perguntou minha me. - Voc no est pegando gripe, est? - continuou ela, colocando a mo em minha testa. - Por que no toma 
um pouco de vitamina C?
Sacudi a cabea.
- No, obrigado. J estou me sentindo melhor.
Fisicamente, pelo menos. Vitaminas no so muito teis para aliviar uma conscincia pesada.
- O que aconteceu, Jake? - perguntou Kristen mais tarde, quando eu a levava de carro  casa de sua amiga Cntia. _ Voc t to quieto hoje! Nem ficou bravo quando 
derramei o copo de leite em sua cala, no caf da manh ...
- Eu estou bem, e gostaria que me deixassem em paz _ retruquei bruscamente.
- Puxa, eu s queria ajudar - disse ela, num tom magoado.
- s vezes tentar ajudar pode meter a gente em todo tipo de enrascadas. - murmurei.
Ao ver como ela ficara triste e ressentida, acrescentei:
- Desculpe, Kristen. Srio, eu estou bem.  s que tive um monte de coisas me aporrinhando ultimamente.
Ela fez com a cabea um gesto de quem entendia.
- No gosto de ver voc triste - disse ela, quando saamos do carro na frente da casa de sua amiga.
Eu pude sentir que ela estava me olhando fixamente na expectativa de alguma palavra minha, mas me recusei a dizer qualquer coisa. Tudo o que eu queria fazer era 
voltar para casa, me enfiar debaixo das cobertas e dormir. E foi exatamente o que fiz.
Quando cheguei no canil no domingo  tarde, fui recebido pelo latido de um grande setter irlands. Abri a porta da jaula dele e entrei. O cachorro esfregou a cabea 
em minha mo, e eu o acariciei com uns tapinhas e afagos nos plos embaraados de suas costas.
- Qual  o problema, Red? - perguntei. - O seu dono vem pegar voc daqui a pouco. Voc no devia ter fugido de novo, sabe?
Red ganiu, como se soubesse que eu estava ralhando com ele.
- Se o senhor Riggins no fosse legal o bastante pra procurar por voc toda vez que foge, voc j estaria no depsito pblico de animais ou vadiando sem destino 
pelas ruas e se metendo em encrencas - informei ao co. -  melhor voc dar mais valor a sua sorte.
Um som grave e feliz saiu do fundo da garganta dele enquanto eu esfregava na cabea e na nuca e o coava por trs das orelhas. Seu rabo balanava desvairadamente 
para a frente e para trs.
Red tinha um sorriso torto e babo e uma incurvel sede de aventuras. Ele passava a metade do tempo longe de casa, e como o seu dono era um homem de idade que no 
podia andar direito por causa da artrite, eu j havia me oferecido por mais de uma vez para cuidar daquele co.
Ele abanou o rabo ainda com mais fora e ficou de p, apoiando as duas patas dianteiras no meu peito. Acariciei sua cabea.
- Parece que voc arranjou um f - disse algum atrs de mim.
Voltei-me e me surpreendi ao ver Caroline de p, do lado de fora da grade. Ela segurava a correia de uma felpuda e emaranha terrier. Os olhos escuros e brilhantes 
da cadelinha me fitavam por baixo do empoeirado plo branco de sua cara, e em seguida ela ganiu para o grande setter dentro da jaula. Red veio investigar, e os dois 
cachorros se tocaram no focinho, atravs da grade de arame. Red tambm ganiu, e a cadela de Caroline emitiu novos ganidos, latidos e rudos.
- Ser que eles vo brigar? - perguntou Caroline, algo alarmada.
Sorri e sacudi a cabea.
- Red  inofensivo - assegurei. -- Eles esto s fazendo amizade.
Como que para confirmar minhas palavras, os dois ces ganiram com mais fora e abanaram animadamente a cauda. Sa e fechei a porta da jaula atrs de mim, empurrando 
Red para dentro.
- O que traz voc por aqui? - perguntei.
Caroline parecia mudada, com o cabelo preso numa trana por trs da cabea. At ento eu s a tinha visto de cabelo solto e liso.
- A Happy precisava de um corte de plo - explicou ela -, e ento decidi lev-la a um especialista em penteados de cachorros.
Caroline tentou apartar sua cadela de Red. Happy resistiu, forando a correia, e eu me agachei para afag-la. Happy se esqueceu de Red, pelo menos por um instante, 
e lambeu minha mo.
Eu sorri com doura e me levantei.
11'
- Especialista, ? Voc devia ver o que eu fiz com o primeiro poodle que tive de aparar - brinquei.
- Ficou ruim, ? - perguntou ela, arqueando as sobrancelhas.
- Tente imaginar um poodle com uma crista de moicano da cabea at a ponta do rabo - respondi, enquanto ela puxava a correia de novo.
Quando Happy finalmente cedeu, ns nos dirigimos para a sala de corte.
- Mas tudo bem - continuei -, o plo do cachorro cresceu de novo, e o dono acabou me perdoando.
Caroline riu. Seus olhos amendoados cintilaram  luz do sol, parecendo mais claros e luminosos. Por que era que estava to receoso de conversar com ela, afinal?, 
eu me perguntava. "Tudo est sob controle. No h nenhuma tenso entre a gente. Ela  calma e tranqila, e eu tambm. Tudo vai bem."
- Happy, este  Jake - apresentou Caroline, gesticulando para o animal. - Eu disse  mulher da recepo que era sua amiga, e ela disse que voc poderia passar a 
gente na frente.
- Claro, sem problemas - repliquei, olhando para a terrier.
-Ei, Happy!
A cadelinha abanou o rabo levemente nervosa quando eu abri a torneira da banheira.
- Voc vai dar um banho nela tambm? _ perguntou Caroline ao me ver pegar o xampu para cachorros e algumas toalhas limpas.
- Faz parte do corte - expliquei.
Vesti um avental de borracha e ofereci outro a Caroline.
- Caso voc queira assistir sem ficar ensopada _ expliquei.
Sorrindo, ela pegou o avental. Quando a banheira j estava cheia at a metade, agarrei Happy com cuidado e a mergulhei na gua morna. A cadela estava bastante calma, 
torcendo a cabea o tempo todo para me olhar enquanto eu a molhava e passava o xampu. Em pouco tempo ela ficou parecendo um pano de cho ensaboado
com dois olhinhos escuros no meio.
- Eu vi o Sid hoje na biblioteca - comentou Caroline, inclinando-se do outro lado da banheira. - Ele e Shelley estavam l consultando umas enciclopdias.
- Shelley? - perguntei, enquanto esfregava o plo de Happy.
Sid no tinha me falado de nenhuma Shelley. Ser que era uma nova paquera?
- Como ela ?
- Cabelo loiro, curto e encaracolado - respondeu Caroline.
- Bem alta. Acho que  uma das meninas do time de basquete.
- Ah, sei... - murmurei, tentando impedir Happy de mastigar o frasco de xampu. - Eu vi os dois conversando no jogo da semana passada. Acho que so s amigos.
- Provavelmente - concordou ela.
- Quero dizer,  perfeitamente possvel um garoto e uma garota serem s amigos, voc no acha? - arrisquei, examinando atentamente o rosto de Caroline.
- Claro - concordou ela, pegando o frasco de xampu quando Happy j tentava dar outra mordida nele.
Sorri por dentro. Ela captara a indireta. Caroline tinha plena conscincia de que ns ramos apenas amigos. Afinal, um encontro na frente de um cachorro ensopado 
e ensaboado no era l das coisas mais romnticas deste mundo. Nem visitar o clube de xadrez, nem ajudar a empacotar alimentos numa campanha beneficente.
O Sid estava totalmente enganado daquela vez, pensei triunfante, enquanto pegava a mangueira para enxaguar Happy. Ela colocou sua lngua cor-de-rosa para fora e 
tentou beber gua da mangueira.
- Voc  bom com os animais - elogiou Caroline.
- Obrigado. Ateno! Alerta do cachorro molhado!
Tirei a cadela da banheira, coloquei-a na esteira e a embrulhei com a toalha o mais rpido possvel, antes que ela pudesse se sacudir e nos ensopar. Quando peguei 
o grande secador de cabelo que usava para secar o plo dos ces, Happy subitamente pareceu desesperada.
Quando liguei o aparelho, ela latiu loucamente para a turbina do secador. Desliguei e tentei tranqiliz-la.
- Calma, calma. No vai doer, eu prometo.
Caroline acariciou a cadelinha, e ento ns tentamos de novo, colocando o secador na fora mnima e menos barulhenta.
Finalmente consegui sec-la o suficiente para poder cortar o plo dela. Meia hora depois os olhos de Happy no estavam mais escondidos sob uma cortina de plo emaranhado, 
e o corte tambm ficou timo no geral.
- Belo trabalho - cumprimentou Caroline. - Acho que voc deve ter evoludo muito desde aquele poodle.
- Obrigado - agradeci, enquanto recolocava a cole ira no pescoo de Happy.
Caroline puxou a correia e se dirigiu  frente da loja para pagar a conta.
- A gente se v amanh - disse ela, em tom casual.
- A gente se v. Tchau.
Voltei assobiando alegremente para o meu trabalho. Agora eu tinha certeza de que Caroline estava numa boa no que se referia a nosso relacionamento, e que ela no 
esperava de mim nada mais alm de amizade. E, j que eu no havia incutido nenhuma esperana equivocada na cabea dela, poderia tranqilamente
fazer mais uma tentativa de encontrar o companheiro perfeito para minha amiga.
Talvez a terceira tacada fosse a da vitria.

9 - FELICIDADE INESPERADA

Na segunda-feira de manh o prdio da escola cheirava a cera e desinfetante, mas o brilho fresco do cho j fora arruinado pela lama dos sapatos dos alunos. Pulei 
cuidadosamente por cima de uma poa para no escorregar, e em seguida olhei para os cartazes pendurados na parede.
O grmio da escola estaria promovendo a Festa Anual de Inverno naquela semana. Haveria eventos especiais todos os dias, e o fecho seria o baile de fim de ano no 
sbado  noite, no qual a Rainha da Neve seria coroada. A partir de sexta-feira, as aulas ficavam suspensas at depois do Ano-Novo.
Parei para examinar um cartaz mais de perto. No dia seguinte haveria, aps a aula, um campeonato de arremesso de bolas de neve no campo de futebol. Parecia promissor, 
especialmente porque o mestre-de-cerimnias seria Wade Hamilton, o comediante da classe. Ser que Caroline se interessaria por um cara com um bom senso de humor? 
At onde eu sabia, Wade no estava saindo com ningum, e eu escutara mais de uma garota dizendo que ele era bonito.
- E a, Magee!
Sid bateu em minhas costas. Eu lhe dera para ler uma cpia do artigo que sairia no Herald, que agora ele segurava na outra mo.
- Voc sabe muito bem o que eu penso do Brian White, mas, cara, voc precisava atacar o sujeito to duramente assim?
- De todas as pessoas, voc  a que menos deveria reclamar - eu disse, rindo. - O White merecia isso h muito tempo, e estou mais do que feliz em dar esse presentinho 
a ele. O ego do infeliz  grande demais para o bem do time, sem falar no bem dele prprio.
- , mas quando essa coisa for publicada pode ter certeza de que vai dar bolo - avisou Sid.
- E da? - respondi. - J mexi com o Brian White uma vez, e tudo o que ele fez foi me empurrar. Deve se achar intocve1.
- , mas agora, assim, preto no branco, a coisa fica bem mais agressiva - opinou Sid, arqueando a sobrancelha esquerda. Olhei outra vez para o cartaz.
- Ei, Sid, o que voc acha do Wade Hamilton? - perguntei, mudando de assunto.
Sid suspirou. 
- Quando voc vai parar com essa mania de casamenteiro? Que troo mais antiquado!
- Vai, Sid, me ajuda um pouco, p.
- Wade  legal, acho - disse ele. - Ele  meio maluco.
- Maluco mesmo ou s esquisito de vez em quando?
Sid pensou um pouco.
- Esquisito de vez em quando, eu diria - decidiu por fim.
Traduzi aquilo como "terrivelmente engraado", e resolvi dar uma checada no Wade  tarde. Talvez ele fosse o cara certo para Caroline.


Caroline pareceu bastante interessada em ir ao campeonato de arremesso de bolas de neve quando eu a convidei. A caminho da biblioteca, tentei imaginar diferentes 
maneiras de provocar seu encontro com Wade. Eu estava to concentrado em meus pensamentos que, quando vi Miranda parada numa das salas da biblioteca, pensei que 
estava delirando. Mas quando me aproximei percebi que no era iluso. Miranda estava l, esperando por mim.
Por mim!
Eu me sentia flutuar. Havia alguns garotos batendo papo na entrada, mas o som chegava como um eco distante at meus ouvidos. Quase como um desafio, andei na direo 
de Miranda e me apoiei com o ombro na parede, encarando-a. Ela no se mexeu. Apenas sorriu e disse:
- Como vai, Jake?
- Bem. E voc, como vai? - perguntei, mantendo a voz calma.
Eu no queria que ela percebesse que meu corao quase saa pela boca. Miranda estava linda, mais do que nunca. Usava uma minissaia preta e muito curta, e uma confortvel 
malha branca. A curva de seus lbios formava um desenho perfeito.
- Tudo bem tambm. E ento, Mageezinho - continuou ela, usando um dos apelidos que me dera -, o que voc tem feito nesses dias?
- Nada de especial- respondi. - S procurando me manter ocupado.
"Pra tentar me esquecer de voc." Mas isso eu no ia dizer,  lgico.Aquela era a garota que quisera sua liberdade de volta. A garota que tinha me dispensado.
Mas as prximas palavras dela quase me fizeram esquecer as semanas de fossa anteriores.
- Senti sua falta, Jake - ela disse, sorrindo para mim.
- Sentiu? - respondi, passando meus livros para a outra mo - Mas voc tem tantos amigos pra se distrair. ..
- Desde que vi voc no outro dia, fiquei pensando ... - prosseguiu Miranda, alisando a minha camiseta com o dedo. - No tem sido a mesma coisa sem voc...
Com aquele tom de voz sexy e suplicante, tive de me conter para no agarr-la ali mesmo. Mas eu ainda no tinha certeza de ,onde ela pretendia chegar.
-  mesmo? - perguntei, cauteloso.
- De verdade, querido. Sinto muito pelo que disse a voc algumas semanas atrs, sabe? Eu no queria ...
O sinal da ltima aula soou pelo corredor, encobrindo o resto das palavras dela. Enquanto todos entravam nas classes, lIma onda de barulho e movimento cresceu pelo 
prdio.
- O que voc estava mesmo dizendo? - perguntei, quando o sinal parou de tocar e o rudo amainou.
- Olhe, Jake - retomou ela -, eu tenho um monte de coisas pra dizer a voc. Que tal a gente se encontrar em frente dos armrios depois da aula?
- Vou tentar - respondi, com a mxima frieza que pude.
Entrei rapidamente na biblioteca, antes que ela pudesse captar algum relance da minha cara, que comeava a corar, Enquanto Miranda se afastava, minha cabea fervilhava 
de perguntas. Por que ela ficara assim to gentil de uma hora para outra? Seria mesmo verdade que tinha sentido minha falta como dissera?


"Estratgia, Magee, estratgia", aconselhei a mim mesmo. Mas que estratgia? Tive vontade de me encontrar com Sid para lhe perguntar o que fazer. Ele, porm, estava 
no treino e, alm do mais, por que precisaria dele para me dizer como agir? Eu sara com Miranda durante trs meses. Se havia algum que tinha de saber como lidar 
com aquilo, esse algum era eu.
Minha deciso foi demorar o mximo para aparecer no encontro com Miranda naquela tarde. Nem pensar que Jake Magee correria de volta para os braos de uma garota, 
sobretudo de uma que lhe dera um olmpico p na bunda! E, alm do mais, seria um bom teste: se Miranda se mostrasse disposta a esperar por mim, ento eu poderia 
ter certeza de que ela falava a srio.
Quando entrei no ltimo corredor antes dos armrios, Miranda j estava l plantada, com seu longo casaco de l.
- Por que demorou tanto? - perguntou ela, toda meiga. _ Eu j estava comeando a achar que voc ia me dar o cano. 
Dar o cano? Se ela soubesse ...
- Desculpe, Miranda - disse eu, esperando pela reao dela.
Seu rosto continuava docemente triste.
- Eu me atrasei um pouco com outras coisas - continuei. - E ento?
- V buscar o seu casaco, benzinho, e me encontre do lado de fora. Tenho umas coisinhas pra dizer a voc - concluiu ela, beijando a ponta de seu dedo e encostando 
em meu nariz.
Em seguida deu meia-volta e se dirigiu para a porta principal do prdio da escola.
Pronto, eu passara pelo primeiro teste.
-  isso a, rapaz! - falei baixinho, dando um discreto soco no ar e correndo at meu armrio o mais rpido que pude.

*
Uma neve fresca e clara encobria a calada enquanto eu acompanhava Miranda at sua casa depois de sairmos da escola. Casa dela no ficava muito perto, uns vinte 
minutos a p. Quando estvamos namorando, procurvamos aproveitar ao mximo todos os momentos em que podamos ficar sozinhos, e o caminho de volta para a casa dela 
era um deles. amos sempre passeando calmamente, parando no caminho para olhar as vitrines das lojas ou para beber alguma coisa. s vezes ficvamos nos beijando 
e abraando no playground de um parque prximo. Havia tardes em que chegvamos a nos desviar do caminho por cinco ou dez vezes, pelo tempo que fosse necessrio.
Naquela tarde o cu j comeava a escurecer. Enquanto nossos ps afundavam na neve, eu me esforava para esquecer o quanto o corpo dela estava prximo do meu, e 
para no sentir o roar do ombro dela em meu brao nem o doce perfume que tanto me atormentara naquelas noites em claro que se seguiram ao rompimento. Tomei coragem 
e me atrevi a pegar na mo dela. Miranda no resistiu. Uma nuvem de vapor escapou de seus lbios, e ela se virou para mim.
- Jake, o nico motivo pelo qual eu pedi pra me encontrar com ... Sabe,  que no  exatamente o que eu disse antes. Na verdade, eu no tenho um monte de coisas 
pra dizer a voc.
- No? - perguntei, com o corao contrado.
Agentei firme, esperando que ela me contasse que conhecera outro cara.
- No, Jake.  s uma coisa.  que eu quero ... Quero voltar a namorar voc, Jake.
Meu peito se encheu de calor, e fiquei surpreso de que o fogo que se apossava de mim naquele momento no derretesse a neve nos galhos das rvores a nossa volta.
- Miranda, no sei nem o que dizer ...
- Ento no diga nada - respondeu ela, apertando minha mo. - Vamos apenas caminhar.
Continuamos em silncio at chegar ao playground. Sem dizer uma palavra, caminhamos at o escorregador, o nosso escorregador.
Era uma plataforma quadrada e elevada, com um escorregado diferente saindo de cada um dos trs lados e uma escada saindo do quarto. Por cima da plataforma havia 
um teto de metal ornamentado, sustentado por quatro postes. A pintura estava velha e descascando, mas era o nosso cantinho, ou pelo menos assim gostvamos de imaginar.
Subimos a escada e nos sentamos sob o teto, um santurio seco e limpo no meio de uma paisagem encoberta pela neve.
Miranda pousou a cabea em meu ombro, e eu a abracei.
- Isso quer dizer que voc me aceita de volta, Jake? - perguntou ela suavemente.
- H-h - respondi, levantando o capuz dela e beijando sua testa descoberta.
Miranda fechou os olhos.
- Ah, Jake, senti tanto sua falta.
Ela virou o rosto de frente para o meu, e finalmente nos beijamos.
E eu quis que aquilo nunca mais acabasse.
- Vamos ficar aqui um pouco mais, Jake - sussurrou ela, enquanto tomvamos flego. - Gosto deste lugar.
- Eu tambm - respondi, passando meu dedo por sua covinha.
Ela sorriu.

o nibus no ia rpido o suficiente. Eu tinha de encontrar o Sid e lhe contar as novidades. "Espere s at eu dizer isso a ele", pensava. Espere s at eu contar 
pra ...
Caroline. Uma sensao desagradvel surgiu dentro de mim, interrompendo meu idlio. L estava eu, voltando para a garota que amava, enquanto Caroline continuava 
sozinha. Afastei o pensamento, relembrando o passeio pelo parque com Miranda. Por fim o nibus parou no ponto, e eu corri para a casa de Sid, atravessando o jardim 
dele em trs grandes pernadas.
- O que aconteceu com voc? - perguntou Sid, ao abrir a porta. - Est to vermelho que parece que acabou de trombar de cara numa parede!
- Estou feliz, cara- respondi, chutando um bolo de neve na entrada da porta. - Voc no vai acreditar. Miranda e eu estamos juntos outra vez!
() qu? - perguntou Sid, atnito. - Mas eu ouvi dizer que ela estava saindo com um cara da St. Andrew ...
- Nem pensar. Est saindo comigo agora.
- Me deixe entender isso direito, Jake. Voc aceitou a Miranda de volta?
- Ela implorou perdo, pediu desculpas, quase se ajoelhou - expliquei, apressado. - O que voc acha que eu sou, um completo idiota? Por acaso eu deveria deixar escapar 
a chance de ter de volta a garota da minha vida, s por causa de um orgulhozinho ferido?
- Ento por que voc est to nervoso e na defensiva, j que se sente to seguro do que fez? - perguntou Sid - Voc devia estar contente, no histrico.
Eu me encostei no batente da porta.
-  isso o que eu quero - retruquei. - Pode acreditar em mim, certo?
Sid ergueu uma sobrancelha, numa careta exagerada.
- Certo, certo. Olhe, a gente conversa sobre isso mais tarde. Preciso estudar fsica agora. Cuide-se, cara. No v ter um ataque do corao s por causa disso.
- Boa noite! - exclamei, enquanto Sid fechava a porta.
Caminhei de volta para a minha casa. Que dia incrvel! Eu ainda estava tentando me acostumar com a idia de que Miranda era minha namorada novamente, de que meu 
sonho finalmente se realizara. Mas uma parte de mim se sentia melanclica e insegura. Talvez fosse por causa de Caroline. Porque Caroline ainda estava sozinha e 
triste, e eu no podia fazer nada por ela.

10 - E, DE REPENTE, QUE FRACASSO ...

- Ento, Jake, continuamos combinados pra hoje  noite?
A voz de Caroline me fez girar to rpido que dei uma pancada na porta do armrio que quase me deslocou o ombro. Era tera-feira de manh, eu ainda estava meio zonzo 
por tudo o que acontecera na tarde do dia anterior, e logicamente havia me esquecido de que planejara apresentar Caroline a Wade Hamilton depois da escola, no campeonato 
de arremesso de bolas de neve. Eu ainda no podia contar a Caroline que voltara a sair com Miranda: seria humilhante demais para ela. Mas como eu poderia levar outra 
garota ao torneio?
Contudo era o que eu tinha de fazer. No havia outra sada.
- Claro, Caroline. A gente se encontra, h ... - Onde diabos eu poderia encontr-la sem que Miranda nos visse? - A gente se encontra na sala de revelao, logo depois 
do ltimo sinal, t bom?
- Naquele quarto escuro? - perguntou ela, rindo. - Voc  estranho, Jake. Tudo bem, a gente se v l.
"Onde  que voc foi se meter?", pensei. "S h um jeito de sair dessa. Deixe Caroline se entender com Wade e d o fora. Faa o que tem de fazer e no permita que 
Miranda descubra sobre Caroline. Nem que Caroline saiba nada sobre Miranda." 
Mas por que tudo aquilo parecia to errado e confuso, afinal? Se eu acumulasse mais algum sentimento de culpa, sucumbiria com o peso. "Trate apenas de superar o 
dia de hoje, Magee", continuei pensando com os meus botes. "Se voc jogar com as cartas certas, seu compromisso com Caroline estar cumprido." 
Milagrosamente, consegui superar o dia na escola sem nenhum contratempo. Consegui dar alguns beijinhos rpidos em Miranda sem que ningum nos visse. Miranda tinha 
uma reunio 10m o comit de decorao durante o almoo, e graas a isso tambm consegui dar um oi a Caroline. Miranda continuaria trabalhando depois da aula na decorao 
do baile, e eu sabia que no precisaria me preocupar com a possibilidade de que ela aparecesse no torneio de arremesso de bolas de neve. 
Finalmente, l estava eu esperando por Caroline na cmara escura do laboratrio de revelao fotogrfica da escola, no corredor menos movimentado da Hillcrest.
Uma voz feminina ecoou pelo corredor. Sa para ver se era Caroline e entrei em pnico ao perceber de quem se tratava. Miranda!
Ela conversava com duas outras garotas, e todas tinham os braos abarrotados de latas de tinta e cartazes. "O ateli de arte!", me lembrei. "Claro, elas esto fazendo 
os enfeites no ateli de
arte, bem aqui ao lado. Mas que panaca que eu sou!" Miranda me viu e acenou para mim.
- Ei, Jake!- chamou ela entusiasmada, to alto que sua voz ressoou por todo o prdio. - Por que voc est de casaco?
- Faz frio nesta parte do prdio - respondi nervosamente, esperando que ela no perguntasse o que eu fazia ali. Seus olhos azuis pareciam calmos, mas isso no bastou 
para aliviar minha ansiedade.
- Que bom ter encontrado voc! D uma mozinha pra gente, querido? - pediu.
"Estou ferrado", pensei. Como poderia me negar a ajud-la?
- Claro - respondi apressado, pegando alguns materiais e carregando-os at o ateli.
Por cima do ombro de Miranda avistei uma silhueta se aproximando pelo corredor. Caroline! Corri para o outro lado do ateli, e Miranda tomou aquilo como um indcio 
de que eu queria ficar com ela a ss. Ela veio se aproximando, ao mesmo tempo que eu ouvia os passos de Caroline ecoarem cada vez mais perto pelo corredor deserto.
- Benzinho - disse Miranda, beijando meu queixo -, posso pedir uma coisa?
- Diga.
- Amanh  noite haver uma grande festa de patinao no rinque da cidade, e eu queria que voc fosse comigo. Todo mundo vai estar l.
Miranda me convidando pra sair! Uau!
- Eu adoraria - respondi, e ela vibrou. - Vou dar um jeito de pegar o carro emprestado.
- Voc pode passar pra me pegar s seis e meia?
- Tudo bem - concordei. - Agora vou deixar voc trabalhar sossegada. At mais tarde.
Dei-lhe um beijo rpido antes de sair do ateli, e quando ela no podia mais me ver disparei rumo  sala de revelao no fim do corredor.
Fui recebido por um som de solas de sapatos vindo em minha direo. Corri o mais rpido que pude ao encontro de Caroline, enquanto ela acenava para mim. Ela abriu 
a boca para falar, mas eu coloquei o dedo nos lbios, num sinal para que ficasse quieta.
- Por qu? - sussurrou Caroline.
- Artistas trabalhando - expliquei, antes de arrast-la para fora pela porta da escada de incndio.
Samos para o ar frio e seco da tarde. Uma barraquinha fora montada numa das extremidades do campo de futebol. Wade Hamilton, vestido com vrias camadas de roupa 
anti-trmica vermelha, fazia uma parada de mo em uma plataforma a uns vinte metros de distncia da barraca. Eu presumira que Wade estaria por ali fazendo piadas 
e palhaadas durante o campeonato. Mas no imaginara que ele seria o alvo. Olhei para Caroline. "Talvez ela no se impressione muito com o Wade", pensei.
Mas Caroline estava rindo.
- Como funciona isso? - perguntou ela. - Ah, j percebi...
Alguns membros do grmio, sentados atrs de uma mesa, faziam bolas de neve que eram empacotadas e vendidas a cinqenta centavos cada. Como Wade era bastante querido, 
ningum se atrevia a fazer suas prprias bolas de neve de graa. Alm do mais, no havia muita neve no cho, e a maior parte da que havia fora amontoada perto da 
mesa do grmio. O jogo era simples: a pessoa comprava a bola, ia para a barraca e de l tentava acert-la em Wade.
- Eu s no entendo o que pode levar algum a pagar cinqenta centavos para atirar uma bola de neve em outra pessoa comentou Caroline.
- Voc vai ver. O Wade tem um talento especial - expliquei, apontando na direo dele. -  um cara legal, mas gozador a ponto de fazer voc querer jogar algo nele, 
e at pagar pra ter essa chance.
Wade corria de um lado para outro, pulando e caindo, escapando da maioria das bolas de neve que voavam em sua direo.
Ele era um dos melhores ginastas da escola, e seus talentos eram evidentes.
- Qual o problema? - gritou ele na direo da barraca. No so capazes de acertar um alvo mvel? - provocou, fazendo outra parada de mo no alto da plataforma. - 
Tudo bem, vou tentar facilitar as coisas pra vocs!
Um calouro corpulento lanou uma bola de neve com uma fora violenta, mas Wade deu uma cambalhota e ela passou longe, explodindo no cho.
- P, assim no d, gente, no t dando nem pra suar! - gritou ele, novamente de p. - Quem  o prximo?
- Quer tentar? - perguntei a Caroline.
- Por que no?
Comprei duas bolas de neve e dei uma a ela.
- Puxa, pelo menos desta vez  uma garota bonita! - disse Wade. - Acho que minha sorte est melhorando.
Caroline corou. Tomou impulso e arremessou a bola o melhor que pde, porm Wade era rpido demais para ela. Ele se desviou, e mais uma vez a bola passou longe.
- Sinto muito! - exclamou Wade, num tom simptico.
Caroline sacudiu a cabea.
- Tente voc - sugeriu-me ela.
Um segundo antes eu no estava nem um pouco preocupado em acertar, mas repentinamente senti vontade de mostrar a Caroline que era bom em lanamentos. E tambm achei 
que Wade estava precisando de um bocadinho de neve na cara.
Peguei a bola e fiz um gesto de quem vai arremessar pelo alto. Wade se desviou. Mas eu ainda no arremessara a bola, e quando a lancei de verdade ela o atingiu em 
cheio no rosto. Ele escorregou para trs, caindo da plataforma.
Wade deu uma cuspida forte e se levantou sacudindo a neve da roupa, enquanto a rapaziada ria e urrava.
Caroline se virou para mim, s gargalhadas.
- Grande tiro!
Tentei parecer modesto.
L estava Wade, j de p novamente, fazendo caretas engraadas, gesticulando e gritando.
- Vamos l, pessoal! Ser que o nosso cronista esportivo aqui  o nico que sabe arremessar?
Ele realmente sabia como provocar o pblico. Meia dzia de garotos correu para comprar mais bolas de neve.
- Vamos ficar ali na lateral da plataforma - propus. _ Quero dizer uma coisa a Wade.
- Voc vai pedir pra ele um trofu de arremessador de bolas de neve? - perguntou Caroline maliciosamente, enquanto me seguia.
Ficamos assistindo aos pulos e rodopios de Wade. Ele se movia com grande facilidade pela plataforma, e a maioria dos arremessos passava muito longe. "Esses caras 
no acertariam nem a parede de um celeiro", pensei.
Esperamos por uma trgua, que veio quando dois membros do grmio predisaram ir buscar mais neve com um carrinho de mo.
- Ei, Wade, d um pulo aqui! - chamei.
Ele saltou da plataforma e veio em nossa direo.
- Voc conhece Caroline Willis? - perguntei.
- Para falar a verdade, no - respondeu ele, estendendo a mo cheia de neve. - Ol, Caroline.
- Ol, Wade - cumprimentou ela. - Quer dizer que voc  o nosso palhao oficial? Est se saindo muito bem l em cima.
- Fora os arremessos traioeiros, no  difcil - respondeu de, olhando para mim de lado. - Da prxima vez vou pagar pra voc ficar em casa, Jake.
Caroline e eu sorrimos.
- Estou S colaborando com uma boa causa - disse eu.
- Espero que consigamos dinheiro suficiente - comentou Wade. - O time de ginstica precisa ...
Mas nunca ficamos sabendo qual o novo equipamento que os ginastas precisavam comprar. Algum gritou:
- Wade, atrs de voc!
Ele se virou e se esquivou habilmente da enorme bola de neve que vinha em sua direo. A bola continuou a voar e foi explodir em cheio na cara de Caroline. Atingiu 
a bochecha dela como uma bomba, e voou neve pra todo lado.
Todos ficaram em silncio.
- Voc est bem, Caroline? - perguntou Wade.
Ela no respondeu.
- Ah, no! - gemi, preocupadssimo.
Wade, pela primeira vez, no estava com uma cara engraada.
- Puxa, se eu soubesse no tinha desviado ... D-d-desculpe,
Caroline - gaguejou ele, no sabendo o que dizer.
Caroline limpou a neve do rosto e dos olhos.
- Tudo bem - disse ela, enquanto enxugava a cara com a manga do casaco.
Algumas lgrimas se formaram em seus olhos, mas ao olhar para mim ela comeou a rir. Minha expresso devia estar ainda mais esquisita que a de Wade.
- Tudo por uma boa causa, certo? - brincou ela.
Os outros garotos comearam a rir tambm, e Caroline, parecendo no se importar, limpou o resto de neve de seus cabelos escuros.
- Venha, vamos sair do caminho - disse ela.
- Desculpe, Caroline, eu no devia ... nunca pensei que ... - tentei falar, sem conseguir encontrar as palavras.
- Tenho de admitir que sair com voc nunca  ente diante, Jake - observou ela, me olhando de esguelha e assoando o nariz.
- Sair? - perguntei encarando-a, com o estmago ardendo.
- O que voc quer dizer com "sair"?
Ainda havia neve nos longos cHios de Caroline. Ela piscou, e a neve voou.
- S quis dizer que os encontros com voc so cheios de imprevistos.
- Mas isto no  um "encontro" - falei sem pensar.
Caroline me olhou com uma expresso estranha.
- Eu sei que no  nada oficial... Mas, como assim, no  um encontro?
- Somos apenas amigos - insisti. - J tnhamos falado sobre isso aquele dia no canil. Ns no estamos namorando.
- No canil? Ah, aquela vez Estvamos falando sobre Sid e Shelley. Eu pensei que pelo menos - Caroline corou subitamente.
- Eu no posso convidar voc pra sair, no nesse sentido _ continuei, sem jeito. - Ainda estou apaixonado por Miranda. Pensei que voc soubesse disso ...
O que ela no sabia era que eu j havia retomado o namoro com Miranda. Como eu lhe contaria isso?
- Como  que ? - perguntou ela, com uma expresso to fria quanto as bolas de neve que zuniam por trs de ns.
- Eu pensei que ... - comecei.
- Como assim, "apaixonado por Miranda"? Voc me disse que ela tinha terminado tudo! Pensei que voc estivesse tentando esquecer essa menina! Por que ento me veio 
com toda aquela conversa sobre coraes partidos, dizendo que ns dois tnhamos muitas coisas em comum?
Os olhos de Caroline brilhavam de dio.
- Eu s quis dizer que ... ns tnhamos, alis temos muito em comum - tentei explicar. - Eu sabia como voc estava se sentindo, e s queria ajudar.
Olhei suplicante para Caroline, mas ela no parecia nada convencida.
- Voc parecia to chateada, to triste ... - continuei. _ Eu no queria que voc ficasse numa pior, foi s isso.
- No preciso de caridade! - gritou ela, batendo o p no cho e quase escorregando numa poa de gelo.
Alguns garotos comearam a olhar para ns.
Fiz um gesto para tentar acalm-la, mas ela se esquivou de mim.
- Claro que no precisa! - concordei, desesperado. - Eu gosto demais de voc, Caroline, mas como amiga, entende? Quero dizer, depois de ter sado com algum como 
Miranda ...
O rosto de Caroline ficou de um vermelho vivo, e no era de frio. E eu percebi que tinha ido longe demais.
- Voc est completamente doente, Jake Magee, se  que alguma vez j foi normal! - bradou ela, furiosa. - Sinto muito por no corresponder a seus critrios de qualidade. 
Que pena, no  mesmo? Mas oua bem isto: eu nunca mais quero falar com voc! Est claro?
Ela se virou e saiu andando a passo acelerado, antes que eu pudesse me desculpar.
Caroline tinha razo. Eu estava louco. Eu era um idiota consumado. Por ter querido ajud-la em algo em que no devia nunca ter me metido, por ter querido faz-la 
se sentir melhor talvez, no fundo, por puro egosmo, achando que assim algum ou algo faria com que eu tambm recuperasse minha felicidade perdida. Como eu podia 
ter sido to imbecil? Quis me enfiar debaixo das arquibancadas e ficar l para sempre.
Quando me virei para sair - splash! - algo frio e duro me atingiu com fora bem no meio do peito. Era uma sensao familiar, que eu no sentia desde a sexta ou stima 
srie.
Uma bola de gelo envolta por uma bola de neve. Bem o que eu precisava naquele momento.
Enquanto me apressava em sacudir a neve da minha jaqueta, pude ouvir uma onda de risadas vindo da barraca. Eu j suspeitava quem era o culpado, mas queria ter certeza.
Assim que me aproximei do grupo de franco-atiradores, logo avistei Brian White encurvado para a frente, rindo mais forte que todos os outros. Ele me viu olhando 
feio em sua direo e fez uma careta.
- Oops! Foi sem querer, a bola escapou da minha mo - disse cinicamente.
- Sem essa, White. Bolas de gelo no se fazem sozinhas rebati.
-  srio - insistiu ele. - Bom, de qualquer jeito isso no poderia ter acontecido com uma pessoa mais adequada! - provocou, enquanto as risadas aumentavam.

Ainda no totalmente satisfeito, Brian pegou um exemplar do ltimo Hillcrest Herald e atirou-o em cima de mim.
Todos os meus planos com relao a Caroline tinham se desmanchado como a neve derretida que agora escorria de meu casaco.
O que mais poderia dar errado?


- T querendo limpar a minha cara, ? - perguntei a um pequeno cocker-spaniel que tentava lamber meu queixo enquanto eu cuidava dele.
Escovei a cabea macia do co.
- Voc deveria ter ido  escola comigo esta tarde. Se tivesse levado a chuva de ovos que levei, ia passar um bocado mais de tempo aqui no salo at eu conseguir 
lavar e pentear o seu plo direito.
Quando terminei com o cocker, limpei as jaulas dos ces, tentando afastar todos os pensamentos ruins da cabea. Em seguida dei um banho num doberman, que no final 
roubou a toalha de minha mo e se sacudiu com fora, espirrando toda a gua em mim. Quando terminei o servio, estava quase to molhado quanto ele, e infinitamente 
mais deprimido.
Eu me sentia um fracasso total. O canil estava repleto de luzes de Natal e enfeites alegres, mas aquele visual fazia o meu nimo despencar ainda mais.
Natal - tempo de paz e felicidade. Bah, conversa fiada. Que motivos tinha eu para ficar contente? Tudo bem, Miranda voltara pra mim, mas a que preo? Eu magoara 
Caroline profundamente, quando a nica coisa que queria era ajud-la. Quando ser que ela se acalmaria o suficiente para me deixar explicar tudo? Provavelmente nunca.
Dez minutos depois do fim do expediente, fui at o telefone da recepo do canil e liguei para Sid.
- Al? - atendeu ele.
- Oi, Sid. Voc est muito ocupado?
- No, no estou fazendo nada demais, s embrulhando uns presentes. Por que, aconteceu alguma coisa?
- D pra voc me encontrar no Nicky's daqui a vinte minutos? Pode ser?
- Claro. Espera a,  sobre Miranda, ? - perguntou ele, com um tom de voz de "eu-avisei".
- Mais ou menos. A gente se fala daqui a pouco - respondi, desligando o telefone antes que ele tivesse a chance de dizer "at j". 
O Nicky's era uma pizzaria pequena e familiar, numa rua tranqila perto do canil. Era nosso lugar preferido para conversar. Eu nunca levara Miranda l. Para mim 
era um lugar pessoal e ntimo demais, (' seria como deix-la fuar em minha gaveta de cuecas. Era um ponto de' encontro exclusivamente para Sid e eu, nossa casa 
fora de casa.
Quando entrei, dei um suspiro de alvio. Um lugar confortvel, uma zona segura. Comecei a relaxar.
- Jake, como vai? - perguntou Tino, o dono do local. Quanto tempo!
- Tudo bem. Mas talvez um belo calzone, metade calabresa e metade almndegas com bastante queijo, possa ajudar.
- Me deixe adivinhar: o Sid est vindo para c - disse Tino, e eu confirmei: -  pra j.
Enquanto esperava por Sid em nossa mesa de sempre, percebi que Tino estava certo. Fazia muito tempo que eu no aparecia por ali. A ltima vez fora logo depois do 
fim do namoro com Miranda. Ser que minha vida tinha mesmo mudado tanto desde ento?
- O que aconteceu, Jake? - perguntou Sid, chegando sem que eu notasse e interrompendo minhas reflexes.
- Voc prefere as boas ou as ms notcias primeiro? - perguntei.
- Hum ... as ms, acho - respondeu Sid, sentando-se e tirando o gorro de l da cabea.
- Fiz besteira com a Caroline. Tivemos uma briga terrvel ontem. E sabe da maior? Ela realmente achava que ns estvamos saindo - contei, balanando a cabea. - 
Eu pensei que tivesse deixado bem claro pra ela que ramos apenas amigos, como voc e a Shelley, mas parece que no fui claro o bastante. Eu devia ter ouvido voc 
antes, Sid. Agora me sinto um completo idiota.
- , meu velho ... - disse Sid, com uma expresso estranha.
- Jake, tem uma coisa que preciso contar pra voc. Shelley e eu temos realmente nos encontrado, e no s como amigos. J faz algumas semanas.
-O qu? - exclamei, me ajeitando na cadeira e encarando-o, - Mas eu nunca vi vocs dois juntos! Por que tanto segredo?
- No h segredo nenhum - replicou Sid, parecendo incomodado. - Eu no queria que voc se sentisse ainda pior. .. Sei l, jogar na sua cara que eu tinha uma namorada 
enquanto voc estava pssimo. Ei, Magee, voc ficou bravo?
Balancei a cabea negando.
- Claro que no. Voc e a Shelley juntos, que legal! E como vai indo a coisa?
- No posso me queixar. E ento, qual  a boa notcia? _ perguntou Sid, dando um tapa de leve em meu ombro.
-  que Miranda est mesmo levando a srio a nossa volta. Ela me convidou pra sair amanh  noite.
- O qu? - exclamou ele. - Mas e o cara da St. Andrew? - Acho que voc entendeu mal. Ela no est saindo com ningum alm de mim. Ns voltamos mesmo! Ser que isso 
 assim to inacreditvel?
- Tem razo, Jake. Pra mim  mesmo inacreditvel- retrucou Sid ironicamente. - Miranda Thomas, Sua Alteza Real, mudou de idia de novo? Pois eu tenho a impresso 
de que isso acontece a cada cinco minutos. Tome cuidado, cara. "Os cataventos esto sempre girando", era o que a minha av costumava dizer.
- Escute, Sid, ela est levando isso a srio de verdade. Sei que ontem depois da escola tudo parecia meio irreal, mas  a melhor coisa que poderia ter acontecido 
comigo. Ela est sendo sincera. Eu perceberia se no estivesse.
- , justamente - Sid murmurou. - Voc deveria perceber, mas acho que no percebe nada. Cuidado, Jake. Estique um pouco demais o pescoo e ela corta a sua cabea 
fora. J fez isso antes.
- D um tempo, Sid. Ser que voc no consegue encarar isso com um pouco mais de leveza?
S ento Tino veio at a nossa mesa, trazendo um calzone grande, metade calabresa, metade almndegas com queijo. Sid olhou carrancudo para mim.
- Tino - perguntou ele -, voc poderia embrulhar pra viagem?
- Boa idia - concordei, devolvendo o olhar a Sid enquanto vestia meu casaco. - De repente minha fome foi embora.

Naquela noite, em casa, tentei me concentrar na lio de matemtica, mas a nica coisa que cruzava minha mente era a imagem do rosto de Caroline. Lembrei-me de como 
ela parecera arrasada. Por que eu no fora mais cuidadoso? Ela j estava ferida antes da minha entrada em sua vida, e agora devia estar pior do que nunca. E a culpa 
era toda minha. Pronto, eu j dera a ela meu presente de Natal.
Estava meio adormecido quando escutei minha me gritar do meio da escada.
- Algum quer chocolate quente? - perguntou ela.
- Eu quero! - respondeu Kristen no ato.
Ouvi o rudo da porta do quarto da minha irm se abrindo e seus passos descendo a escada a toda velocidade.
- Jake? - insistiu minha me. - E voc?
A voz dela tinha aquele tom de "estou aqui se voc quiser conversar", mas naquela noite eu no tinha a mnima vontade de falar com ningum.
- No, obrigado - respondi.
Ouvi minha me descer a escada e apaguei a luz. Pressenti que aquela seria uma longa noite.

11 - PATINANDO COM A DESILUSO

Miranda me fitava com olhos cintilantes enquanto deslizvamos sem nenhum esforo pelo rinque. "Jake, voc  tudo pra mim", sussurrou ela no meu ouvido. 'Como pude 
deixar voc um dia? Nada ir nos separar de agora em diante. /I Ela apertou o meu brao, e eu a puxei para mais perto.
Todos os garotos de nossa escola olhavam para ns. ramos o casal perfeito, e eles morriam de inveja.
Sid piscou para mim e apontou para a lateral do rinque. L, sentada, estava Caroline, sozinha e triste. Minha alegria se desfez, e minha mo deixou de apertar a 
de Miranda.
IIVoc no pode mais ignorar Caroline", eu disse a mim mesmo. Voc a magoou mais do que imagina. 11 Mas, por enquanto, por que eu no poderia aproveitar a sensao 
de estar apaixonado novamente?Procurei por Miranda e a abracei o mais forte que pude, tentando afastar Caroline de meus pensamentos ...


Acordei, dei um soco no travesseiro e me virei para o outro lado, tentando tirar Caroline da cabea e procurando no sonhar com nada nem ningum alm de Miranda.
- Preciso do carro hoje  noite, para uma festa no rinque de patinao com a turma da escola -- disse eu a meu pai no caf da manh. -  importante.
Mame olhou para ns.
- Eu no vou precisar dele - disse ela.
Papai abaixou sua xcara.
- Claro - concordou. - A que horas  a festa?
- Comea s seis. Eu... preciso apanhar algum antes.
- Uma paquera?
Fiz um gesto afirmativo com a cabea.
- Caroline parece ser uma boa moa - comentou meu pai, pegando uma torrada.
- Ah, no, no  ela - expliquei. - Caroline e eu somos ... ramos ... apenas amigos. Vou levar Miranda  festa.
- Pensei que essa menina tivesse dado o fora em voc Intrometeu- se Kristen, que acabara de entrar na cozinha. - Ela o aceitou voc de volta?
- Quem falou que no fui eu que a aceitei de volta? - perguntei. - E quem foi que disse que ela me deu o fora? 
- Voc disse - retrucou Kristen, pegando a caixa de granola e colocando um pouco numa tigela. - Foi a nica coisa que a gente ouviu aqui durante semanas: que a sua 
vida tinha acabado, que voc nunca mais ia sair com ningum, que ...
- T bom, t bom, j chega - interrompi. - J entendi.
Eu e minha lngua de trapo. Da prxima vez que casse na lama precisaria me lembrar de no chorar minhas mgoas para minha irm de doze anos.
- Cuidado, viu? Ela vai dar o fora em voc outra vez - persistiu Kristen, derramando leite sobre o seu cereal.
- E quem pediu seus conselhos? - perguntei.
- Algum tem de ajudar voc - respondeu minha pentelhssima irmzinha.
- No preciso da ajuda de ningum - disparei. - Eu voltei com Miranda!
Kristen olhou para o teto.
- Claro, claro! - disse ela sarcasticamente.
- Se voc no cuidar da sua vida, vou enfiar este cereal...
- Comam um pouco destas torradas, vocs dois, e chega de briga - disse mame rapidamente, antes que eu pudesse terminar minha ameaa.

*

Tudo naquele dia parecia estar conspirando contra mim. A manh se arrastou pegajosa como melado. Sid se manteve distante no caminho para a escola, e durante o almoo 
no disse uma palavra. Miranda teve uma reunio do comit e almoou com um grupo de amigas, e por causa disso eu no consegui nem chegar perto dela.
Quando entrei na aula de matemtica, avistei Wade Hamilton conversando com Caroline na classe do outro lado do corredor. "Provavelmente ele est pedindo desculpas 
pelo que aconteceu ontem", imaginei. "E aposto que est conseguindo melhores resultados nisso do que eu jamais conseguiria." Ento os ombros dela comearam a chacoalhar. 
Caroline estava rindo. Jogou a cabea para trs e riu ainda mais.
No parecia nem um pouco brava ou deprimida. Fiquei desnorteado. Bom, talvez ela estivesse apenas tentando me mostrar que podia passar muito bem sem minha "amizade". 
Entrei na classe e tentei me concentrar em problemas algbricos... e no resto das aulas.
No me concentrei o suficiente. Tirei nota vermelha em uma prova de matemtica e esqueci minha lio de casa de ingls no armrio. Tentei concentrar meus pensamentos 
somente na festa no rinque de patinao. A noite seria to maravilhosa que aquele dia horrvel no teria a menor importncia. Mas ainda era um pouco difcil acreditar 
que Miranda e eu estvamos juntos de novo.
Para me confundir ainda mais, a imagem de Caroline com Wade continuava me atormentando. Por um lado, eu me sentia feliz por v-Ia to bem: talvez ela no estivesse 
sofrendo tanto quanto eu pensava. Mesmo assim, algo me incomodava. Ela parecia estar rindo um pouco demais. Talvez estivesse apenas disfarando, tentando esconder 
quanto estava mal.
Aquele pensamento me fez sentir ainda pior.


Quando ia a caminho da casa de Miranda naquela mesma noite, meu humor j havia melhorado tanto que o som do carro estava a mil. Eu vestira uma malha azul - a cor 
favorita de Miranda -, e meu cabelo estava cuidadosamente penteado. Eu prometera a mim mesmo que no deixaria nenhum pensamento sobre Caroline interferir em minha 
noitada, e parecia estar dando certo.
Porm, quando toquei a campainha da casa de Miranda, fiquei repentinamente nervoso. Quando a porta se abriu, meu estmago deu um n.
Miranda vestia uma malha rosa-claro e uma saia de patinao curta e branca por cima de uma cala justa cor-de-rosa. Estava linda como nunca.
- Oi, Jake, entre. Preciso pegar meu casaco. Voc j conhece a minha me, n? - perguntou ela, enquanto a me entrava na sala.
- Ol, senhora Thomas - cumprimentei.
- Como vai, Jake? - ela respondeu educadamente.
Espero que vocs no passem frio.
- No se preocupe - disse Miranda.
Segurei seu casaco de l enquanto ela enfiava os braos nas mangas. Em seguida ela colocou suas luvas de tric azul-claro combinando com um gorro da mesma cor, que 
a deixava ainda mais deslumbrante. Pegou seus patins, e finalmente samos para o carro.
- Voc parece um sonho - murmurei, enquanto abria a porta para ela.
Miranda sentou-se e sorriu. Eu esperava que ela se sentasse coladinha em mim durante o caminho, como costumava fazer, mas se manteve afastada, junto  porta. Eu 
queria pegar na mo dela e abra-la, mas no parecia ser o momento certo.
Quando chegamos ao rinque, me lembrei de que fazia muito tempo que eu no patinava. Olhei para Miranda, que se abaixava para colocar os patins, e torci para no 
fazer nenhuma bobagem. Mas ento eu vi os suaves cabelos dela carem na frente de seu rosto ... Ela parecia um anjo, e com aquela viso todos os meus temores desapareceram.
Miranda olhou para cima.
- Pronto? - perguntou ela.
- Ah... Claro!
Levantei-me rpido demais e quase perdi o equilbrio. 
Miranda conteve uma risada. Estendi minha mo para ela lenta e cuidadosamente. Ela me deu a sua, e samos juntos para o meio do rinque.
Miranda era to graciosa no gelo quanto uma profissional. Enquanto eu ainda tentava me habituar ao gelo sob os meus ps, ela fez uma pequena pirueta.
- Voc  mesmo boa - comentei.
- Tive aula durante dois anos - contou ela, fazendo uma pose de bailarina.
A malha justa e a saia curta realavam seu belssimo corpo, e eu sorri.] me sentia menos desajeitado em meus patins e ofereci a ela meu brao.
- Vamos patinar juntos?
- Claro - concordou ela, vindo at mim.
Fizemos um circuito aleatrio pelo rinque, de braos dados. Era tudo com que eu sempre sonhara. A msica que saa das caixas de som era uma antiga cano romntica, 
suave e sonhadora. Aproveitando o clima, apertei a mo de Miranda e esperei que ela retribusse o gesto.
- Ah ... A Jennifer est l - disse ela, apressada. _ Tenho de lhe perguntar uma coisa sobre o comit de decorao. Vamos parar um segundinho, est bem?
- Tudo bem - concordei.
Patinamos at o outro lado do rinque para que Miranda pudesse falar com sua amiga.
Fragmentos da conversa delas - "mais purpurina prateada", "o fotgrafo disse", "faltam serpentinas" - flutuavam no ar enquanto eu olhava para o gelo, encostado no 
parapeito da cerca do rinque. De repente avistei o casaco de l roxa de Sid. Ele estava com Shelley.
Olhei para Miranda. Ela ainda permanecia em plena discusso com as colegas.
- Volto j - falei, sem saber se ela tinha me ouvido.
Retomei ao rinque. Esgueirando-me por trs de Sid, no dei nenhum aviso antes de bater com a palma da mo nas costas dele.
- O que foi isso? - exclamou ele, olhando ao redor e quase escorregando.
Eu ri.
- Surpresa! O que voc est fazendo aqui? - perguntei. 
- E desde quando preciso de sua permisso para patinar? - ele disse, com um olhar inquisidor.
Ri de novo. Tudo parecia um pouco engraado e esquisito naquela noite.
- Bela festa - observei. -  bom ver vocs por aqui.
Ele olhou para Shelley.
- Shelley, este aqui  o meu amigo Jake. Jake, Shelley.
- Muito prazer - disse ela, amigavelmente.
- O prazer  meu - respondi.
Shelley tocou o brao de Sid.
- Vou s amarrar direito os meus patins. Volto j.
Ela acenou enquanto saa.
- Ela  mesmo o mximo - comentou Sid, sorrindo.
- D uma olhada em Miranda - disse eu, mostrando-a a Sid. Ela ainda estava conversando com Jennifer.
-  to bom estarmos juntos novamente - continuei. -  quase como se nunca tivssemos rompido, sabe?
- Ah, claro. D pra notar como ela est vidrada em voc - espetou Sid, com um tom de voz estranho.
- P, pra com isso, cara! - reclamei. - Ela est atarefada demais nesta semana,  s.
-  que eu no quero ver voc se arrastando por a de novo se a garota dourada mudar de idia outra vez - retrucou Sid. Acho que eu no conseguiria mais agentar 
suas lamrias.
- Voc est sendo um babaca, Sid - adverti, mordido.
- E voc est sendo um trouxa, Jake - devolveu ele.
Miranda vai picar voc em pedacinhos.
- Como voc sabe? - inquiri, num tom agressivo. - Voc est enganado. Est enganado e sabe disso.
Sid encolheu os ombros e saiu patinando na direo de Shelley, que entrava no rinque novamente.
- Espero que esteja - disse ele, j se afastando. - A gente se v.
- Talvez - murmurei. - Mas, com essa sua atitude,  mais provvel que no.
Enquanto eu patinava na direo de Miranda, Sid gritou uma ltima frase para mim:
- Se quiser ver um casal feliz de verdade, Magee, d uma espiada na lanchonete!
Eu me virei para ele, mas Sid j abraara Shelley e comeara a patinar com ela no rinque.
Um casal feliz de verdade? Eu ainda tentava entender o que Sid quisera dizer com aquilo quando Miranda olhou para mim, sorriu e finalmente terminou sua conversa.
- A gente fala sobre isso amanh, Jennifer - disse ela, enquanto me oferecia o brao.
O toque do brao de Miranda, o doce aroma de seu perfume... Tentei aproveitar ao mximo aquele momento e deixar de lado a minha decepo com Sid. Como o meu melhor 
amigo podia me entender to pouco? Miranda e eu ramos um casal feliz. Ou no?
Enquanto patinvamos em silncio, minha raiva comeou a se dissipar. Eu queria abraar Miranda, dizer a ela o que sentia ... Quando a olhei, ela se desvencilhou 
de meu brao bruscamente.
- Ah, l est a Kara! Eu j comeava a me perguntar por onde andaria ela - comentou, impaciente. - Vou ser rpida, pombinho, juro.
Miranda me fitou se desculpando com o olhar antes de patinar at a sua amiga.
Eu a segui. Kara tentava ensinar sua irm menor a ficar de p sobre os patins.
- Oi, Kara! - cumprimentou Miranda. - Voc j resolveu aquele problema da decorao da mesa da frente? timo. Por que elas no fazem uma reunio do comit de decorao 
aqui no rinque de uma vez?
- Jakezinho, querido - disse Miranda, voltando-se para mim e tocando meu queixo com a ponta do dedo. - Sabe o que me faria a garota mais feliz do mundo?
- Diga - falei, esperando que sua resposta no tivesse nada a ver com o comit de decorao.
- Eu adoraria tomar um chocolate quente ...
- H... tudo bem. Quer que eu busque um pra voc? - perguntei.
- No, vamos fazer assim: a gente se encontra na lanchonete daqui a dez minutos - props ela. - Logo eu acabo aqui.
- T certo - concordei.
Sa do rinque e me encaminhei para a lanchonete. Quando por fim consegui pedir dois chocolates quentes, quinze minutos j tinham se passado. Miranda ainda no aparecera.
Enquanto esperava, lembrei-me das palavras de Sid. Havia um casal feliz de verdade na lanchonete.
"Ento vamos ver quem so esses dois felizardos", murmurei para mim mesmo. Virei-me e dei uma olhada pelas mesas. Havia apenas alguns casais silenciosos de calouro 
olhando para o cho. "Ta na cara que todos esses a esto saindo juntos pela primeira vez", pensei, rindo por dentro. "O Sid no sabe do que est falando."
Mas logo quando os meus chocolates chegaram, uma risada ecoou pela lanchonete. Uma risada familiar, sonora e luminosa. Caroline!
Peguei os dois chocolates e caminhei at as mesas, no compreendendo como no a vira antes. Percebi que havia uma mesa num canto mais distante, que eu no notara.
L estava Caroline, de costas para mim, rindo sem parar. E, sentado na frente dela, gesticulando muito, Wade Hamilton. "Minha ltima tentativa para ajud-la parece 
ter funcionado", pensei, sentindo-me um pouco aliviado. "Hora de parar de se sentir culpado, Magee. Talvez Caroline esteja furiosa com voc, mas pelo menos voc 
conseguiu encontrar algum para ela."
Por um instante pensei em ir at l e dizer oi, mas em vez disso dei um gole em meu chocolate quente e fiquei observando os dois de longe. De vez em quando Wade 
se inclinava para a frente e tocava na mo de Caroline ou em seu ombro. Os olhos dele pareciam no desgrudar do rosto dela. "No posso culp-lo", pensei. "Caroline 
 uma garota bonita."
Mas  medida que os minutos iam passando, senti que meu rosto esquentava um pouco. Caroline e eu sempre nos divertamos quando estvamos juntos, mas eu nunca a vira 
rir tanto como naquele momento.
Nos encontros com Miranda, algumas vezes eu me sentia como se estivesse me contendo, como se tivesse medo de ser eu mesmo. Caroline no parecia ter esse problema 
com Wade. Como ela podia deixar que ele se aproximasse assim to rpido?
Caroline e Wade se levantaram e saram da lanchonete. Continuei secando os dois enquanto eles colocavam suas luvas e entravam no rinque. E me surpreendi olhando 
feio para Wade, desejando que ele casse e fizesse papel de bobo. Mas ento me lembrei de que ele era o palhao da escola. J fazia papel de bobo diariamente.
Tive de admitir que Wade patinava como um profissional. Ele conduziu Caroline pelo rinque danando um tango exagerado, e o sorriso brilhante dela nunca abandonava 
seu rosto.
Caroline estava aproveitando o melhor dia de sua vida enquanto eu continuava sentado sozinho na lanchonete com duas xcaras de um chocolate quente cada vez mais 
frio na minha frente.
No fim das contas, aquele no era o encontro perfeito que eu imaginara.
Quando Miranda finalmente apareceu, acenei e ela se sentou na cadeira  minha frente. Apontei para a xCara de chocolate.
- Obrigada, Jake - disse ela, dando um gole. Em seguida fez uma careta. - Est frio! - exclamou, colocando a xcara de volta na mesa e olhando para o relgio. - 
Ops! Tenho de ir procurar minha me - acrescentou.
- Sua me? - perguntei, surpreso. - O que significa isso? Eu ia levar voc pra casa na hora que voc quisesse. E ns acabamos de chegar!
- Ah, Jake - comeou Miranda, com os olhos arregalados numa expresso inocente. - Sinto muito, eu esqueci de dizer... Tenho de ir embora cedo. Ns vamos  casa da 
minha av hoje  noite.
Como Miranda podia ter se esquecido de me dizer uma coisa daquelas?
- Voc podia ter me avisado antes - reclamei, tentando no parecer aborrecido demais.
Miranda suspirou desalentada.
- Mas, h ... voc vai querer sair comigo de novo? - pergunto, inseguro.
- Claro - garantiu ela.
Ajudei-a a tirar seus patins, tirei os meus e me encolhi dentro do casaco. Dei uma ltima olhada no rinque. Wade e Caroline estavam l, passeando de braos dados. 
Virei o rosto rapidamente.
- Amanh, talvez? - sugeri, enquanto nos dirigamos para a entrada principal.
Miranda parecia pensativa.
- Tenho de ir ao shopping amanh depois da aula - disse ela. - Por que no vamos juntos?
- Acho uma tima idia - respondi, aliviado.
O ar do lado de fora estava gelado, mas a lua emitia um brilho romntico. Eu me aproximei e a abracei. Miranda sorriu para mim.
- Benzinho, eu me diverti muito, muito mesmo - disse ela.
Inclinei-me para beij-la. Porm, quando os nossos lbios estavam prestes a se tocar, ela se voltou para o outro lado.
- Ah, minha me chegou! - exclamou, escapulindo de mim.
Suspirando, eu a acompanhei at o carro.

12 - SBITA DESCOBERTA
Na manh seguinte, Sid decidiu ir para a escola sem mim. Isso no me surpreendeu, considerando nossa discusso na noite anterior. Na hora do almoo resolvi esperar 
por ele do lado de fora do refeitrio, caso quisesse conversar. Mas quando ele passou batido por mim sem nem mesmo olhar em minha direo, percebi que seria intil 
tentar me aproximar. Miranda me tirou de minha melancolia ao acenar alegremente de dentro do refeitrio.
- Tem um lugar vago aqui! - gritou.
Quando me sentei a seu lado, ela me olhou com a expresso mais carinhosa que eu j vira no rosto de uma garota. Todas as minhas dvidas sobre a noite anterior se 
evaporaram no ato quando ela tocou em meu brao e o apertou com delicadeza.
- Voc est bonito hoje - disse ela, acariciando minha malha. - Escolheu azul porque  minha cor favorita?
Era a primeira vez que ela percebia que eu estava usando azul. E, contudo, naquele dia fora completamente por acaso. Na confuso de minha pressa matinal, eu vestira 
a primeira coisa que vira pela frente. Mas claro que jamais confessaria isso a ela.
- Que bom que voc gostou - respondi.
Ela abriu um sorriso radiante e logo se virou para uma de suas colegas, a fim de discutir a decorao do baile de inverno, para variar. Comi meu aguado picadinho 
de carne com o maior cuidado, esforando-me para no babar o molho de tomate.
" muito mais fcil almoar com o Sid", pensei. Porm deixei a idia de lado, ao me lembrar de todas as coisas ruins que ele dissera sobre Miranda na noite anterior.
Miranda se levantou bruscamente. Fiquei pasmo e me perguntei o que poderia ter acontecido.
- Vou a uma reunio do comit de decorao - explicou ela. - Querido, voc poderia nos ajudar a pendurar os enfeites no salo de festas? Vai ser na sexta-feira, 
depois da aula.
- Claro, fico feliz em ajudar - respondi, um pouco incomodado com sua sada repentina.
- E tudo certo pra hoje  noite?
- O qu? - perguntei.
Eu realmente precisava comear a me concentrar mais. 
- Vamos ao shopping, lembra? - disse ela, parecendo confusa, achando que eu me esquecera.
- Ah... Mal posso esperar - respondi, disfarando. - A gente se encontra na entrada da frente?
Ela deu aquele seu sorriso maravilhoso.
- Ento at l - disse Miranda por cima do ombro, j se afastando.
Como Miranda fora embora, decidi dar uma espiada em Caroline. Procurei pelo salo e logo a vi sentada com Wade. Ele sorria enquanto falava, mas Caroline no retribua 
o sorriso.
Apesar disso, quando ele se aproximou ela no o evitou. O que havia de errado?
Vi quando fez uma careta, uma expresso esquisita. Estava chorando? O que aquele palhao fizera pra ela?
Ergui-me abruptamente e logo me sentei outra vez, devagar. Fosse o que fosse, Caroline no aceitaria minha ajuda, deixara isso muito claro. Eu j me intrometera 
o suficiente em sua vida.
Enquanto eu olhava, Caroline levantou e comeou a se afastar. Wade foi atrs e colocou a mo nas costas dela. Caroline se virou e encostou a cabea no ombro dele, 
que a abraou. Se era uma briga, pareciam reconciliados. Mas por alguma estranha razo isso no me consolava.
- Sinto muito por no ter conseguido o carro hoje - eu disse a Miranda quando nos sentamos no nibus rumo ao shopping.
- Tudo bem - respondeu ela.
Eu me aproximei e peguei em sua mo, to macia e quente quanto o brilho satisfeito de seu rosto. Apertei seus dedos delicadamente. Ela retribuiu, e senti meu corao 
se derreter.
Entramos no shopping e ficamos olhando as vitrines e conversando de mos dadas, como nos velhos tempos.
Quando olhei para a praa central, um pensamento desagradvel quase me paralisou. Eu j gastara todo o meu dinheiro nos presentes de caridade. Como poderia comprar 
um presente para Miranda?
Eu receberia outro pagamento logo. Seria o suficiente? Uma garota como Miranda esperava - merecia - um bom presente. Eu estava to ocupado tentando bolar algum plano 
que no percebi que Miranda esperava que eu lhe respondesse uma pergunta.
- Desculpe, o que voc disse? - perguntei.
Tnhamos parado bem em frente a uma loja de roupas.
Miranda olhava pensativa para um leve e esvoaante vestido azul-claro na vitrine, perfeito para uma princesa.
- Esse  o vestido que eu gostaria de usar - comentou ela tristemente. - No tem muita graa fazer enfeites para uma festa  qual no vou poder ir.
Ficamos admirando o vestido durante algum tempo, at que eu quase me dei um tapa por ser to estpido.
- V-voc no tem companhia para o baile? - gaguejei, finalmente percebendo a indireta.
Eu j tinha duas entradas para o baile, que comprara muito tempo antes de nosso rompimento. Reservara at mesmo um smoking na loja de aluguel de roupas e nunca tivera 
coragem de cancelar a reserva.
- Miranda, voc sabe o quanto eu queria ir ao baile - continuei.
- Mas como ns terminamos, nem me passou pela cabea que voc no tivesse arranjado outra companhia ... e nesta semana eu simplesmente no pensei no assunto ... 
- Fiz uma pausa para respirar fundo. - Voc viria comigo? - ousei perguntar por fim.
Ela sorriu, e toda a tristeza desapareceu de seu rosto.
- Ah, claro que sim, Jake! Pensei que voc nunca fosse perguntar.
- timo - disse eu, sorrindo.
Abracei-a fortemente. Queria beij-la, mas o shopping estava lotado de gente, e um garotinho com a cara suja de doce j olhava para ns.
_ Vou voltar com minha/me hoje  noite para comprar este vestido - decidiu Miranda radiante. - Estou to feliz! E eu tambm estava. Finalmente.
Descemos para o andar de baixo caminhando sobre nuvens. Miranda parou de repente em frente a uma loja de lingeries.
_ Preciso entrar aqui um minutinho - disse.
Olhei para o suti rendado na vitrine e me virei rapidamente, encabulado.
_ H ... a gente se encontra quando voc tiver acabado, t? _ sugeri. - Vou estar na loja de animais.
_ Certo - concordou ela, entrando na loja.
Fui para a loja de animais de estimao evitando a praa centraL Caroline provavelmente no ficaria feliz em me encontrar por ali. Mesmo que ficasse, o que aconteceria 
se Miranda chegasse?
A loja de animais era meu lugar favorito no shopping. Eu adorava olhar os filhotinhos de cachorros e gatos fazendo barulho e arranhando a vitrine. Havia tambm muitos 
peixes e pssaros, e at mesmo uma cobra e um papagaio com asas vermelhas. Eu esperava que, quando Miranda chegasse, ela quisesse ver os filhotes comigo, como costumvamos 
fazer.
Dei uma olhada nos avisos pendurados no muraL Havia anncios de treinadores de cachorros e de um show de gatos que aconteceria em breve. Tambm havia avisos sobre 
filhotes perdidos.
Eu os li com simpatia: um gato persa branco, um pastor alemo ... O anncio seguinte me fez prender a respirao:
Desaparecida: terrier branca, responde pelo nome de Happy. Perdida nas proximidades do shopping na quarta-feira. Recompensa. Telefonar para James Willis, 555-1218.
Era a cadela de Caroline! No admirava que ela estivesse chorando no almoo. Devia estar arrasada, pensando na pobre cadelinha a esmo pelas ruas passando frio e 
fome.
Olhei pensativo para o anncio. Caroline e sua famlia j deviam ter procurado bastante por Happy quela altura. Onde ela poderia ter se enfiado? No sei por quanto 
tempo fiquei ali parado.
At que algum tocou em meu ombro.
- Ei, acorda - disse Miranda, brincalhona.
Voltei-me e a vi com uma sacolinha de compras na mo.
- J acabou aqui? - perguntou.
Ela olhou para uma grande cobra numa gaiola bem atrs de ns e estremeceu.
- Venha c - disse, levando Miranda at a vitrine da frente da loja e passando meu brao ao redor de sua cintura. - Veja s aquele mocinho ali - continuei, apontando 
para um filhote de rottweiler que dormia com a pata encostada no focinho. - O que voc acha de "Bruno"? Ou ento "Rufus"?
Olhei para Miranda na expectativa, mas ela virara o rosto na direo da praa dos restaurantes.
- Benzinho, t morrendo de fome. Ser que a gente poderia comer alguma coisa?
- Tudo bem - respondi desanimado, seguindo suas ordens. 
De repente, j no parecia mais que voltramos aos velhos tempos.
Miranda praticamente acabara com seu sundae quando apontou para meu milk-shake de chocolate intacto.
- Tem algo de errado com sua bebida?
- Ah... No, est gostoso - respondi, pegando o copo de papelo. "Por que voc no pergunta se h algo errado comigo ... com a gente?", pensei, com a cabea girando 
a mil. Eu sabia que estava feliz por ter voltado com Miranda - talvez desnorteado fosse uma palavra mais adequada. Sabia que as coisas no seriam mais como antes. 
A relao ainda estava voltando a se manter sobre as prprias pernas. Mas parecia haver uma barreira entre ns que eu no conseguia ultrapassar.
Ento me lembrei da ltima vez em que estivera na praa de alimentao - com Caroline. Conversramos to tranqilamente, to livres, to soltos. E mal nos conhecamos! 
Apesar disso, ao
fim do dia eu tivera a sensao de ter conquistado uma amizade para a vida toda.
Uma amiga pro resto da vida. E tinha estragado tudo.
Por que afinal a idia de namorar Caroline sempre me deixara to tenso? Quando estvamos juntos sempre passvamos bons momentos, mesmo que minhas intenes fossem 
totalmente equivocadas. Por que eu deveria ter medo de namorar uma garota com a qual eu podia rir, me divertir e me sentir completamente  vontade? Essa garota era 
Caroline, e no a que estava sentada na minha frente naquele momento.
Mas eu acabara de prometer  garota sentada diante de mim que a levaria ao baile de inverno. Agora eu tinha um compromisso com ela.
"Mas cada asneira que voc faz, hein, cara?", pensei com meus botes.
De repente uma gorda que estava a meu lado se levantou para segurar seus dois filhos pequenos. Sua pesada sacola de compras bateu em meu brao, e meu milk-shake 
saiu voando pelos ares. Grande parte dele foi aterrissar na saia e na malha de Miranda.
_ Ah, no! - exclamou ela, dando um pulo e comeando a limpar a sujeira.
Pulei de minha cadeira tambm, procurando por um guardanapo.
_ Desculpe, Miranda ... a sacola daquela mulher. ..
_ Mas  i-na-cre-di-t-vel, Jake! - gritou ela. - Ser que voc no consegue tomar um pouco de cuidado?
Ela olhava fixo para a mesa, espumando de raiva. De repente fez uma cara de quem acaba de se lembrar de algo, e sem mais nem menos mudou abruptamente de comportamento.
_ Desculpe, querido. Sei que no foi sua culpa. Mas  que eu acabei de comprar este conjunto. Estreei hoje.
_ Bom, talvez voc devesse ir logo pra casa e colocar ele de molho, ou algo assim - sugeri. - Pelo menos  o que a minha me sempre diz...
_ No se pode deixar l de molho, Jake - retrucou Miranda, secamente. - Mas realmente eu preciso tirar estas roupas logo.

Quer vir comigo at em casa? - perguntou, parecendo suplicante e algo desesperada.
- Desculpe, mas no d ... Preciso dar um pulo at o canil'...
Esperei que Miranda me perdoasse por deix-la na mo, porque o que eu estava prestes a fazer era muito mais importante que limpar a roupa dela.
Eu tinha de conseguir o perdo de Caroline.

13 - RESGATE DE UMA FUJONA

_ Sociedade Protetora dos animais, boa tarde - falou uma voz de mulher no telefone. .
_ Estou procurando por uma terrier branca perdida - expliquei do outro lado da linha. - Ela fugiu faz um dia. Voc poderia me ajudar de alguma forma?
_ Sinto muito, meu bem - respondeu ela -, mas no recebemos nenhum terrier nesta semana. E parece que a noite vai ser bem fria. Espero que voc consiga encontr-la.
_ , eu tambm espero - repliquei, preocupado. - De qualquer forma, obrigado.
Liguei para o canil em seguida. s vezes, cachorros que tinham estado no canil para fazer um corte de plo voltavam por l quando se extraviavam de casa, como costumava 
acontecer com Red, o setter que atrara a ateno de Happy.
_ Sinto muito, Jake - disse o sr. Riggins. - No vi nenhum terrier por aqui. O seu Francisco me deu uma ligada ontem e disse que o Red fugiu de novo, mas eu tampouco 
o vi.
Red no desistia de suas velhas trapaas. Sacudi a cabea.
_ Obrigado mesmo assim, senhor Riggins - respondi, pendurando o fone no gancho.
Subitamente, tive uma idia. Claro, o Red! Lembrei-me de como Happy havia reagido quele co quando estivera no canil para ter seu plo cortado. Ser que ela fora 
atrs do setter? Impossvel no era.
Certo, aquilo j parecia ser um comeo. Eu no conhecia Happy muito bem, mas com certeza conhecia muito bem as manias de Red. O nico problema  que ele tinha muitas 
manias, e o vento estava comeando a ficar realmente gelado.

*

Ao chegar em casa, corri para meu quarto e vesti uma malha extra e um gorro de tric. Peguei umas correias que tinha guardado no fundo do armrio, reminiscndas 
de um velho emprego de passeador de cachorros, e deso as escadas aos saltos. Meu pai ia trabalhar at tarde, ti o carro estava com ele. Eu teria de me virar com 
minha mountain bike.
- O jantar t quase pronto, Jake - avisou minha me da cozinha. - No saia de novo agora, no.
- Preciso, me. Tenho de procurar dois cachorros perdidos. Se escurecer, nunca vou encontr-los. 
- Mas est fazendo tanto frio l fora - disse ela, num tom preocupado. - O rdio disse que o fator vento ...
- Eu sei - interrompi. - E por isso mesmo esses ces podem congelar at morrer se ficarem ao relento. No se preocupe, veja, estou com minhas luvas e o meu bon, 
no vou sentir frio.
Minha me suspirou.
- Vou deixar um prato pra voc na geladeira - resignou-se ela, balanando a cabea. - Esquente quando voltar. E tenha cuidado, no fique por a at muito tarde.
- At mais, me - repliquei, puxando o zper do meu casaco e saindo pela porta.


Pedalando junto ao meio-fio da avenida, eu podia sentir o vento frio queimando meu nariz. Meus dedos formigavam. Abaixei a cabea e pedalei com fora contra o vento 
pelo asfalto coberto de poas de gelo.
Fui direto para o Burger Barn, a lanchonete mais prxima de casa. Quando entrei, o cheiro de hambrguer e fritas me deixou com gua na boca, e a deliciosa onda de 
calor quase me seduziu a sentar e pedir um lanche. Bom demais, mas no era o momento.
No havia tempo a perder.
- Por acaso vocs viram algum cachorro perdido vadiando por aqui? - perguntei ao cara atrs do balco.
- O tempo todo. Que tipo de cachorro voc est procurando? - questionou ele.
_ Um grande setter vermelho e um pequeno terrier branco, que provavelmente esto juntos - expliquei.
_ Hum - matutou o homem, parando de passar o pano no balco e se inclinando sobre ele. _ Acho que eu vi sim uns ces que nem esses hoje cedo. O vermelho grando 
tentou pular dentro da lata de lixo, e eu tive de sair e gritar com ele.
- E voc viu o terrier tambm? 
_ Havia outro cachorro, bem menor, mas no me lembro de como ele era - explicou o homem.
_ Tudo bem, obrigado - agradeci, saindo imediatamente.
Continuei a pedalar, piscando cada vez mais por causa das lgrimas que o ar gelado me provocava.
J fazia quase duas horas que eu sara de casa, e nem sinalados dois ces. Eu pedalava o mais rpido que podia, curvado contra o vento glido e cortante. A escurido 
se aprofundava cada vez mais, e eu comeava a ficar exausto. "Talvez voc devesse enfiar a viola no saco e voltar pra casa", pensei com meus botes. "Foi uma idia 
cretina desde o comeo. No importa o quanto voc tente nem o que consiga: a Caroline no vai dar uma nova chance a voc. Desista, Jake. Esquea." Desolado, dei 
meia-volta na bicicleta, fazendo com que o farol dela iluminasse a rua em semicrculo. Nesse instante captei um lampejo de movimento com o canto do olho. Por um 
segundo no registrei nada.
_ Red? - chamei. - Red!
Nada se mexeu. "S estou vendo coisas", pensei. "Uma iluso. Voc j devia estar tarimbado em iluses a esta altura, meu velho." Irritado, montei de novo na bicicleta 
e pedalei forte na direo de um comprido edifcio de tijolinhos. Ento ouvi um latido.
Real, no imaginrio. Rodei a toda velocidade pelo passeio que margeava a fachada do edifcio, na direo de um beco lateral.
Havia algum movimento no meio da escurido. Subitamente, um grande setter vermelho saltou  frente do facho de luz de meu farol, com o rabo abanando e a lngua pendurada.
- Aqui, Red! - gritei.
Ele se aproximou e comeou a farejar o bolso de meu casaco, que continha um pacote de biscoitos caninos que eu trouxera comigo por precauo.
- Pensei que voc ia estar com companhia - disse eu decepcionado, dando-lhe um biscoito. - Happy! Happy, venha c! - gritei, sem muita esperana.
Justamente quando eu j tinha chegado  concluso de que minhas suposies eram todas furadas, escutei o arranhar de pequenas patas no pavimento gelado.
- Happy!!! - exclamei, esticando o brao na direo da terrier, cujo plo de cor creme se convertera em algo parecido com um esfrego sujo e emaranhado. - Aqui, 
garota!  hora de voltar pra casa!
Mostrei a ela um biscoito canino, e a cadelinha veio peg-lo ansiosa.
- No fim das contas a vida na rua no  to maravilhosa assim, hein? - brinquei.
Quando enganchei uma correia na coleira de Happy, pensei: "Nada acontece sem motivo nesta vida. Talvez Caroline acabe mesmo perdoando voc". Mas eu sabia que estava 
tentando enganar a mim mesmo. Merecer a confiana de Caroline de novo ia custar muito mais do que encontrar um co perdido.
Happy comeou a puxar forte pela correia logo que avistou sua casa. Segurar dois cachorros e uma bicicleta no era tarefa fcil. Eu tinha levado cerca de uma hora 
para chegar  residncia de seu Francisco, para devolver o Red, e mais meia hora para chegar  dos Willis. Quando paramos em frente  porta, Happy saltou
contra a madeira lustrosa.
Algum a ouvira: antes mesmo de tocar a campainha, pude escutar um barulho de passos descendo as escadas  toda, do lado de dentro.
Caroline abriu a porta. No primeiro instante ela nem percebeu que eu estava l. S olhava para o cho.
- Ah, Happy!!! Pensei que nunca mais fosse ver voc!
Ela se ajoelhou e abraou com fora a cadelinha suja e tremeliquenta. Happy tentou lamber o rosto de Caroline. Seu rabo abanava to furiosamente que todo seu corpinho 
chacoalhava.
- Ai, voc est to gelada! ... E essas patinhas ... Nem consigo acreditar que voc voltou inteira!
Caroline olhou para cima, como que se tocando pela primeira vez de que algum segurava a outra ponta da correia de Happy.
- Jake! - exclamou ela, parecendo alarmada.
- H .. Hu ... - comecei hesitante. -  que eu vi o cartaz sobre seu co, e a eu ...
- Me! - gritou Caroline. - Happy voltou pra casa!
A sra. Willis desceu at o hall de entrada e se agachou para acariciar a cadelinha, que continuava a se sacudir de alegria.
- Que alvio! Com a temperatura caindo desse jeito, eu tinha medo de que ... - A me de Caroline no terminou a frase, mas olhou para mim e sorriu. - Oi de novo, 
Jake. Obrigadssimos por trazer a Happy de volta pra gente. Espere um pouco, vou pegar minha bolsa ...
- No! No, de jeito nenhum! - interrompi. - Eu nunca poderia aceitar a recompensa. Obrigado de qualquer jeito. Caroline  uma, h ...
Caroline me olhou com uma expresso inquisitiva. Quando a fitei nos olhos, ela rapidamente baixou os seus para o co.
- ... uma boa amiga - finalizei. - Foi por isso que eu procurei a Happy.
Caroline continuou a mimar a cadelinha, sussurrando palavras carinhosas em sua orelha.
- Bom, se voc quer assim ... - disse a sra. Willis, olhando bondosamente para Caroline e Happy. - Ento mil vezes obrigada, Jake. - Voc no sabe o quanto isso 
significa pra ns.
A sra. Willis se agachou de novo para esfregar a cabecinha de Happy enquanto eu desenganchava a correia da cole ira e a enfiava de novo em meu bolso.
- Vamos preparar algo pra voc comer, garota - disse a sra. Willis, com a cadela j seguindo-a rumo  cozinha.
Caroline se levantou e sacudiu com a mo os pequenos flocos de neve que haviam cado das patas de Happy em seus jeans.


- Caroline - comecei, inseguro quanto ao que dizer -, eu...
- Obrigada, Jake - interrompeu ela calmamente. - Voc no precisava ter feito isso.
Olhei para fora atravs do postigo da porta da frente da casa dos Willis. Um brilho gelado envolvia a rua.
- Uma pssima noite pra ficar ao relento - comentei timidamente.
- Estou feliz por t-la encontrado. Na verdade, mal posso acreditar que consegui.
Os olhos de Caroline encontraram os meus, e ao mergulhar na cintilante luz amendoada daqueles olhos e me perder na floresta daqueles clios compridos, eu me lembrei 
de todas as vezes em que dissera a Sid que nem sequer reparara na aparncia de Caroline. " Mas  claro que eu sabia que ela era linda", assumi em silncio. Apenas 
eu no me permitia admitir isso.
Agora, com Caroline ali diante de mim, tudo voltava de uma vez  minha mente. A forma como o seu lbio inferior se curvava em harmonia com o arco das sobrancelhas. 
Como o alto de sua cabea batia certinho na ponta de meu nariz, e como, se eu a segurasse - se -, ns nos encaixaramos perfeitamente. Ela se sentiria confortvel 
em meus braos. E beijar aquele delicioso lbio inferior, beijar aqueles dois lbios ...
- Voc se esforou bastante, no foi? - perguntou ela, quebrando o silncio e meus devaneios.
Algo me fez declarar:
- Mas eu... eu fiz isso por voc, Caroline.
Ela deu um passo em minha direo, e eu quase estiquei o brao para toc-la, para pux-la para perto de mim. Mas parei abruptamente quando ela estancou no lugar.
- E como vo as coisas com Miranda? - perguntou, voltando- se para olhar com expresso vazia para a janela coberta de neve da sala.
Miranda. Miranda pareceu subitamente to distante, to perdida no passado.
Senti um impulso de dizer a Caroline o quanto eu me arrependia de tudo o que fizera. Eu precisava to desesperadamente agarr-la, beij-la, fazer tudo ficar bem 
de novo ... Mas aquela pergunta atingira em cheio meu corao.
- Caroline, eu...
O olhar que ela me enviou naquele instante disse tudo. No pretendia me perdoar. Caroline tinha Wade Hamilton agora. E eu estava muito enganado se pensava em outra 
coisa.
O tom de voz dela modulo do frio para apenas formal.
_ Obrigada mais uma vez por encontrar Happy, Jake. Preciso ir ajudar minha me agora.
Parecia conversar com um absoluto estranho, algum que jamais vira antes. Talvez, para ela, eu houvesse mesmo me transformado nisso.
Eu queria dizer algo mais, porm foi impossvel. Tudo o que consegui fazer foi abrir a porta e sair andando. Nunca uma noite me parecera to glida. Quando escutei 
a porta bater por trs de mim, senti um calafrio.
Grandes flocos de neve caam em redemoinho do cu negro, rodopiando  luz dos holofotes, saltando para cima quando as rajadas de vento batiam. Poderia ter sido uma 
belssima cena, mas no era. Era incrivelmente desoladora.
Eu tinha cometido um erro terrvel.

14 - COMO SE DESATA UM N?

A neve continuava a cair enquanto eu pedalava lentamente de volta para casa. Tentei me aquecer imaginando-me colado com Caroline na frente de uma lareira flamejante, 
ns dois assistindo ao crescimento da neve l fora. Mas a realidade era mais forte: eu estava sozinho, pedalando contra um vento glacial.
Quando eu fazia uma besteira, era sempre em grande estilo. Por fim empurrei a bicicleta para dentro de nossa garagem. 
Meus dedos das mos e dos ps estavam dormentes, assim como o nariz e as mas do rosto. Quando entrei na cozinha, o delicioso bafo de ar quente aliviou um pouco 
meu rosto congelado. Tirei o casaco, o gorro e as luvas e lavei as mos. A gua fez com que elas formigassem, porm gradualmente o calor foi retomando a meu corpo.
A cozinha estava vazia, com os balces limpos. O jantar j terminara havia muito tempo. Bisbilhotei na geladeira e encontrei o prato cheio de carne e verduras que 
minha me preparara para mim. Enfiei-o no microondas e enchi um copo de leite.
Eu no tinha notado que estava to faminto. Comi como um animal, mas mesmo depois de ter limpado o prato um vazio angustiante permanecia dentro de mim.
Tudo em que eu conseguia pensar era em Caroline. Como eu podia ter sido to idiota? Uma terrvel frustrao emergiu das profundezas de meu ser. Tive vontade de bater 
a cabea na parede e gritar, mas uma dor na mo me trouxe de volta  realidade. Eu estivera segurando o garfo com tanta fora que os ns de meus dedos estavam brancos 
e a mo ficara com cibra. Relaxei os msculos, e o garfo repicou na mesa ruidosamente.
Eu tivera a minha chance com Caroline e a deixara escapar - escapar no, eu a jogara pela janela - porque era cabeudo demais para ser capaz de enxergar o que estava 
bem diante de meu nariz. Agora eu enxergava dolorosamente bem, mas no havia retorno ao passado. Caroline ficara com Wade, e eu, para bem ou para mal, voltara com 
Miranda. 
_ Vejo que voc voltou - Ressoou de repente a voz de meu pai, cortando meus melanclicos devaneios e me fazendo dar um pequeno salto na cadeira.
Ele foi fuar no freezer, de onde tirou uma caixinha de iogurte congelado.
_ Encontrou o cachorro desaparecido? - perguntou, enquanto desembrulhava o sorvete.
Fiz um sinal positivo com a cabea.
_ Encontrei. Levei os dois pra casa a salvo. Pai, posso perguntar uma coisa?
_ Claro - respondeu ele, puxando uma cadeira e se sentando na minha frente, do outro lado da mesa.
Meu pai deu uma colherada no iogurte e esperou que eu falasse.
_ Suponha - comecei lentamente -, suponha que um cara tenha na cabea uma imagem da garota ideal. Ele tem certeza de que a reconhecer assim que a vir. Ento aparece 
uma que preenche todos esses requisitos com perfeio. Em suma, ele tem certeza de que encontrou a garota com que sempre tinha sonhado.
_ Est parecendo bom demais pra ser verdade. E da?
_ Mas e se ele j tivesse namorado por um tempo essa garota _ continuei - e a tivesse at convidado para um baile de fim de ano, um grande baile, e de repente percebesse 
que na verdade gosta mais de outra garota? - terminei apressadamente, mordendo o lbio e esperando pelo veredicto de meu pai.
Ele piscou por trs de seus culos e por um instante no respondeu.
_ O que voc acha que esse hipottico garoto deveria fazer, Jake?
_ Eu acho que ele est de mos amarradas, pelo menos at depois do tal baile - respondi, cutucando com meu garfo no prato vazio. - Quero dizer, se ele j convidou 
a garota e ela at mesmo comprou um vestido caro para o baile, e provavelmente j disse a todas as amigas que ir ... ento acho que ele tem de acompanh-la, mesmo 
que no tenha mais vontade.
Meu pai sorriu.
- Acho que voc est certo, Jake - disse ele. - Existe uma coisa chamada cavalheirismo, ou simplesmente ter palavra.
Concordei com um movimento de cabea. Parecia mesmo que era a coisa certa a se fazer, mas essa constatao no me fazia sentir muito melhor.
- S mais uma coisa ... - recomecei, hesitando logo em seguida.
Aquilo era algo ainda mais difcil de explicar, porm meu pai esperou pacientemente at eu encontrar as palavras certas.
- Quanto a essa nova garota ... E se o cara a deixou furiosa e magoada? Talvez ele a tenha rejeitado sem ter a inteno, acabando por machuc-la de verdade. Voc 
acha que ela algum dia poderia dar uma nova chance a ele?
- Eu diria que esse cara deve dar um tempo - respondeu meu pai. - Ela precisa de tempo para superar sua raiva, e nesse nterim ele poderia terminar o namoro com 
a outra garota da forma correta. Ento acho que ele deveria pedir desculpas  garota que realmente quer, talvez ligando ou mandando um bilhete dizendo o quanto gostaria 
de v-Ia de novo. Voc tem de se arriscar, Jake. Ou esse tal cara, quero dizer.
Sorri com tristeza.
- Acho que voc sabe bem quem  esse cara - murmurei.
- Acho que sim - concordou meu pai. - Oua s isto, Jake. Alguma vez eu j contei a voc sobre os tempos de faculdade, quando eu liguei pra convidar a companheira 
de quarto de sua me pra sair, mas sua me pensou que o recado era pra ela? Quando eu apareci na pizzaria, dei de cara com duas garotas furiosas me esperando...
- No, voc nunca me contou - respondi, tentando imaginar meus pais como alunos de faculdade.
- Felizmente elas decidiram que aquela situao era divertida em vez de simplesmente horrvel, e ns trs comemos uma enorme quantidade de pizza e rimos  bea. 
Naquela noite descobri que gostava mais de sua me que da companheira de quarto dela. Depois disso eu sempre me certifiquei de ligar para a garota certa.
_ Quem est falando de mim a? - interveio minha me, que acabava de chegar de mansinho  cozinha.
Ela se aproximou e abraou meu pai por trs, inclinando-se sobre ele.
_ Contando os nossos segredinhos, ? - perguntou.
_ No todos - respondeu meu pai, sorrindo matreiro para ela.
Olhei para os dois e pensei como eu gostaria de dali a alguns anos estar assim tambm, com algum que me abraasse e amasse mesmo que eu cometesse erros estpidos. 
E, no olho de minha mente, esse algum se parecia um bocado com Caroline.
Por enquanto, todavia, eu estava atolado com a garota dourada. E no conseguia acreditar em quanto isso me fazia sentir mal.
A luz do quarto de Sid brilhava por entre os ralos galhos de rvores que separavam nossas casas, e as sombras deles criavam um desenho maluco sobre minha mesa. Eu 
tentava terminar minha lio de casa, mas estava sendo muito difcil manter a concentrao.
Olhando para a janela, recordei-me de como Sid e eu usvamos lanternas para mandar mensagens secretas um ao outro quando ramos pequenos. E agora ns no estvamos 
nem sequer falando um com o outro ...
Peguei o telefone e disquei o nmero dele.
_ Senhora Halleman? Sou eu, o Jake. Posso falar com o Sid, por favor?
Meus olhos captaram o movimento de uma sombra se movendo na parede do quarto de Sid.
_ Opa - escutei ele dizer do outro lado da linha.
_ Oi, Sid. Voc poderia dar um pulo aqui, rapidinho?
_ No sei no, Jake. Tenho um relatrio grande pra terminar - respondeu ele, num tom glido.
_ No vai demorar - insisti. - Mas  importante. Preciso muito falar com voc.
- Tudo bem, num minuto estou a.
Sua sombra se moveu novamente pelo quarto e logo desapareceu.
Desci para o andar de baixo e abri a porta da frente antes que ele tivesse chance de tocar a campainha.
- Obrigado por vir - agradeci.
- No tem de qu - respondeu ele.
Kristen passou perto do hall justamente naquele instante, com uma caixa de biscoitos na mo.
- Oi, Sid - murmurou ela, ao mesmo tempo que mastigava um biscoito.
- Oi - respondeu ele, num tom srio.
- Vamos l pra cima - pedi, querendo evitar que minha irmzinha ouvisse nossa conversa.
Sid me seguiu. Entramos em meu quarto, e verifiquei o corredor antes de fechar a porta.
- O que acontece? Voc est agindo como se a CIA andasse atrs de voc.
- Irmzinhas de doze anos do espies melhores que os da CIA- comentei secamente, matutando sobre como comear. - Olha, Sid, primeiro eu queria pedir desculpas pela 
maneira como reagi por causa do que voc disse sobre a Miranda na outra noite.
- Nesse caso, prometo que no vou mais chamar voc de trouxa - disse ele. - Pelo menos no por um dia ou dois.
Ele deixou cair os braos e se sentou na cadeira de minha escrivaninha, parecendo um pouco mais relaxado.
- Sabe, eu no consegui acreditar quando Miranda rompeu com voc. Vocs dois pareciam estar muito bem um com o outro.
Mas, convenhamos Jake, eu sei que ela  loira, linda, tem um grande corpo e tudo mais ... mas voc tem de encarar a realidade: ela no  a garota dos seus sonhos.
- Eu sei, Sid. J encarei isso, e no sei por que demorei tanto. Bem que eu gostaria de ter a mesma sorte que voc - confessei. 
Sid concordou com um movimento de cabea.
-  verdade, a Shelley  mesmo demais. J convidei ela pro baile de fim de ano.
- Que legal!Mas eu pensei que a gente fosse junto ... - disse eu.
- Bom, depois que Miranda deu no p... h, quero dizer, depois que vocs terminaram, eu achei que...
A voz de Sid se extinguiu.
- De todo jeito - retomou ele -, Shelley e Miranda no so l das melhores amigas deste mundo. A deusa loura provavelmente tem idias prprias a respeito de com 
quem quer se enturmar para ir ao baile.
- , acho que tem mesmo - admiti.
- Bom, mas no importa. A gente pode sair em outra ocasio - observou Sid.
- Claro que sim - concordei. - S que eu gostaria de ter percebido tudo isso antes, como voc percebeu - me lamentei.
- Percebido o qu?
- Que s porque a Miranda  loira e bonita, eu no era obrigado a me apaixonar por ela. No d certo, ns dois.
- Eu tentei avisar, mas voc no quis me ouvir - lembrou Sid.- E agora, voc vai colocar tudo nos eixos?
- T difcil. Voc vai ao baile com a garota de quem gosta - grunhi -, mas eu estou empacado com...
- Abarracuda loura - Sid terminou por mim.
- Miranda - emendei secamente. - E agora que meus planos casamenteiros para Caroline parecem ter dado certo, duvido que ela me d outra oportunidade.

15 - COM A GAROTA ERRADA

Sexta-feira ia ser um dia cansativo e desagradvel. Era o ltimo dia antes de nossas frias de fim de ano, e ningum queria trabalhar, nem mesmo - assim me pareceu 
_ os professores. Tudo o que eu tinha vontade de fazer era fugir e me esconder em meu quarto. No queria cruzar nem com Miranda nem com Caroline.
No almoo, jurei a mim mesmo que ia ficar em minha mesa com Sid. Acenei para Miranda umas duas vezes, mas no tive vontade de ir at ela e conversar. Ainda teria 
de ajud-la de tarde com os enfeites, e no estava ansiando nem um pouco por aquilo.
Quanto a Caroline, tentei nem sequer olhar em sua direo. O que ela devia estar pensando a meu respeito, eu preferia nem imaginar.
- Mas que diabos voc est fazendo? - perguntou Sid quando me afundei ainda mais em meu assento.
- No quero ver Miranda de novo hoje - respondi. _ No quero me sentar com ela e no quero conversar com ela. No quero ter de lhe dizer como estou louco por ela, 
quando no estou nem um pouco. - Levei algumas batatinhas fritas meio queimadas at a boca e engoli. - A nica coisa que ela sabe falar  do baile - continuei. - 
E eu estou pagando pra escapar desse baile.
- T ruim o negcio, hein? - comentou Sid, dando uma enorme mordida em seu hambrguer. - Me passa o ketchup.
- E, por outro lado, estou morrendo de vontade de ver Caroline, mas no adianta, porque ela no vai nem me deixar comear a falar. Ela me odeia, Sid. E, pra piorar, 
eu tenho de continuar oficialmente saindo com Miranda ...
- Ateno, Jake! Alarme Miranda das trs da tarde! - avisou Sid.
Miranda vinha rebolando pelo meu lado direito, sorrindo como se fosse a garota mais feliz do mundo.
- Oi, benzinho - cumprimentou ela, inclinando-se e me beijando na bochecha. - No vejo a hora de chegar amanh  noite - sussurrou em meu ouvido, enquanto massageava 
sedutoramente meus ombros.
Ela nem sequer esperou por uma frase minha para voltar a sua mesa.
Suspirei.
- Est vendo s? - perguntei a Sid. - Tenho de manter a farsa at essa droga de baile passar. S ento vou poder terminar com ela. Espero pelo menos no deix-la 
to deprimida quanto ela me deixou. Sou mesmo uma pessoa horrvel.
- Horrvel - concordou Sid. - Posso comer as suas batatinhas, j que voc no quer?
Quando empurrei minha bandeja na direo dele, pensei brevemente que a auto-flagelao com um aoite era justamente do que eu precisava para me punir. No tinha 
lido na aula de histria alguma coisa sobre aqueles monges medievais que ficavam se auto martirizando e s vestiam tnicas de crina de cavalo?
Enquanto refletia sobre essas antigas formas de penitncia, Sid acrescentou:
- No quero jogar gua na fervura, cara, mas no acredito que Miranda tenha sequer reparado que voc a est evitando. Ela nem parece reparar em voc.
Soltei um gemido.
- Eu sei. Ela est ocupada com o comit de decorao. S sabe falar disso, disso e do baile. Vai me odiar pra sempre.
- E da? - perguntou Sid, mergulhando uma batatinha no ketchup.
Olhei para ele e me levantei. Naquele exato momento captei um relance de Caroline. Ela estava num papo animado com Wade, e parecia melhor do que nunca.
"Danou, Magee", tive de dizer a mim mesmo. "Agora ela j est em outra. Totalmente inacessvel, e  tudo culpa sua." Estremeci, sentindo a gravidade de meu erro.
- Vou estudar na biblioteca at o sinal tocar - informei a Sid. - Pode comer todo o meu almoo.
- Ei, acho que vou dar um jeito de voc continuar embananado por mais um tempinho - replicou Sid, avanando nas batatas frias e queimadas.
- D pra voc trazer aquela pilha de flocos de neve de carto at aqui, por favor? No, aquela outra l - pediu Miranda.
O salo de baile estava uma confuso. Amaldioei a mim mesmo por ter concordado em ajudar a pendurar os enfeites no salo. Apesar do grande nmero de garotas presentes, 
os trabalhos avanavam com lentido. Eu era o nico garoto no pedao. Mas no podia deixar Miranda na mo quela altura dos acontecimentos.
As meninas se alvoroavam pelo salo, transbordando de entusiasmo com o evento. Agarrei uma enorme pilha de flocos de neve recortados em cartolina branca e uma escada, 
e caminhei at onde estava Miranda. Enquanto isso, ela e Kara discutiam sobre onde pendurar os pingentes de gelo feitos com papelo pintado com purpurina.
Enquanto eu colava os flocos de neve na parede, um pensamento sbito cruzou minha mente. Os presentes da campanha do anjo! Senti um calafrio subir pela espinha. 
Como eu podia ter me esquecido com tanta facilidade? Eu tinha comprado aquele monte de presentes para o pequeno Kevin, at os tinha embrulhado pessoalmente, e me 
esquecera de entreg-los! E aquela era a ltima noite em que eles poderiam ser entregues na mesa das voluntrias no shopping!
Eu andara to envolvido com meus problemas afetivos que acabara me esquecendo de algo muito mais importante. Como eu podia ter sido to desligado?
O relgio na parede marcava 4h30 da tarde. Justamente o tempo necessrio para ir at em casa, pegar os presentes e lev-los ao shopping. Mas antes eu precisava terminar 
aquele trabalho.
Desci da escada e agarrei uma batelada de pingentes de gelo.
Ento encontrei uma rea ainda no enfeitada e comecei a pendur-los l.
_ Espere, benzinho, a gente ainda no decidiu aonde vai pendurar isso - reclamou Miranda.
_ Aqui vai ficar bom, confie em mim - garanti.
Ela franziu a testa, mas depois de eu ter pendurado mais alguns, aprovou com um gesto de cabea.
_ Olha, t ficando bom mesmo! - exclamou Miranda. - Ento est certo, Kara, vamos coloc-los a mesmo. 
Eu grunhi baixinho e mantive os olhos grudados no relgio.
Afinal, eu j havia cometido erros de sobra. Agora, se eu no levasse os presentes para o meu anjo a tempo, o Natal ficaria definitivamente arruinado.
Com apenas uma semana faltando para o Natal, o shopping estava apinhado de consumidores de ltima hora. A louca corrida de todos atrs de presentes me lembrou que 
eu ainda no havia comprado um presente para Miranda. Que ironia! Depois de todas as minhas lamrias a respeito de ficar sozinho nas frias, eu estava planejando 
me livrar de Miranda o mais rpido possveL Ser que eu devia comprar um presente para ela, a fim de amenizar o golpe? E se ela j tivesse me comprado alguma coisa? 
Eu iria me sentir horrvel sem ter nada para retribuir.
Passei pela loja na qual Miranda pretendia comprar o vestido azul para a festa. Ainda havia tempo de sobra antes de fechar o shopping. Talvez eles tivessem algo 
que combinasse bem com o vestido. Depois de ficar zanzando pela frente da loja por um ou dois minutos, finalmente criei coragem e entrei.
_ Posso ajudar em algo? - perguntou uma vendedora de aspecto maternal.
_ Eu... h ... Eu estava pensando ... naquele vestido na vitrine.
A garota que eu vou acompanhar ao baile... eu acho que ela comprou um desses no outro dia - tentei explicar, sem jeito.
Ser que eu estava dizendo coisa com coisa?
_ Eu pensei se... h ... Ser que vocs teriam alguma coisa que combinasse bem com o vestido e que eu pudesse dar de presente pra ela?
_ Um acessrio? Que boa idia! Vamos ver o que conseguimos encontrar.
Ela trouxe um prendedor de cabelo forrado de contas azuis.
-  bonito - eu disse. - Espero que ela j no tenha comprado igual. Voc se lembra dela? Bonita, com um cabelo loiro comprido e olhos azuis? Acho que ela e a me 
vieram comprar o vestido juntas ontem  noite.
- Eu no vendi nenhum vestido desses em toda a semana - disse a vendedora. - Clara, voc vendeu algum desses longos azuis para uma garota de cabelo loiro?
A mulher chamada Clara franziu o nariz enquanto marcava uma venda na caixa registradora.
- Vendi um umas duas semanas atrs para uma loira bonita.
Ela tambm comprou tudo o que ns tnhamos que combinasse com o vestido, se no me falha a memria. Eu franzi a testa. No podia ter sido Miranda, mas ...
- Talvez eu volte mais tarde - desculpei-me. - Obrigado pela ajuda.
"No  possvel que Miranda tenha comprado o vestido antes de eu t-la convidado para o baile ontem", pensei, enquanto me dirigia  praa central do shopping. A 
no ser que ela j tivesse comprado o vestido antes de nosso rompimento. Mas no ... Ela me dissera no dia anterior que voltaria ao shopping com a me s para comprar 
o vestido. A vendedora devia ter se confundido.
A mesa das voluntrias apareceu em meu campo de viso, e ento verifiquei que tinha me esquecido de mais uma coisinha: Caroline estava sentada atrs da mesa, com 
uma malha de moleton vermelho que tinha uma rvore de Natal desenhada na frente. Fui at l e coloquei minha sacola sobre a mesa, ante que ela pudesse atender alguma 
outra pessoa.
- Oi, Caroline - cumprimentei, tenso. - Trouxe os presentes para o meu anjo adotivo. O nome e o nmero dele esto nas etiquetas.
- Obrigada, Jake - replicou ela, sem sorrir.
Enquanto olhava dentro da sacola, ela foi fazendo algumas anotaes em sua prancheta. Em seguida empilhou os presentes junto com os outros que se amontoavam ao redor 
da mesa, sem me olhar em nenhum momento.
- Voc precisa de alguma ajuda pra entregar os presentes amanh? - perguntei, solcito. - Eu ficaria contente em poder dar uma fora.
- J temos um voluntrio pra nos ajudar nisso - respondeu ela friamente. - De qualquer forma, obrigada por se oferecer.
-  algum que eu conhea? -perguntei.
Seria o Wade? Tentei evitar pensar em outro cara trabalhando lado a lado com Caroline, roando no b{ao dela, chegando cada vez mais perto ... Ser que o Wade j 
tinha beijado Caroline?
Ela riu, parecendo se divertir com minha preocupao. Fiquei aliviado de v-Ia sorrir, mesmo que fosse  minha custa.
- No  ningum que voc conhea - respondeu, como se pudesse ler meus pensamentos. -  um senhor idoso, um dos jardineiros da estufa de plantas ornamentais.
- Ah ... - repliquei, me sentindo um verdadeiro babaca.
A mesa das voluntrias estava concorrida, e eu tinha de cair fora logo para dar lugar a um casal com os braos carregados de presentes logo atrs de mim.
- E ento, Jake, voc vai levar a Miranda ao baile? - perguntou ela, provocativa.
Caroline olhou direto no fundo dos meus olhos, quase me desafiando a responder.
- ,  verdade, vou sim - respondi, sentindo um grande desconforto. - E voc e o W...
- Me desculpe, por favor - interrompeu uma desagradvel voz masculina por trs de mim. - Daria pra voc ir se mexendo?
Temos mais coisas pra fazer por aqui ainda.
- A gente se v, Jake - disse Caroline, fazendo um gesto para que o casal se adiantasse.
- Pensei que os dois pombinhos a nunca fossem terminar - disse o homem ao despejar os presentes na mesa quando eu j sara andando, no sem que antes Caroline me 
lanasse o olhar mais dilacerante que eu jamais vira.
Com os olhos ofuscados pelas luzes, virei  esquerda logo depois da rvore de Natal enfeitada, com os bombons gigantes e os duendes. Por todos os lados cintilavam 
e piscavam as luzinhas natalinas, e grandes laos vermelhos adornavam as vitrines das lojas. Crianas pequenas ainda esperavam em fila para ver o Papai
Noel, e casais passeavam de mos dadas.
 minha volta todos pareciam felizes. Eu tambm deveria estar feliz. Afinal iria ao baile com uma linda garota, a garota com a qual sonhara por tanto tempo.
S havia um problema: ela no era Caroline.

16 - NO FOI ASSIM QUE SONHEI...

- Parece que voc no est l muito animado - observou minha irm sarcasticamente no sbado pela manh. -No  hoje  noite o grande baile?
Fiz que sim com um gesto de cabea e fui para a cozinha tomar o caf da manh. Kristen me seguiu.
- Voc no est contente, nem rindo, nem nada - disse ela, pegando um copo do armrio e enchendo-o de leite. - Eu estaria excitadssima. No vejo a hora de ter idade 
suficiente pra ir a um baile.
Encolhi os ombros. Se estivesse me preparando para pegar Caroline naquela noite, em vez de Miranda, sem dvida ficaria bem mais animado. Mas do jeito que as coisas 
andavam ...
- Eu compraria um vestido novo e passaria o dia inteiro arrumando o cabelo - continuou Kristen, com um ar sonhador, dando pequenos goles em seu leite. - E se tiver 
sorte meu namorado vai ser to bonitinho quanto voc - acrescentou.
Sorri, apesar de meu lastimvel estado de esprito. Para uma irm da idade dela, at que Kristen no estava to mal.
- Tenho certeza de que daqui a trs anos os garotos vo fazer fila a na porta - disse a ela.
- Jake,  pra voc! - gritou Kristen do p da escada.
Peguei o fone no pequeno hall em frente a meu quarto, no andar de cima.
-Al?
- Oi, Jake, sou eu, Sid. Estou indo ao shopping pra pegar o meu smoking. Quer ir junto?
_ Tudo bem - respondi, pegando meu casaco e descendo a escada. Quando cheguei  entrada da casa de Sid, ele e seu pai estavam de p ao lado do carro.
_ Hoje  a grande noite, hein, Jake? - comentou o sr. Halleman.
Sorri o mais educadamente possvel.
- , sim, senhor.
Quando entramos no carro, Sid girou a cabea para me olhar.
_ Tente moderar esse seu entusiasmo - disse com uma ironia seca.
Ao chegarmos  loja de roupas de aluguel, a mulher atrs do balco veio at ns, pegou os nmeros de nossas comandas, foi at um grande armrio cheio de smokings 
e voltou com dois cabides recobertos por uma capa plstica. 
_ Vocs podem experimentar l no fundo e ver se o tamanho est certo - disse ela, apontando com um movimento de cabea para os provadores nos fundos da loja.
- Pra mim parece que est bom - observei.
Ela me olhou com estranheza, e Sid me deu uma cotovelada.
_ Pare com isso, Jake - sussurrou ele. - Vamos l, experimente esse smoking e pare de se comportar como se estivesse indo a seu prprio funeral.
Fui me arrastando sem vontade at uma pequena cabine, tirei os jeans e a malha, e me enfiei e sa do smoking o mais rapidamente que pude.
_ Ficou bom - comuniquei  mulher quando voltei ao balco.
Sid demorou bem mais. Quando finalmente terminou, ns nos dirigimos  floricultura. Eu tinha instrues especiais de Miranda para comprar um ramalhete de flores 
brancas e azuis, que combinassem com o vestido dela. O florista me mostrou as flores, a fim de que eu as inspecionasse, mas eu mal dei uma olhada.
_ timo - comentei, sem qualquer emoo e j pagando a conta.
_ Sua namorada vai ficar encantada, tenho certeza - disse ele.
- Espero que sim - retruquei.
No caminho de volta para casa, Sid disse:
_ Vou levar Shelley pra jantar no Gara Azul depois do baile.
_ Um belo lugar - comentei. - Vocs vo gostar bastante.
_ Aonde voc vai levar Miranda? - perguntou ele, encarando-me com curiosidade.
- A lugar nenhum.
Sid ficou srio.
_ Ora bolas, Jake, sem essa. Voc tem de ...
_ No, no  por pirraa - interrompi. -  que ns temos uma festa pr-baile na casa de Kara Robbins. Toda a turma de Miranda vai estar l. Foi ela que quis assim.
_ Puxa vida _ replicou Sid -, eu achei que gastar um dinheiro num jantar caro fosse jogo duro, mas prefiro mil vezes isso do que ter de sair com um monte de gente 
de quem no vou com a cara.
_ Nem me fale - grunhi.
Tirei o smoking da embalagem com o mesmo nimo que sentiria se estivesse recebendo uma sentena de morte. Aonde tinha ido parar todo o meu entusiasmo por namorar 
Miranda? Eu tinha sonhado durante meses com a idia de lev-la ao baile de fim de ano, e agora o grande momento estava a apenas duas horas de distncia.
Mas o rosto de Caroline sempre me vinha  mente quando eu tentava imaginar Miranda dentro daquele belssimo vestido azul.
Ao sair do banho, sequei o cabelo com a toalha e abri um novo pote de loo ps-barba. Ser que Caroline gostaria daquele perfume? ...
Miranda, lembrei a mim mesmo irritado. Eu queria dizer Miranda. E tinha de me concentrar em Miranda.
Fui me vestindo lentamente, lutando com a faixa do smoking e com a gravata-borboleta, e por fim consegui colocar tudo no lugar certo. Quando me enfiei no palet 
preto e me olhei no espelho, um estranho me contemplava do outro lado.
"At que no est mal", pensei ao ver meu reflexo. Ficou bem legal, na verdade. Antonio Banderas que se cuide. Caroline ficaria impressionada ...
"Miranda, seu imbecil! ", eu me lembrei. " com Miranda que voc est saindo hoje, e vai chegar atrasado se no comear a se mexer j, j." 
Desci feito um zumbi para o andar debaixo.
- Estou saindo - bradei.
- Espere a, Jake, deixa eu dar uma olhadinha em voc - disse minha me, correndo para me encontrar. - Menino, e no  que voc est lindo mesmo! Venha, fique de 
p um instantinho aqui na sala para eu bater uma foto.
- Ah, no, me, sem essa! - gemi. - Ento seja rpida, ta bom? No quero me atrasar.
A verdade  que eu queria me atrasar, mas o que ela pensaria se eu confessasse isso?
Depois que bateu um monte de fotos, mame me deu um beijo na bochecha.
- Divirta-se bastante, meu amor - disse ela.
Kristen abriu um sorriso para mim.
- Voc tem de me contar tudinho quando voltar, Jake pediu.
Todo aquele incentivo da parte de minha me e minha irm me fez sentir bem, mas triste ao mesmo tempo. Apesar das boas intenes, elas no tinham a mnima idia 
de que sem Caroline aquele baile nunca poderia ser bom. Meu pai fez gestos aprovadores com a cabea e me deu tapinhas nas costas.
- Voc vai ficar bem, Jake - disse ele baixinho, inclinando-se junto de mim para que ningum mais pudesse ouvir. _ Quando o baile comear, tenho certeza de que voc 
vai entrar no clima e se divertir bastante.
Depois de uma acalorada discusso a respeito de se eu deveria ou no vestir um casaco de l por cima do smoking (eu perdi), caminhei relutantemente at o carro, 
envolto no grande sobretudo de l preta de meu pai.
O cu mergulhava rapidamente nas trevas. As ruas estavam limpas o bastante para os carros circularem, apenas com um pouco de lama de neve derretida no meio-fio. 
A neve sobre os gramados cintilava como um tapete de cristais de gelo. Luzes natalinas brilhavam nas casas aqui e ali, e o ar estava lmpido e cortante.
Era uma bela noite de inverno, uma noite perfeita para um romntico baile de fim de ano. Mas aquele baile nunca seria perfeito nem romntico - no sem Caroline.

Meu hlito nublava o ar congelado enquanto eu caminhava pela calada em frente  casa de Miranda. Na ltima vez em que sairmos, eu me sentira esmagado pela ansiedade 
logo que tocara a campainha. Mas agora eu estava totalmente calmo. Com meus velhos sentimentos por Miranda minguando cada vez mais, eu estava perdendo tambm o nervosismo 
dos velhos tempos.
_ Oi, Jake - disse a sra. Thomas quando abriu a porta para mim. - Entre. Miranda j vai descer.
_ Obrigado - repliquei descontrado, enquanto limpava os ps no capacho e entrava.
O farfalhar de um vestido me fez estancar no lugar.
Miranda postara-se majestosamente no alto da escada.
Comeou a descer lentamente os degraus, movendo-se com grande charme dentro de sua roupa. O vestido, plido e leve, flutuava a seu redor, e seus olhos azuis brilhavam 
de entusiasmo. Seus cabelos dourados haviam sido repuxados numa espcie de trana e presos com uma fivela bastante parecida com a que eu quase lhe comprara. E diamantes 
resplandecentes decoravam os lbulos de suas orelhas.
Fiquei momentaneamente nocauteado, sem ar.
_ Voc est simplesmente ma-ra-vi-lho-sa - declarei com sinceridade. - Parece uma estrela de cinema.
Miranda abriu um grande sorriso para mim.
_ Voc tambm est bonito, Jake - retribuiu ela.
Ficamos de p no corredor e posamos para o que me pareceu ser um rolo inteiro de filme. Quando a me dela finalmente terminou de bater as fotos, Miranda foi pegar 
seu casaco. Retomou segundos depois, completamente embrulhada em um casaco de peles.
_ Voc vai usar isso?! - exclamei, pasmo.
Ela corou. Na defensiva, tentou se explicar:
-  o casaco de minha av...  vison. Ela me emprestou especialmente para esta noite. Eu mesma nunca compraria um casaco de peles, claro. Mas ela ofereceu ...
Pensei nos cachorros e gatos cujo plo eu cortara no canil, no suave toque de suas peles e na confiana que havia em seus olhos quando eles me fitavam enquanto eu 
os escovava carinhosamente. Eram seres vivos e tinham sentimentos. Olhei para as espessas pelicas de vison do casaco de Miranda e reprimi um calafrio. Pensei em 
uma dzia de coisas que poderia dizer a ela, mas mordi a lngua e engoli tudo. Aquele no era o momento de discutir sobre casacos de pele e respeito aos animais.
Samos para a noite fria e caminhamos pela calada. A festa antes do baile era somente trs casas acima da de Miranda. Ela enganchou seu brao no meu, para evitar 
o risco de escorregar no gelo.
- No consigo acreditar que esta noite finalmente tenha chegado, Jake. Esperei tanto por esse baile...
Senti uma ferroada de culpa. Miranda to contente por estar indo ao baile comigo e eu s esperando por uma chance para terminar tudo com ela! Ser que eu acabaria 
partindo o corao dela to violentamente quanto ela partira o meu? Ser que iria pensar que eu queria apenas me vingar? Eu me sentia mal comigo mesmo. Mas a idia 
de continuar com Miranda sentindo o que eu sentia por Caroline me fazia ficar ainda pior.
Contudo havia um detalhe: quem disse que, s por tomar a iniciativa de romper com Miranda, Caroline me perdoaria?
Quando percebi que Miranda estava falando, lutei para empurrar meus pensamentos de volta para o fundo da minha mente e prestar ateno nela.
- O qu? - perguntei.
- Eu disse "chegamos" - repetiu Miranda. - Vamos logo, meus ps esto ficando congelados.
Ela se apressou na direo da porta e tocou a campainha enquanto eu ainda a seguia. Kara abriu a porta imediatamente.
- A esto vocs - disse Kara. - Entrem, entrem.
Miranda me apresentou ao pessoal. Eu j conhecia a maioria das garotas do comit de decorao, e reconheci vrios de seus namorados, apesar de haver por l uns dois 
caras de outra escola, a St. Andrew. A comida que estava sendo servida na sala de jantar tinha muito mais interesse para mim. Depois que Miranda e eu enchemos nossos 
pratos, ns nos sentamos no sof para comer.
As garotas riam e conversavam, enquanto os rapazes simplesmente se sentavam e comiam. Era fcil adivinhar que grupo estava mais entusiasmado com o baile. Felizmente 
Miranda parecia no se importar - ou reparar no fato - de que eu no fizesse parte do grupo dos entusiasmados.
Kara e seu namorado, Chad, estavam sentados num sof a nosso lado. Quando Miranda se levantou para pegar uma gua mineral, Chad deu uma piscadela para mim.
- Est se divertindo, Jake?
_ Claro - respondi, ainda determinado a ser bem-educado.
_ , Miranda  mesmo uma garota deslumbrante - comentou ele, fazendo Kara franzir a testa. - Mas eu gosto mais das ruivas, claro - acrescentou.
_ Certo - eu me limitei a dizer.
Comi o resto de meu rosbife e me levantei para levar o prato de volta  mesa.
_ Miranda  uma garota nota dez - insistiu Chad. -  melhor voc aproveitar enquanto pode - sorriu, com um ar pretensioso.
Kara deu um chute na perna dele.
_ Ai!- exclamou Chad. - P, Kara, eu no ...
No ouvi o resto, pois justamente quando colocava meu prato de volta na mesa escutei a sra. Robbins perguntar a todos:
_ E ento, gente, todo mundo pronto pra sair?
_ Ah, eu preciso dar uma retocada na maquiagem, me - respondeu Kara.
_ E eu preciso conferir se o meu penteado no est desmanchando - acrescentou Miranda.
Kara, Miranda e o resto das garotas debandaram para o quarto de Kara, deixando a ns, rapazes, zanzando pela sala e conversando sobre o ltimo jogo de basquete do 
time masculino da escola. Alguns deles pediram minha opinio a respeito dos prximos jogos e do futuro desempenho do nosso time, o que serviu para fazer-me lembrar 
de novo de Caroline. Respondi num tom ausente, enquanto olhava para o nada atravs da janela e me perguntava se, quela altura, ela j estaria cuidando da rvore 
de natal das crianas carentes.
Quando as garotas voltaram, ajudei Miranda a vestir o seu criminoso casaco. Em seguida todo mundo se apinhou na perua dos Robbins. As garotas haviam planejado ir 
ao baile em turma, mas no tinham pensado em quanto ns todos ficaramos apertados em um nico carro. Agora, na maior cara de pau, elas nos anunciavam que todo aquele 
que no estivesse usando vestido teria de se amontoar no bagageiro da perua, deixando espao suficiente para que as empetecadas madames no amarrotassem seus longos.
Miranda acabou se sentando no banco da frente, e eu me senti secretamente aliviado por estarmos longe demais para conversar.
Ao chegar ao casaro do buf em que se daria o baile, ajudei Miranda a descer da perua, e ns todos andamos em grupo at a porta de entrada. Eu s conseguia pensar 
em quanto me sentiria feliz e animado se estivesse ali com Miranda um ms antes, e no xtase que sentiria agora se tivesse Caroline em meus braos.
A msica j ressoava no interior. Bem na nossa frente, uma garota lindssima com um belo vestido vermelho deslizava para dentro, com seu companheiro segurando a 
porta para ela.
- Rapaz, olhe s! - disse uma voz masculina bem atrs de mim, seguida pelo som de uma bolsa estalando contra um ombro.
A garota lindssima era Caroline. E seu companheiro era Wade Hamilton.

17 - MOMENTOS DE AGONIA

_ o que h de errado, Jake? - perguntou Miranda, agarrando meu brao. - Voc escorregou no gelo ou algo parecido?
Neguei com um gesto de cabea, amaldioando a mim mesmo.
Devo ter cambaleado ao ver Caroline com Wade. Rangendo os dentes, respirei fundo. "Pois , sabicho", pensei, "voc devia estar preparado para isso. Agora no deixe 
ningum perceber que est pensando em outra garota. Hoje  a noite de Miranda. Pense nos sentimentos dela, seu panaca."
Miranda me encarava com uma expresso preocupada.
_ Desculpe, Miranda - eu disse apressadamente.
_ Voc trouxe as entradas? - perguntou ela, impaciente.
Subitamente me dei conta de que ainda estvamos na porta de entrada, e que todos atrs de ns esperavam para entrar.
_ T frio aqui fora, cara - reclamou Chad. - Se mexe.
_ Ah ... claro, claro - assenti.
Logo que mostrei as entradas ao porteiro, Miranda e eu fomos praticamente empurrados para dentro do salo.
Respirei fundo ao entrar. O salo estava lindo. Os pingentes de gelo e os flocos de neve cintilavam com as luzes. Uma banda tocava numa espcie de palco bem no centro 
da pista de dana, e j havia casais danando. Era como se o sonho romntico de algum tivesse se tornado realidade. Infelizmente no era o meu sonho.
No fundo eu havia imaginado que, naquela noite, Caroline estaria ajudando na distribuio dos presentes s crianas carentes.
No esperava v-Ia no baile. Ela e Wade deviam estar firme. Graas a mim, Caroline tinha encontrado o cara perfeito.
Graas a mim, esse cara no era eu.
- Jake, voc est se sentindo bem? - perguntou Miranda.
- Claro - menti.
Eu precisava me recompor rpido. Usando o guarda-casacos como desculpa, sa andando e tentei clarear as idias. Contudo no conseguia parar de lanar olhadelas na 
direo de Caroline. O guardador de casacos teve literalmente de passar fichas na frente de meus olhos para quebrar meu estado hipntico.
Quando retornei  mesa, encontrei outra desculpa para me afastar. 
- Voc quer um pouco de ponche? - perguntei a Miranda.
Ela fez que sim com um gesto de cabea, e eu sa andando de novo, dessa vez na direo da comprida mesa repleta de ponche e salgadinhos, com a esperana de poder 
olhar mais de perto para Caroline e Wade.
Caroline estava simplesmente incrvel. Seus longos cabelos escuros estavam puxados para trs, deixando seu rosto limpo, e caam numa catarata de cachos por sua nuca. 
Seus lbios tinham um toque leve de batom, e uma gargantilha de ouro envolvia delicadamente seu pescoo. O vestido vermelho escuro fazia os seus olhos parecerem 
mais claros que de costume, e todo o seu rosto parecia brilhar.
Infelizmente Wade estava humilhando o restante de ns, rapazes. Ele vestia o smoking com a mesma naturalidade com que usaria uma roupa de palhao. Olhar para ele 
fazia com que eu me sentisse um impostor, um garotinho vestido de gente grande.
E o jeito como Caroline sorria para ele tampouco me fazia sentir bem. Nada bem. Ser que em to pouco tempo ele j tinha se tornado algo to srio para ela?
Enquanto eu olhava, Wade esticou seu brao e o passou por cima dos ombros de Caroline. Fechei os punhos, com vontade de expuls-lo para longe dela.
No que eu faria isso, claro, mas a gente tem o direito de sonhar.
Quando Caroline levantou um copo de ponche  altura dos lbios, eu me lembrei de que tambm estava indo buscar bebida para ns. Porm, quando voltei para a mesa, 
com um copo em cada mo, Miranda no estava mais l.
_ Aonde ela foi? - perguntei a Kara, a nica pessoa que sobrara ali.
Ela franziu a testa e acenou com a cabea na direo da pista de dana.
Miranda estava danando com Chad.
_ Voc podia ser um pouco mais atencioso - espetou Kara.
_ O Chad estava comeando a ficar com pena da Miranda, sabe?
Suspeitei que Chad sentia algo mais do que pena por Miranda. Ele aproveitava cada oportunidade que tinha para se aproximar dela. Pobre Kara. Chad estava ignorando-a 
descaradamente.
Foi ento que eu me dei conta de que estava fazendo exatamente a mesma coisa com Miranda.
_ Voc quer danar? - perguntei.
Kara fez que sim com um gesto de cabea. Fomos para a pista e danamos em silncio. Quando a msica terminou, eu a conduzi at Miranda e Chad, e ns invertemos os 
pares.
A msica seguinte era mais lenta do que a anterior. Lenta e terrivelmente romntica. Enlacei Miranda em meus braos e comeamos a balanar. Um dia esse tinha sido 
o meu sonho. Agora tudo o que eu queria fazer era virar o rosto e olhar para Caroline mais uma vez.
_ Ai! - exclamou Miranda. - Voc pisou no meu p, Jake! O que h de errado com voc hoje? 
_ Desculpe - murmurei. - Erro meu. 
Como sempre. "Se voc tivesse a cabea em cima dos ombros, Magee, poderia estar com Caroline em seus braos. Agora tem de ficar vendo a menina nos braos de outro 
cara." Aquela ia ser uma longa noite.
E, como que para confirmar meu pensamento, vi Caroline entrar na pista com Wade. Os dois balanavam suavemente ao som da msica, e me pareceu que ele a apertava 
demais.
_ Nunca pensei que o Wade fosse to atrevido - murmurei.
Miranda me olhou surpresa.
_ E que importncia tem isso pra voc? - perguntou.
Pude perceber uma certa desconfiana no tom de voz dela. E me lembrei do que meu pai dissera: eu tinha uma obrigao para com Miranda. Ao me lembrar do que ele falara 
sobre promessas e cavalheirismo, engoli em seco.
- No me importo nem um pouco - respondi, culpado.
Miranda parou subitamente de danar.
- Venha, Jake. Vamos tirar as nossas fotos antes que o meu penteado comece a desmanchar - disse ela.
Eu a segui na direo do fotgrafo com a mesma disposio que costumava ter para levar o lixo para a rua. Miranda checou sua maquiagem num minsculo espelho enquanto 
permanecamos na fila esperando por nossa vez.
- Voc j votou para a Rainha da Neve? - perguntou ela depois que o fotgrafo bateu a foto.
Fiz que no com um gesto de cabea, e ela fez uma careta.
- Ento v e vote j - ordenou. - A urna est perto da porta de entrada.
- Voc no vem?
- Eu votei enquanto voc estava zanzando perto da mesa do ponche - respondeu ela energicamente._ Mas voc tambm tem de votar.
Era mais do que bvio em quem ela esperava que eu votasse.
Fui l, peguei uma cdula e votei em Miranda. Eu nem sequer sabia quem eram as outras candidatas. Quando vi Sid se aproximando, alinhado em seu smoking escuro, enfiei 
minha cdula na urna.
- Como vo as coisas? - perguntou ele. - Voc est parecendo to animado quanto o meu pai quando o Michigan perde o jogo.
- Caroline est aqui - retruquei.
- E isso  ruim?
- Ela est com o Wade - esclareci.
- Ah... Isso  ruim.
- E onde est a Shelley? - indaguei.
- No banheiro, se arrumando para as nossas fotos. Voc j tirou?
Fiz que sim com um tristonho gesto de cabea. "Uma preciosa lembrana de uma noite inesquecvel", dizia o anncio do fotgrafo.
Sid riu.
- Fica frio. Esta noite no vai durar pra sempre _ disse ele.
- Me repita isso daqui a uma hora - devolvi, respirando fundo. - Acho melhor eu voltar pra l.
- A gente se v mais tarde. Anime-se.
Voltei para a nossa mesa, e mais uma vez Kara era a nica pessoa sentada.
- Eu realmente gostaria que voc ficasse perto da sua namorada - resmungou ela.
- Miranda quis que eu fosse votar - rebati. - Talvez voc devesse ficar mais perto de Chad, ou bater um papo srio com ele.
Ela franziu as sobrancelhas, e eu virei o rosto para procurar Caroline. Ela estava sentada em uma das mesas, conversando com Wade. Parecia completamente feliz.
Eu tinha perdido as minhas chances com ela. Caroline se afastara de mim para sempre.
Sem nenhuma esperana pela frente, achei que deveria pelo menos me esforar para fazer Miranda feliz.
Quando a msica terminou, tirei Miranda de Chad, e danamos a seguinte juntos.
- Por favor, no me aperte tanto - disse Miranda. - No quero amassar o meu vestido. E cuidado, no toque no meu cabelo.
- Ns j tiramos as nossas fotos -lembrei.
- Talvez haja outras mais tarde - insinuou ela, sem me olhar nos olhos.
Ah, claro, se ela ganhasse o concurso de Rainha da Neve.
Segurei Miranda com cuidado enquanto danvamos a msica lenta, mas eu estava completamente ausente. Enquanto divagava, uma viso me veio  cabea: Caroline em meus 
braos, ns dois envolvidos pela msica, Caroline apoiando sua cabea contra meu rosto sem se importar com seu penteado, Caroline sorrindo para mim, aqueles lbios 
brilhantes e vermelhos dela se entreabrindo ...
- A msica acabou, Jake - disse Miranda, me arrastando de volta  realidade. - Vamos ver quem est por a.
Ela saiu mariposeando pelas mesas como uma socialite experiente, mas eu no quis acompanh-la. Quando voltava para a nossa mesa, escutei aquilo que me pareceu, pela 
milsima vez, o refro que ela repetia a todo mundo: "No se esquea de votar para Rainha da Neve".
- Voc acha que Miranda vai ganhar? - perguntei a Kara quando me sentei.
Ela me olhou como se eu fosse um demente.
- Acho que voc no tem enxergado muito bem o que acontece  sua volta ultimamente, no , Jake? Voc tem a mnima idia de quanto Miranda trabalhou neste baile? 
Claro que ela vai ganhar. Ela fez mais do que qualquer pessoa para que o baile fosse um sucesso.
- Ah... que bom pra ela - eu disse, sem emoo alguma.
Miranda continuava a mariposear, de forma que decidi dar mais uma escapada e procurar por Sid e Shelley. Quando sa para o vestbulo, vi uma cena que me golpeou 
como um soco no estmago.
Caroline estava l, sozinha, de p ao lado do telefone pblico, com uma mo no rosto.
Ela estava chorando.

18 - VAMOS SALVAR O NATAL!

o que Wade tinha feito para Caroline chorar daquele jeito? Tive vontade de sair atrs dele e enfiar sua cara dentro da tigela de ponche. Mas eu sabia que seria melhor 
falar com Caroline e descobrir o que havia de errado.
A viso dela chorando era devastadora. Senti algo se contorcer dentro de mim. Estiquei o brao para toc-la, mas me lembrei, quase que com uma dor fsica, de que 
eu no tinha o direito de fazer isso.
_ Caroline - perguntei com calma e cuidado -, o que aconteceu?
_ Eles perderam os presentes - respondeu ela, soluando. _ Os presentes de Natal das crianas carentes.
Eu pisquei, tentando digerir aquelas palavras.
_ Como algum poderia perder um caminho carregado de presentes? - perguntei
_ A  que est. Eles perderam o caminho. - Ela respirou fundo, tentando se controlar. - J deveriam estar distribuindo os presentes. _ continuou. - Todas as crianas 
j esto no centro comunitrio esperando, e j h algum l vestido de Papai Noel, pronto pra entregar os pacotes a elas. Eu liguei pra l pra perguntar  minha 
me como estava indo tudo, e a ela me contou ...
_ Como, Caroline? Como pde acontecer uma coisa dessas? _ interrompi, pensando em Kevin e em todas aquelas crianas esperando por presentes que talvez nunca chegassem. 
Nada de Natal para todas elas? A idia me partia o corao.
_ Havia dois homens no caminho - comeou a explicar ela, enxugando os olhos e tentando se acalmar. - O caminho quebrou e um deles foi buscar ajuda. Mas ele j 
 meio idoso, e no meio do caminho comeou a sentir dores no peito. Um motorista de uma perua de entregas o pegou a algumas ruas de distncia e o levou para o hospitaL 
O homem teve um leve enfarte, e mame disse que ele vai ficar bom. Mas por enquanto no consegue se lembrar de onde est o caminho quebrado. O homem que o levou 
ao hospital sumiu antes de que algum pudesse falar com ele.
- Mas e o outro homem no caminho? - perguntei. - Ele no vai fazer nada ao perceber que o primeiro homem no volta? 
Caroline me olhou desolada.
_ O outro homem, o Stanley, ele ... Ele  o que minha me chama de "mentalmente comprometido".
_ Ah!. ... - exclamei. - Ento ele no vai saber o que fazer, provavelmente.
Caroline confirmou com um gesto de cabea.
_ Ele faz tudo direitinho quando segue instrues, mas numa situao nova ... Se o senhor Powers lhe disse pra ficar no caminho at ele voltar, ento  isso o que 
ele vai fazer. Vai ficar no caminho a noite inteira, esperando que algum venha. E lodos os presentes vo ficar l esperando com ele.
_ E ningum pode fazer nada?
_ Mame disse que h vrias pessoas na rua procurando, mas eles no sabem que caminho o motorista estava tomando. At agora no acharam nada.
"O caminho vai acabar sendo encontrado", pensei, "mas talvez no a tempo para a festa de Natal".
_ Como vou poder aproveitar o baile pensando o tempo todo naquelas crianas esperando pelos presentes? - disse Caroline, engolindo outro soluo.
_ No vamos aproveitar - repliquei, com um tom decidido._Vamos fazer alguma coisa. Vamos encontrar esse caminho.
De jeito nenhum eu iria deixar aquelas crianas sem Natal!
Alm do mais, eu atravessaria a p a cidade inteira, se preciso, para tirar aquela expresso arrasada dos olhos de Caroline.
Mas andar a p no era l muito prtico. Ns precisvamos de rodas. Gemi ao me lembrar subitamente de que tinha deixado meu carro na casa de Miranda.
_ Precisamos de alguns caras que estejam de carro - expliquei. _ Quem voc acha que poderia nos ajudar?
_ No sei _ respondeu Caroline, parecendo um pouco mais esperanosa ao compreender o que eu estava planejando. - Vamos comear a perguntar.
Caroline se dirigiu a um grupo de garotas, e eu vi Miranda conversando com Danny Erickson e alguns de seus amigos. Corri at eles.
_ Precisamos de ajuda - comecei a lhes dizer.
Miranda arqueou as sobrancelhas.
_ Qual  o problema? Algum se machucou? - perguntou ela. 
_ Mais ou menos isso.
Dei uma rpida explicao a respeito da campanha beneficente dos presentes de Natal, do caminho desaparecido e da nossa idia de sair e ajudar a encontr-lo.
_ pobres crianas - disse Danny.
Os outros concordaram com um gesto de cabea.
_ Eu vou ajudar _ decidiu ele. - Estou com a minha pickup aqui.
_ Uma caminhonete vai ser perfeito - aprovei -, porque se encontrarmos o caminho quebrado podemos carregar os presentes nela.
Miranda fez um gesto afirmativo com a cabea.
_  uma tima idia - disse ela. - Assim que o baile terminar ns va ...
_ No! _ interrompi. - Voc no entendeu bem! As crianas j esto no centro comunitrio esperando. Temos de achar os presentes o mais rpido possveL
_ Mas voc ainda no pode ir embora! - exclamou ela, com os olhos arregalados e um tom de voz agudo e quase histrico. Eu trabalhei to duro para este baile ... 
E a eleio ... Logo eles vo coroar a Rainha da Neve e.. e...
_ Eu j votei _ interrompi de novo, tentando acalm-la -, mas no posso ficar aqui festejando enquanto aquelas crianas perdem o seu Natal
_ Se voc for embora agora, Jake Magee, eu nunca mais falo com voc! _ guinchou ela, com voz esganiada.
- Sinto muito, Miranda, mas eu acho que isso  mais importante. Eu votei em voc, e realmente espero que voc ganhe a coroa de Rainha da Neve, mas estou indo embora. 
 uma coisa que tenho de fazer. Deu pra entender?
Miranda empinou o nariz.
- Voc s est fazendo tudo isso por ela - disse, apontando para Caroline com o queixo.
Ser que Miranda tinha reparado em mim e Caroline juntos na semana anterior?
- No - repliquei. - Quero dizer, tambm, mas eu ia querer ajudar as crianas mesmo que Caroline no tivesse nada a ver com essa histria.
- Ah, claro - terminou ela, se virando bruscamente e partindo com um ar arrogante.
Danny foi pegar seu casaco, e seus dois amigos concordaram em participar da operao. Caroline apareceu com mais dois garotos. Wade no era um deles.
- E o Wade? - perguntei.
- No vai. Ele no ficou muito entusiasmado com a idia de abandonar a festa - explicou Caroline. - Mas ns j temos duas caminhonetes, um carro e cinco rapazes, 
mais voc e eu. Ou pelo menos eu - disse, com um olhar pensativo. - Voc no precisa ir se no puder, Jake. Miranda parece ter ficado muito irritada, e ela provavelmente 
vai ser coroada Rainha da Neve. Sem dvida quer que voc esteja ao lado dela nessa hora.
- Eu j falei pra Miranda que estou indo - limitei-me a declarar. - Quero que essas crianas recebam os seus presentes a tempo. Miranda tem um monte de amigos aqui 
pra acompanh-la na coroao.
Caroline me encarou, seus olhos amendoados bastante srios.
- Tem certeza? - insistiu.
- Absoluta - confirmei. - S lamento no estar com o meu carro aqui.
- Por que voc no vem comigo e Danny? - sugeriu. Eu conheo algumas das rotas que o motorista pode ter tomado.
Vamos nos encontrar na entrada do estacionamento em cinco minutos e mapear as reas em que o caminho pode estar, para que cada grupo cubra uma delas e no desperdicemos 
esforos.
_ Certo - concordei. - Vou s pegar o meu casaco.
No caminho de volta, cruzei com Wade.
_ Oi, Wade. Voc vai ficar, no ?
Ele confirmou com um gesto.
_ Miranda no ficou nem um pouco contente por eu estar indo embora - expliquei a ele. - Se ela for coroada rainha, voc poderia acompanh-la at o pdio por mim? 
No quero arruinar a noite dela, mas encontrar os presentes  mais importante.
Ele me olhou fixamente, e em seguida aprovou com um lento movimento de cabea.
_ Tudo bem. Ela vai estar em boas mos comigo - garantiu.
_ Na verdade, o namorado dela  meu primo. Ele estuda na St. Andrew, mas como quebrou a perna na semana passada no pde acompanh-la ao baile. Foi legal da sua 
parte se oferecer na ltima hora.
_ Ah... H-h ... - respondi, tentando digerir aquilo. 
Umas poucas semanas antes - ou melhor, uns poucos dias antes - eu teria ficado completamente arrasado. Mas naquela noite aquela surpresa s me fez rir.
Eu no precisava mais me preocupar com Miranda. Era bvio que ela sabia tomar conta de si mesma muito bem.
_ Obrigado, Wade - conclu, me virando e saindo do salo com uma nica coisa em mente.
Caroline e eu tnhamos de salvar o Natal daquelas crianas.

19 - CAROLINE, MEU AMOR ...

- Acho que somos o esquadro de resgate mais bem-vestido da cidade - brincou nervosamente Caroline, enquanto se sentava entre Danny e eu na cabine da caminhonete 
dele.
Ns dois estvamos to apertados um contra o outro que a respirao dela e cada movimento de seu corpo me faziam estremecer. Meu brao encostava no seu, e quando 
ela girava a cabea para vasculhar com a vista as ruas escuras, seus cabelos roavam em meu rosto. Captei um aroma suave, algo como flores na primavera, que me fez 
formigar da cabea aos ps.
Assim ficava difcil me concentrar na busca, mas a preocupao de Caroline me manteve na linha. Passvamos por trechos iluminados pelas luzes da rua aqui e ali, 
e na maior parte do tempo olhvamos angustiados para a escurido que havia entre um trecho iluminado e outro. Havia inmeros carros e caminhes estacionados no meio-fio, 
e cada vez que vamos um que Caroline achava parecido com o da campanha, tnhamos de reduzir a velocidade, dar marcha  r e inspecionar cuidadosamente.
Contudo, a cada vez Caroline balanava a cabea e dizia: "No  esse". E l amos ns de novo. Era um processo lento.
Rodamos por quase uma hora, conferindo uma rua escura atrs da outra. Mais de uma vez pude perceber um brilho de lgrimas nos olhos de Caroline.
Eu tinha vontade de reconfort-la e dizer-lhe que, mesmo que no encontrssemos o caminho naquela noite, poderamos levar os presentes s crianas no dia seguinte 
ou depois, quando eles fossem encontrados. Mas eu sabia que no seria a mesma coisa. A promessa de Natal rompida permaneceria no corao delas por muito tempo. Seria 
mais uma decepo para crianas que provavelmente j haviam sentido muitas.
_ Eu queria tanto que elas tivessem pelo menos um Natal feliz... - disse Caroline suavemente.
Ela devia estar pensando exatamente o mesmo que eu. 
Dei uma olhada em meu relgio.
_ Elas ainda esto no centro comunitrio - observei. - E ainda vo ficar l mais um tempinho, certo?
Caroline fez que sim com um movimento de cabea. 
_ Eles organizam jogos com as crianas e do biscoitos, doces e refrigerantes. Mas enquanto ns no chegarmos l com os presentes, o Papai Noel no pode aparecer. 
E  por ele que todas elas esto esperando.
_ A gente vai encontrar o caminho - assegurei, pegando na mo dela e apertando-a.
Dessa vez, ao contrrio da outra, no jogo de basquete, ela no ficou surpresa. Retribuiu o aperto e soltou um suspiro profundo.
Depois de mais dez minutos, Danny estacionou a caminhonete ao lado da calada.
_ Bom, a gente j cobriu a nossa rea - disse ele. - Vamos s perder tempo se comearmos a repassar a rea de outra pessoa.
_ No podemos parar agora! - protestou Caroline. - O caminho tem de estar em algum lugar!
Um gato de rua que vadiava num beco sumiu de vista.
Olhei para onde estava o bichinho, desejando que ele encontrasse algum lugar quente para passar a noite. Ento uma idia me iluminou.
_ Caroline, voc acha que eles poderiam ter tomado um atalho? _ perguntei. - Talvez cortando caminho por alguma dessas ruas laterais ... A gente s cobriu as principais.
Ela me olhou surpresa.
_ E por que o senhor Powers faria isso?
_ Quem sabe? Neste exato momento ele est deitado numa cama de hospital. Quando tivermos condies de fazer essa pergunta a ele, j vai ser tarde demais para a festa 
de Natal.
_ Certo, Jake - concordou Caroline, ainda insegura. - Acho que vale a pena tentar. A esta altura, qualquer tentativa  vlida.
Danny deu meia-volta na caminhonete e ns comeamos a passar um pente fino nas ruas laterais, novamente parando para inspecionar cada caminho estacionado que avistvamos. 
Cerca de quinze minutos mais tarde, vimos um caminho no canto de uma rua e diminumos a velocidade mais uma vez.
- Jake! - exclamou Caroline, excitada. - Eu acho que ...  aquele!  aquele o nosso caminho!
Danny freou bruscamente, e todos ns saltamos para fora.
Caroline se pendurou no estribo do caminho e bateu na janela da cabine.
- Stanley, voc est bem? - perguntou ela.
Um jovem de rosto redondo cochilava no assento dianteiro.
Ele acordou e abaixou a janela.
- Ah, oi, Caroline ... Voc veio consertar o caminho? _ perguntou ele, num tom confiante. - O senhor Powers pediu pra eu tomar conta dele, e eu tomei.
- Voc fez um bom trabalho, Stanley - respondeu Caroline gentilmente. - No, ns no vamos consertar o caminho ainda. Agora ns temos de pegar todas essas caixas 
e transport-las para o bagageiro da nossa caminhonete. Voc ajuda a gente?
- H-h - disse ele. - A sua me diz que eu sou muito ajudador, Caroline.
- Eu sei que voc , Stanley - concordou ela. _ Agora, vamos pr mos  obra, t legal? No temos muito tempo.
Stanley nos mostrou uma chave, e destrancamos o bagageiro do grande caminho. Ns quatro fomos pegando as caixas de presentes e acomodando-as cuidadosamente na traseira 
da pickup de Danny. Logo estavam todas carregadas e seguras.
- Agora temos de correr para o centro comunitrio antes que eles desistam e voltem pra casa - sugeri.
Caroline me cutucou, apontando para Stanley com a cabea.
- No podemos deix-lo a sentado num caminho gelado - disse ela. - Ele tem de vir com a gente.
Olhei para a cabine da pick-up. Trs ali dentro j era bem apertado. Quatro no iam caber de jeito nenhum.
- Quer que eu fique aqui? A caminhonete  do Danny, e  voc quem sabe onde fica o centro.
Ela sacudiu a cabea negativamente.
- Nem pense nisso. Foi voc quem teve a idia da operao de busca e salvou a situao. Se voc no se importar de eu me sentar no seu colo, d pra gente se virar 
- completou ela, corando.
"Me importar? Essa  boa", pensei.
- T legal - respondi simplesmente, e todos nos apertamos rapidamente dentro da pick-up.
Com suavidade, Caroline colocou um brao ao redor do meu ombro, e eu a segurei firme para que ela no batesse no pra-brisa quando a caminhonete passasse num buraco. 
Ela era mais leve do que eu esperava, e o suave tecido de seu vestido farfalhava quando ela se erguia para olhar pela janela. Adorei a sensao de t-la to perto 
de mim e desejei que a viagem durasse a noite toda.
Mas chegamos ao centro em dez minutos.
Caroline saltou para fora primeiro e correu para dentro do centro para avisar a todo mundo que os presentes tinham chegado.
Danny, Stanley e eu descarregamos as caixas e as levamos para o prdio pela porta dos fundos. Um homem vestido de Papai Noel estava l, enxugando a testa com um 
leno.
- Vocs encontraram os presentes! Que maravilha! O meu repertrio de palavras natalinas e brincadeiras j se esgotou faz tempo.
A me de Caroline veio para a sala dos fundos e nos ajudou a colocar as caixas no saco do Papai Noel.
- Jake, Caroline me contou que foi idia sua. Como posso agradecer a voc? Eu sinto muito por termos estragado a sua noite. 
Ela nem imaginava que aquela curta viagem de caminhonete com Caroline no meu colo valia mais que todos os bailes do mundo.
- Isto era mais importante - disse eu, apontando para os presentes com um gesto de cabea.
- Voc quer voltar para o baile j? - perguntou ela.
Dei uma olhada no meu relgio e deduzi que a coroao da Rainha da Neve j devia ter terminado. Cinco minutos a mais ou a menos no iriam fazer a menor diferena.
- No tem problema se eu ficar pra assistir  entrega dos presentes?
Ela sorriu para mim.
- Claro que no. Voc quer ajudar a distribuir os pacotes?
Eu sorri de volta.
- Quero - respondi, tirando meu casaco e minhas luvas, enquanto a me de Caroline dava gorros de Papai Noel a ns todos. Aquele gorro vermelho no combinava nem 
um pouco com o meu smoking, e imaginei que eu devia estar parecendo um perfeito idiota. Mas Caroline ficara tima. Seu tremeluzente vestido vermelho fazia seu rosto 
ficar mais rosado e seus olhos cintilarem.
Cada um de ns pegou um saco de presentes. Quando Papai Noel se dirigiu para a sala de frente, dizendo "ho! ho! ho!" e se sentando numa grande poltrona, ns o seguimos. 
Agudos gritinhos de excitao ressoaram pela sala quando as crianas viram os presentes comearem a jorrar para fora dos sacos.
Eu fiquei num canto e fui passando os presentes ao Papai Noel, que chamava o nome escrito na caixa. As crianas vinham uma de cada vez quando ele chamava. Uma menininha 
com o cabelo todo tranado se levantou timidamente e aceitou uma grande caixa, com os olhos arregalados de excitao. A prxima criana era um garotinho pequenino, 
sardento e ruivo. Eu prestava a mxima ateno enquanto Papai Noel proclamava os nomes das crianas. Onde estava Kevin?
Finalmente ele vociferou "Kevin". Um menininho mido com cabelo escuro encaracolado e grandes olhos castanhos veio andando lentamente. Kevin olhou para aquele homenzarro 
todo vestido de vermelho sentado na poltrona, como se inseguro a respeito do que aconteceria se ele se aproximasse demais.
A camiseta que Kevin usava era curta nos punhos e puda no colarinho, mas estava limpa. Seu cabelo havia sido cuidadosamente penteado, e havia migalhas de biscoito 
em seu queixo.
Papai Noel sorriu para ele e lhe ofereceu a pilha de caixas que eu tinha embrulhado cuidadosamente em casa. Torci para que ele gostasse do caminhozinho e das roupas. 
Seus olhos se arregalaram ao olhar para as caixas.
-  tudo pra mim? - ele perguntou, to baixinho que mal consegui ouvir suas palavras. - S pra mim?
_ S pra voc - disse Papai Noel, sorrindo por baixo da barba falsa.
Kevin pegou as caixas e voltou para o canto da sala, reunindo- se a uma menina que poderia ser sua irmzinha menor. Ela tambm tinha ganho uma caixa, que j havia 
aberto. Uma mulher, talvez a me dos dois, sorriu para ele. Eu observava Kevin atentamente, tentando no dar bandeira.
Quando ele abriu a primeira caixa e viu uma malha dentro, acariciou-a suavemente com a mo. Ento puxou a malha da caixa e comeou a vesti-la, afoito. Por um momento 
ficou entalado, que nem uma tartaruga com a cabea dentro do casco, balanando os braos. Por fim sua cabecinha brotou pela abertura.
Rindo, ele acabou de ajeitar a malha e olhou para baixo, para o prprio corpo, orgulhoso.
Senti uma bolota se formar na minha garganta, e engoli em seco a emoo. Kevin parecia to feliz. Examinou o resto das roupas rapidamente, at que encontrou o caminhozinho. 
Em segundos ele j estava completamente absorto a empurr-lo pelo cho da sala, engatinhando de quatro e dizendo baixinho "rumm, rumm", enquanto pilotava o brinquedo.
Eu me virei e reparei que Caroline me fitava fixamente.
_ Voc  uma boa pessoa, Jake - disse ela. - Voc tornou tudo isto possvel, sabe disso. Eu estou ... minha me e os voluntrios ... todo mundo est realmente muito 
grato a voc. E as crianas e as famlias delas,  claro que eles no vo saber, mas...
_ Isso no tem importncia - respondi, encabulado. - No preciso de nenhum agradecimento. S poder ver isto - e fiz um gesto na direo da barulhenta multido de 
crianas, dos pacotes abertos, da menininha sacudindo os braos dentro de seu casaco novo, do beb com um novo ursinho de pelcia, de Kevin ainda empurrando alegremente 
seu caminho por toda a sala -, s poder ver isto j  mais do que suficiente pra eu me sentir gratificado.
"E, alm disso, consegui fazer voc sorrir de novo", pensei orgulhoso. Quanto mais eu ia ter de esperar pra poder dizer a ela o que sentia? Mal consegui resistir 
ao desejo de me aproximar mais um passo, de enla-la com meus braos. Pensei no breve passeio de caminhonete e suspirei. Ser que algum dia eu poderia beijar aqueles 
lbios macios, tocar nas bochechas dela, abra-la com fora?
Caroline me olhou nos olhos e, em seguida, desviou o rosto.
- Acho que  melhor a gente voltar. O baile ainda vai durar uma hora ou mais.
Claro, ela queria terminar a noite com o companheiro dela. Meu astral desceu s trevas.
- Tudo bem ... - concordei com tristeza. - Vamos chamar o Danny.
Antes de partirmos, a sra. Willis me agradeceu de novo e o Papai Noel apertou minha mo vigorosamente.
- Voc fez uma operao de resgate digna da Swat e com a elegncia de um James Bond - disse ele, apontando para o smoking e dando um risinho de satisfao.
Stanley ficou com sra. Willis, para que ela pudesse lev-lo de volta para casa em segurana. Agora no haveria mais nenhuma desculpa para Caroline se sentar em meu 
colo. Eu ainda estava tentando imaginar um jeito de fazer com que ela percebesse o que eu sentia. Quando coloquei meu brao suavemente em volta de seu ombro, ela 
no pareceu se importar. Eu no queria desperdiar nada dos ltimos poucos minutos que teramos juntos, j que seria obrigado a devolv-la a Wade quando chegssemos 
ao baile.
- O que aconteceu com voc? - gritou Sid quando entrei no salo. - Shelley e eu fomos tirar umas fotos e, quando voltamos, ouvi dizer que voc tinha sado para caar 
o Papai Noel.
- Mais ou menos isso - respondi rindo.
Dei uma olhada geral na pista de dana, procurando por Miranda. Logo a avistei bem no meio da pista, rebolando nos braos de Chad. Uma coroa estava firmemente presa 
no topo de sua cabeleira loira. " melhor o Chad se cuidar", pensei, "se no quiser ser mordido por uma ..."
- Barracuda loira - murmurou Sid, como se fosse capaz de ler minha mente.
- Barracuda loira - murmurou Sid, como se fosse capaz de ler minha mente.
Ele apontou para ela com um gesto exagerado.
- Olhe s pra isso, companheiro - continuou, meio em tom de chacota. - Como  que essa belezinha, essa doura, pode fazer uma sacanagem dessas com voc? No d pra 
entender.
_ Miranda pode fazer o que quiser de agora em diante repliquei, balanando a cabea. - Simplesmente no faz mais a menor diferena pra mim.
_ Ser que voc est curado, Jake? - perguntou Sid.
_ ,  isso mesmo. Estou curado - repliquei.
Continuei a contemplar a pista por mais uns instantes, sentindo um pontada no peito. Miranda estava danando com Chad, Sid tinha Shelley, Caroline estava l fora 
em algum lugar com Wade ... Que noite! Virei-me para Sid.
_ Escute, quando vocs estiverem a fim de ir embora, voc se incomodaria ... voc e a Shelley se incomodariam de me dar uma carona at a casa de Miranda, pra eu 
poder pegar o meu carro que ficou l e voltar pra casa?
Sid sorriu e olhou para Shelley, que aprovou com um gesto de cabea e tambm sorriu.
_ Claro, levamos voc antes do nosso jantar.
_ A no ser que voc queira vir junto ... - acrescentou Shelley.
_ No, obrigado - respondi, rindo. - No vou ficar metendo o bedelho bem no fecho da grande noite de vocs dois.
A banda atacou uma nova msica, e Shelley fez um gesto para Sid. Ele se levantou e lhe estendeu a mo, e os dois caminharam na direo da pista de dana.
Eu no podia ficar ali sentado olhando todo mundo se divertir.
Era insuportvel. Levantei-me e fiquei perambulando pela sala. Bem no fim dela havia uma grande janela dando para a rua.
Caminhei at l, para ver se estava nevando de novo. O cu noturno estava lmpido, e s de vez em quando algum carro passava pela avenida.
Eu estava total e completamente s. Que bela maneira de terminar um baile de fim de ano.
Vi o reflexo no vidro da janela antes de ouvir o som abafado dos ps pisando no tapete. Imediatamente soube quem era e me voltei.
- Caroline!
Sozinha. Onde andaria Wade?
_ Voc est bem? - perguntou ela. - Eu vi Miranda l dentro, danando com Chad. Kara est no toalete feminino subindo pelas paredes, furiosa e planejando vingana. 
- Ela sorriu. - Fiquei imaginando onde andaria voc ... - continuou.
- Estou bem, acho - respondi. - Miranda conseguiu a sua coroa. No fundo era s isso o que ela queria desta noite. Eu e ela j somos histria.
- E voc no liga? - perguntou Caroline.
- Pra falar a verdade, estou aliviado - confessei com sinceridade.
- E quanto a voc e Wade? Est tudo bem?
- Est tudo bem - disse ela, fazendo eco a minha pergunta.
- Ah... - murmurei.
A decepo em meu tom de voz deve ter sido mais do que bvia, porque Caroline riu.
- J que voc  to bom pra resgates, Jake, talvez voc pudesse me fazer um favor - acrescentou.
- Claro - respondi, atordoado.
- Me dar uma carona at em casa... - disse ela, tentando manter a expresso de seu rosto sria mas no conseguindo evitar que o lbio inferior tremesse um pouquinho 
e que um sorriso despontasse em seus olhos.
- M-m-mas... e Wade? - gaguejei, sentindo uma ponta de esperana borbulhar dentro de mim novamente.
- Wade e eu somos apenas bons amigos - explicou ela solenemente, enquanto seus olhos amendoados piscavam. _ Garotos e garotas fazem isso s vezes, sabe? Quero dizer, 
sair por
a juntos, s como amigos ...
- J ouvi falar - disse eu, sentindo um sorriso crescer em meu rosto.
Ela se aproximou mais um passo. Eu a abracei pela cintura e puxei com fora para perto de mim, sentindo a carcia do suave tecido de seu vestido e do calor de sua 
pele quando ela passou os braos ao redor de meu pescoo. Ela era to doce quanto um confeito de Natal, to quente quanto uma lareira rugindo numa noite de inverno.
Finalmente eu estava beijando Caroline, e o zumbido dentro da minha cabea ficou mais alto que o som da msica que ecoava pelo salo de baile. O beijo pareceu durar 
uma eternidade e, ao mesmo tempo, no durar o suficiente.
Quando finalmente nos separamos, estvamos os dois sem flego.
- E ento, amigos de novo? - perguntei, sorrindo.
- Ah, no, Jake, de jeito nenhum - respondeu ela, tocando levemente com sua mo na ma de meu rosto. - Somos muito mais do que amigos.
Senti um calor se espalhando pelo meu corpo enquanto me inclinava para um novo beijo.
- Feliz Natal, Caroline.
- Feliz Natal, Jake - sussurrou ela, quando seus lbios j tocavam os meus. - Feliz Natal...


FIM


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